
Moralismos
Decadência de mentes desmoralizadas, que procuram reconstruir-se, arquitectando sentidos sujeitos a formulário. Especializam-se por temas, repetem-se casseteando vezes sem conta o discurso de nariz levantado, de dedo em riste, numa auto-estima quase sempre reticente. Outros há que de gramáticas de comportamento se tratam, tanta a regra de sintaxe que, para cada caso, alardeiam- para os outros claro! Surgem como pavões de penas descoloridas e perras no leque. De sorriso emperrado e quase sempre empedernidos por falta de humor( de amor?), transformam a vida dos outros em auditórios de seca.
Austeridade na receita é coisa que não me apraz. Gosto de fruir da liberdade, da imaginação e da vontade e com verdades absolutas há muito que me descasei. Do direito e do avesso observo as linhas com que me coso à vida e, pontos há, que nem sempre são aprimorados, pela urgência do momento, pela incerteza do olhar ou instabilidade momentânea, mas nada que me leve à fustigação e ao desnorte da integridade. Se comigo ressalvo pequenos deslizes, aos outros dou o mesmo benefício. Mesmo nos grandes trambolhões com traça de desacerto e de desequilíbrio previsível, existem códigos de jurisprudência que me levam a nunca julgar mas a tentar perceber a perspectiva do acidentado. Coisas da vida, razões que a própria razão desconhece! Nestes casos a palavra dita será sempre para recobro, esperando que ao outro não falte a luz no momento da aprendizagem.
Apegada à moral e à ética e respeitadora do direito, vêm-me esta tolerância de dentro sem necessitar de esforço para a cultivar. Placidez ou apatia dirão alguns. Respeito pelos outros, direi eu, com ausência de moralismos ferrugentos e ácidos de cinismo. Ojectividade ao entender que a vida não é trilho fácil e que cada um vai ripando o trigo da forma que pode. Saibamos reconhecer o jóio que em todos nós lavra e que isso nos leve a entender que na nossa eira ainda há muito por fazer.
De repente, achei-me moralista! Onde está a arma?
3 comentários:
Não poderia estar mais de acordo com o seu penúltimo parágrafo.
Há mesmo muito que fazer na nossa eira...
Um bom começo para compreendermos os outros (e a nós mesmos) é colocarmo-nos com os pés na "eira" deles...
O que vêem e sentem eles na posição/eira em que se encontram?
E compreender não é concordar... pois, às vezes, não há mesmo "pachorra" para nos transformarmos em "auditórios de seca"!
cresci com a frase "try to put yourself on the others' shoes" .. acho que tenho aprendido a lição ao longo da vida .. nem sempre é fácil .. mas nem sempre é difícil também .. :)
Adorei sine * Está tudo aqui numa escrita brilhante .. aquela a que nos tem habituado :)
beijinho e bom fim de semana
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