
Mário Viegas



Golegã
Perde-se no tempo a tradição da Feira Nacional do Cavalo, na Golegã. A pacata vila ribatejana anima-se ao longo de uma semana, albergando milhares de amantes da arte equestre e curiosos visitantes, com a nostalgia do afã da lezíria, doutros tempos. As casas senhoriais abrem-se em festa exibindo resquícios de uma fidalguia marialva enquistada entre a opulência e o bafio.
Coches... carruagens... amazonas, com garbo, trajando à portuguesa e à espanhola... homens metidos em fatos ajustados numa aprumada elegância de toureio, pouco conciliadora com protuberâncias, bandulhos e panças ...chapéus, esporas, chicotes, plainas, safões, abotoaduras... desfiles de moda inalteráveis e afirmados pelos costumes que não os deixam desabitados.
Várias modalidades desportivas se põem em evidência. Organizam-se ralies, raids, jogos equestres, campeonatos, maratonas de carruagens, exibições, concursos, exposições... onde toda a classe de cavaleiros e condutores pode ter cabimento e onde o público mais variado encontra motivo de distracção.
E no centro de tudo isto está a beleza dos enormes atributos do cavalo! A nobreza, a altivez, a inteligência, o porte...predicados que se aliam à excelência e ao apuro com que as coudelarias nacionais vão sabendo preservar as raças, em especial a do cavalo lusitano.
Na Golegã, por estes dias, os carros são substituídos por cavalos e cavaleiros...em cada casa uma tasca.Cocheiras atulhadas, cavalariças e boxes improvisadas, todo o espaço é pouco para dar guarida condigna ao belo quadrúpede.
Entre brumas de chuva e alveiradas de tradição, mescla-se o ar com o cheiro das castanhas assadas e excrementos do digno animal, numa profusão quente de aromas agridoces que nos remontam a épocas medievais.
Que o Tejo se acalme de inundações para que o acesso à vila ribeirinha não tire o prazer aos potenciais visitantes, que no Dique dos Vinte, alagado, encontram obstáculo natural a esta festa que do S. Martinho é cativa.


Noite das Bruxas
O dia foi cansativo e o trabalho deu-me tréguas tarde e a más horas. Sair de casa depois de jornada pontificada de imbróglios parecia-me coisa que necessitava de poção mágica de animação, que em mim sentia ausente.
A água quente que saía do chuveiro, os odores frescos do gel, shampoo e amaciadores fustigaram-me docemente e exorcizaram-me dos nós enlaçados nos nervos e tendões que me tolhiam o corpo.Sem demoras no arranjo, partia com a certeza que sorrisos amigos me esperavam e que justos me absolveriam de penas que as minhas ausências longas me infligem.
Três mulheres de peso ausente de gravidade. Os abraços como esponja esculpida de amizade e de fluidez de entendimento que nos encanta a todos. Reencontros sempre envoltos de uma ternura que fala com palavras sábias de umas, com olhares profundos e cúmplices de outras, com risos, mãos que se colam e que permanecem em dávida, num reiki de sensações e de cura.
Não foi de bruxas, a noite, mas que teve magia, teve!Chegadas à minha vida pela mão de companheiro a tempo inteiro, do"V. Exª, minha senhora"irónico, com que me presentearam quando as dúvidas do atraso na apresentação o justificaram, ei-las, agora, com a doçura dos diminutivos na fala, com os mimos nos gestos e a verdade no coração.
Um homem entre quatro mulheres! Quinteto maravilha que saboreia estes momentos como manjar divino, que tivemos também, no Dom Pepe, que vindo da Madeira assentou arraiais em Santarém, para excelência do palato.
E quando, noite alta, depois da romaria pela "montra de sabores", esvaziámos três garrafas de um espumante de verde vinho, que de Vila Verde, nos chegou, entre "aleluias! " e "mais nada!"despedimo-nos do enfeitiçamento do encontro com promessas- muitas- de novos encontros, ali logo agendados, que vão do Cartaxo à Croácia. Porque seja onde for, gostamos de estar juntos!
Bruxas? Só se foi para ele que entre as quatro se sentiu enfeitiçado! E da abóbora só ficou o doce acompanhamento ao requeijão!

"A articulação temporomandibular (ATM) é uma articulação que desliza e roda mesmo à frente do ouvido e que é formada pelo osso temporal (lado e base do crânio) e pela mandíbula (maxilar inferior). Os músculos de mastigação unem o maxilar inferior ao crânio, permitindo-lhe mover a mandíbula para a frente e para o lado e abrir e fechar a boca.A articulação funciona adequadamente quando o maxilar inferior e as suas junções (direita e esquerda) estão sincronizados durante o movimento".
Ao que parece andarei muito stressada( mas porquê? A vida dos professores dizem ser tão calma!) e, possivelmente, durmo com os maxilares cerrados involuntariamente o que terá descompensado a articulação. O dentista ainda me disse para andar, de dia, com a língua entre os dentes, mas eu não vou nessa! Ainda me mordia e morria envenenada!
Pois agora uso uma goteira oclusiva para me proteger os dentes de tal incómodo e incomodada ando com esta calha na boca, que embora invisível pela transparência, à fala deu nova inflexão. Belfa! Sopinha de massa! Assim ando eu!


Ecos do passado
Passado, presente, futuro. Linha cronológica de tempo que atravessamos registando o que vale a pena lembrar, glorificante ou não. O passado é tudo o que temos na nossa história, o que fez de nós o ser de que somos formados e com quem mais intimamente vivemos, com quem dialogamos tantas vezes em silêncio, em monólogos enquistados na procura de sentidos e de redireccionamentos. É nele que bebemos a sabedoria e o senso do momento. De quem se cruzou connosco ficam as marcas da passagem, anotações de grafia intrínseca, mais cuidada ou rabiscada conforme o merecimento do acontecido. Mas a história é a nossa e não devia ser vivida em função da dos outros.
Quantas vezes nos tornamos secundários quando era nosso o papel principal? Quantas vezes deixamos para os outros a escolha do nosso presente, descorando o futuro? Não nos sentindo anulados. Espanto! Mas entendendo que a mim tudo me é suportável e relativo enquanto que para os demais, e falo aqui dos que me são mais próximos e queridos, transcende o inaceitável de forma dolorosa e fermente.
Mas que lucidez insana é esta que me atravessa? Que calma é esta, que nos momentos de crise me faz pausar a voz em meditação na procura da saída, não repisando o olhar para o que de feito não tem remédio. Que sangue me corre nas veias? Serei barata travestida de mulher? Às pisadelas não dou reputação nem assentimento, pois não me sentindo vergada, esbarram na minha integridade sem nódoa de indiferença em mim, mas alongando-me, dúctil, na doçura do perdão.
Não sou deste mundo já!

Sonho
Do inconsciente tunante vem-me o mergulho na água pura e cristalina. Morna e serena de tumultos. Numa apaziguadora descoberta de ser guelras o que possuo no corpo, adapto-me ao meio. Como se ao mergulhar metamerfoses internas me mostrassem que me sinto como peixe na água. Dentro ou fora dela?Dentro ou fora de mim? Conjunto de idéias confusas e disparatadas, que durante o sono, se apresentam ao espírito em forma de fantasias, medos, utopias, aspirações.
"Água clara e calma garante a tranquilidade do momento actual, já água turva designa dificuldades a serem vencidas. Quando, além de turva, a água estiver agitada é aconselhável que se evite discussões desnecessárias, pois o resultado poderá levar ao rompimento de amizades ou amores. Se tomava banho e a água estava numa temperatura agradável - morna ou quente - pode contar com amigos sinceros; mas se provocar incómodo ou dor é possível que venha acontecer rompimentos. Se você nadava em águas calmas, espere comunicação de aumento salarial ou uma viagem, há tempos desejada , acontecerá."
Assim, aparentemente, não tenho nada a temer. Mas falta-me a interpretação freudiana para me dar mais sustento à convicção. Neste dia salpicado de chuva e de vento um sofá e psicanálise vinham a calhar.
Aos meus amigos
..." E eis que, ao subir da encosta, estava alerta
UMA ÁGIL ONÇA PRESTE NO SEU POSTO,
que de pêlo malhado era coberta;
e sem sair da frente de meu rosto,
tanto impedia aquele meu destino,
que a vir-me embora me senti disposto."
Dante
Correndo o risco de estar a ser dramática, sinal do estado pleno de revolta, assim vejo a vida dos professores, neste momento.
Hoje acordei assim. Com um prolongamento de ferro no braço direito. De ferro já só têm o nome, que eles agora são feitos de ligas leves para facilitar a tarefa! A música ou a televisão para preenchimento dos neurónios e alisamento das rugas que se cravam no meio da testa minimizam a monotonia do trabalho.E mãos à obra! Se à música damos ouvidos, do ferro fazemos bailarino do Bolshoi em coreografias rebuscadas percorrendo o palco da tábua, envolto em nuvens de fumo para criar um ambiente místico a condizer com a melodia. Se da televisão vem a distracção do momento...depende. Hoje andei com os Gatos Fedorentos em busca do sítio "onde se encontram gajas boas, memo boas, daquelas memo munta boas, que um gajo olha e diz : eh, pá! São memo munta boas!"Não cheguei a sitiá-las. Eles também não. Afinal a gaja boa que eles viram era uma bichona. Acontece!
Mas para entretenimento dei por mim cantarolando "Água fria da ribeira, água fria que o sol aqueceu....seis corpetes, um avental, sete fronhas e um lençol, seis camisas..." Um enxoval completo!
Lembrei-me das trouxas de roupa que mulherões de antigamente, levavam à cabeça ou em carroças, para os lavadouros municipais e para as valas e ribeiras. As mulheres daquele tempo sabiam caminhar numa postura correctíssima, à força de transportarem fosse o que fosse em cima de uma rodilha. Tinha técnica a rodilha, tecida que era no tear dos dedos e, no remate, a arte de resistir à caminhada árdua. Sempre alegres, faceiras, de rosto corado pelo sol. Cantarolando ao desafio, enquanto a roupa corava.
Tudo lhes saía do corpo num esforço desmesurado, sem máquinas de lavar, sem secadores de roupa, sem ferros eléctricos com caldeira e a vapor, com borrifadores integrados. O duro trabalho agrícola, desde a infância, pacificou-as na obediência, sacrifício, madrugadas, labores de sol a sol.
Roupa dobrada e borrifada, brasas no ferro, era pela calada da noite, enquanto todos dormiam, que passavam a roupa alva de brancura, em cima de mesas acolchoadas de cobertores velhos que amparavam os tecidos e suavizavam a passagem do ferro. Era na valentia de carácter que se distinguiam.
Tenho de ligar ao Ricardo Araújo...afinal já sei onde se encontram as mulheres boas, mesmo muito boas, que só de pensar nelas acho que foram do melhor!

A rotina matinal altera-se e, fora dos prazos para fazer as tarefas, reencontro prazeres renovados que me alimentam a paz. Primeiro, a volta à casa para perscrutar quem sempre se me adianta na alvorada. Ronronares de mimos fazem-se sentir em linguagens que só o afecto conhece. Comunicação e idioma universais que dispensam legendas e esclarecimentos ficando das figuras tristes o estilo. Logo de seguida, o cão espera uma dose do mesmo. Merecida para quem velou, toda a noite, pela segurança do lar, afastando indesejadas visitas só com a sua voz de trovão, avisando corpanzil majestoso. Dá para o gasto, fica a mais-valia da ternura.
Subo a escada-caracol que me encaminha ao sotão [abrigo meu] e abro a porta-janela que me desvenda a lezíria a meus pés. Os tons acobreados vestem-na de luz e beleza e a frescura da manhã tonifica-me os sentidos. Sente-se uma cedência terna do Verão em concílios assertivos com o Outono que se instala mansamente.
Vou sair e olhar mais de perto as mesclas escarlate das castas tintas. Da paleta outonal a cor que mais me seduz e fascina.