sábado, outubro 16, 2010
domingo, outubro 10, 2010
Fim de tarde
a visita aconteceu ao fim da jornada. caiu-me no olhar entrando pela janela do horizonte. primeiro tingiu-se em tonalidades de agressividade simbólica. os cinzentos marearam-lhe o rosto em ondas de castelos que cavalgavam espaços como fumarolas encardidas de sonho. revolveu-se em abraços de luta e dança num classicismo de corpos embriagados que se amam. instalou-se à minha frente. a tormenta do amor esfomeado regou a terra numa obliquidade temporária. depois a verticalidade dos corpos dos pingos era rega de afortunada colheita. orgásmica e louca. sorri-lhe. seduziu-me. um pássaro rasgou a fúria com asas de atrevimento. o ar riu do momento e desfez-se em abertas de um branco lírico. acalmou a melodia pesada na manta dos telhados. o céu reuniu-se em manchas de azul e pragas de branco. o sol espreitou. e fez-se a cama fofa da noite. terminou num até já.
domingo, setembro 26, 2010
Círculos fechados
o sol vai percorrendo a vida por onde ando.dizem que nasce. que se põe. não que eu o ache, mas até parece que da verdade se animam estas imagens. e soltam-se em círculos fechados. vão e voltam numa renovação gasta de vontades alheias. perpetuando o dia e a noite até que a viagem acabe. não para esse viajante parado. cheio de vida e coisas quentes e, aparentemente, eternas e ardentes. diabólicas as coisas que encerra esse tesouro do espaço (cheio de mistério e fantasmas leves que flutuam nos ares como bolas de sabão sopradas da boca de uma criança). mas dizia eu. que me perdi. o sol marca um ritmo qualquer ao qual obedeço. dá-me ordens e eu curvo-me. não que me apeteça realmente obedecer. afinal sou um animal selvagem dentro do fato da civilização. mas perdi as garras. quero arranhar as barbas do sol e deitar-lhe um balde de água fria dentro da barriga. subir-lhe para as costas e sentar-me a olhar a imensidão do meu jeito. porque o meu jeito é olhar. sentir com os olhos, com os ouvidos, com as mãos , os pés, esfregar o nariz na boca doce da vida. andar mais devagar agora que se faz tarde. e querem que corra. que supere os limites de mim. já não me apetece. quero fazer do sol um brinquedo. e jogar com ele ao esconde-esconde.
o sol vai percorrendo a vida por onde ando.dizem que nasce. que se põe. não que eu o ache, mas até parece que da verdade se animam estas imagens. e soltam-se em círculos fechados. vão e voltam numa renovação gasta de vontades alheias. perpetuando o dia e a noite até que a viagem acabe. não para esse viajante parado. cheio de vida e coisas quentes e, aparentemente, eternas e ardentes. diabólicas as coisas que encerra esse tesouro do espaço (cheio de mistério e fantasmas leves que flutuam nos ares como bolas de sabão sopradas da boca de uma criança). mas dizia eu. que me perdi. o sol marca um ritmo qualquer ao qual obedeço. dá-me ordens e eu curvo-me. não que me apeteça realmente obedecer. afinal sou um animal selvagem dentro do fato da civilização. mas perdi as garras. quero arranhar as barbas do sol e deitar-lhe um balde de água fria dentro da barriga. subir-lhe para as costas e sentar-me a olhar a imensidão do meu jeito. porque o meu jeito é olhar. sentir com os olhos, com os ouvidos, com as mãos , os pés, esfregar o nariz na boca doce da vida. andar mais devagar agora que se faz tarde. e querem que corra. que supere os limites de mim. já não me apetece. quero fazer do sol um brinquedo. e jogar com ele ao esconde-esconde.
quinta-feira, setembro 23, 2010

queria correr para aqui com vontade de abrir portadas. sacudir as palavras carcomidas pelo tempo. vasculhar cada lugar onde a memória se fez renda. limpar as vidraças das poeiras embebidas em pingos de chuva. talvez choro. queria retirar a música já riscada de cansaço...queria...mas não tenho força. ainda. há um muro a transpor e os braços e as pernas trôpegos a tremer. inertes. falta-lhes a mola da vontade. durmo num sono frenético entrecortado de lesmas e preguiças cansadas sem encosto. abandono-me ao tempo da mecha. serei a bolha que espera a primavera da alma. preciso de sol nascente. estou envolta em brumas misteriosas que não me dão tréguas. e eu sem força para levantar o ferrolho da vidraça finjo que adormeço. hiberno na vida que me prende.
quinta-feira, março 26, 2009
A princesa dos sonhos
Num país distante para lá da casa do vento, numa curva do tempo, entre as montanhas de sol e brumas, nasceu uma princesa de olhos tristes. A surpresa do olhar profundo e triste daquele bebé trazia consigo um segredo temível para quem a olhava de longe ou perto. Daqueles olhos grandes, de um castanho amendoado, soltavam-se espirais de nuvens cinzentas, que subiam no ar sempre que um adulto se aproximava dela.
No dia do seu nascimento, a manhã acordara cedo, com a nostalgia de ser Inverno,húmido e frio. As paredes do castelo onde nasceu, solitariamente desabrigadas, vestiram-se de trepadeiras que taparam as portas e as janelas. E quando se ouviu o primeiro choro da princesa, as nuvens taparam o sol para nunca mais se avistar naquele recanto do reino.
Cresceu num quarto forrado em algodão em rama para absorver a humidade que lhe saía dos olhos e, não havia médico, nem remédio capaz de secar aquela fonte imensa de vapor de água salgado.O pai da princesa era meio homem, meio leão e, todos os dias, saía cedo do castelo para ir caçar.Raramente se lembrava que a princesa existia. Quando ele chegava, ela ouvia a porta do castelo bater com força e corria para junto da rainha mãe que lhe soprava carinhosamente a nuvem acabada de se formar no olhar.
Às vezes, ela procurava o rei seu pai e falava-lhe das cores do seu mundo acabado de nascer e de como já conseguira deixar o céu azul durante toda a manhã, nos jardins do castelo. Mas as nuvens que se formavam enquanto falava, irritavam o pai que lhe rugia com os olhos vermelhos de sangue e raiva. Ela arrefecia nas nuvens cinzentas de chumbo que a envolviam e voltava para o seu trono.
O trono da princesa era alto demais para ela, fora construído a pensar na sua vida adulta. Para subir para lá ela sentia-se anã. Segurava-se com força e depois de muito se esforçar e não conseguir, vinha uma ama que a agarrava ao colo e a deixava sentada lá, com as pernas penduradas como pêndulos e os pés sem tocar no chão. Era ali o único lugar, onde conseguia espreitar o mundo dos adultos sem os achar gigantes e pensava se algum dia conseguiria entendê-los. Segurava-se bem para não cair e ficava ali horas a fio, a dobrar ideias, a falar com os seus botões, a desfiar rosários de palavras que nunca disse, a sonhar alegrias, a construir nuvens claras com formas de animais e figuras bizarras... chegava a sorrir. Quando isto acontecia, as figuras-nuvens evaporavam-se no ar como por magia. No seu trono dos sonhos, a princesa chegava a sentir-se feliz.
A princesa de olhos tristes foi crescendo e começou a espreitar o mundo ao seu redor, Reparava como as outras crianças da sua idade brincavam felizes nas ruas pobres e sujas do seu reino, de como se divertiam nas tardes frias de Inverno, durante as fracas alveiradas de sol...de como se empoeiravam de terra quente , durante os grandes dias de Verão... enquanto ela ficava sentada no trono, a tecer sonhos de rostos felizes,a desenhar estrelas cadentes que embelezassem as palavras, a pintar arco-íris cheios de aventuras e surpresas,a sonhar com olhos sem nuvens...
Um dia a princesa, saiu do castelo, atrevendo-se a ver a vida para lá daquelas paredes onde permanecia prisioneira do seu infortúnio. Quis saber como eram as pessoas para lá dos vultos que não ousavam olhar as ameias do seu mundo.Era um dia de Outono frio e gelado,quase Inverno. O vento agreste fustigava o corpo em golpes duros e impiedosos, mas rente à pele e ao coração, a princesa levava a esperança de encontrar alguém que a ensinasse a falar sem nuvens, a respirar os sonhos que acalentava, a descobrir o sol por detrás das montanhas de brumas em que se movia.Tremiam-lhe as pernas de insegurança, levava consigo os olhos grávidos de vapor de água e, nas nuvens cinzentas de chumbo, o frio aproximava as gotículas e construía alvos cristais que deslizavam para a terra. Desciam e cobriam de branco o que antes reflectia o negrume do céu.
As ruas estavam vazias de gente, não se avistava sequer um animal nas redondezas e ela continuava a andar como se soubesse o que procurava, como se tivesse a certeza que iria encontrar alguém que a ajudaria. Por fim, acabaram as casas e ela continuou a caminhada pelo pequeno bosque sombrio que ladeava o sopé da montanha da qual nunca avistara o cume.
Cansada e ansiosa, sentou-se numa pedra a descansar um pouco. Só o vento falava naquelas paragens e os ramos das árvores, dançavam pesados com copas de neve que se avolumavam. De repente, avistou um rapazinho que tremia apesar do bom agasalho que lhe cobria os ombros. Era alto e magro, as madeixas de cabelo revoltavam-lhe ao vento, permanecia de olhos fechados e expunha a cara para o céu, como que suplicando uma ajuda dos deuses. Tinha porte de príncipe, esbelto e audaz, e nas suas mãos segurava um lápis e um papel molhado onde estava desenhado um sol.
- Olá! - disse a princesa dos sonhos.
Ele abriu os olhos e esboçou um sorriso triste, enquanto se levantada para a cumprimentar.
- Olá, princesa! Sei quem tu és porque te vejo, às vezes, enquanto passeias no teu jardim.- disse o rapaz.
Enquanto falavam um com o outro, nuvens flutuavam de lá para cá. Sem nenhum dos dois se incomodar com o que acontecia, perceberam que ambos tinham sido amaldiçoados pela mesma doença. Todos os dias, a partir daí, se encontravam para conversar. Adivinhavam palavras, antecipavam sentimentos um do outro, sabiam de cor o sabor e cheiro das nuvens, o perfume salgado da solidão... Ele mostrava-lhe os desenhos que fazia para tecer a sua alma e as dos outros e ela as palavras que escrevia como luto dos sonhos inacabados.Ficaram amigos para a vida.
A cada dia se abria mais clareiras nos seus olhos, havia momentos em que tudo se dissipava no horizonte e uma claridade próspera os envolvia. Sorriam, nesses momentos e, dos olhos tristes de ambos, nasciam brilhos de tonalidades surpreendentes.Acreditaram que juntos sarariam aquele mar numa evaporação definitiva. Simultaneamente, ou à vez, encorajavam a vontade quando algum fraquejava. Arriscaram o convívio com outras pessoas para confirmarem a sua cura. Era preciso que cada um acreditasse que essa ligação era possível. Que os outros gostariam deles mesmo que o densidade nublosa surgisse de quando em vez.
Não se sabe ao certo o que aconteceu aos dois. No entanto, a princesa passou a acreditar nos seus sonhos. O rapaz, determinou-se na sua afirmação.
Sabe-se que da última vez que se viram, um céu azul cobria o mundo, cheio de sóis quentes e sem nuvens...
Num país distante para lá da casa do vento, numa curva do tempo, entre as montanhas de sol e brumas, nasceu uma princesa de olhos tristes. A surpresa do olhar profundo e triste daquele bebé trazia consigo um segredo temível para quem a olhava de longe ou perto. Daqueles olhos grandes, de um castanho amendoado, soltavam-se espirais de nuvens cinzentas, que subiam no ar sempre que um adulto se aproximava dela.
No dia do seu nascimento, a manhã acordara cedo, com a nostalgia de ser Inverno,húmido e frio. As paredes do castelo onde nasceu, solitariamente desabrigadas, vestiram-se de trepadeiras que taparam as portas e as janelas. E quando se ouviu o primeiro choro da princesa, as nuvens taparam o sol para nunca mais se avistar naquele recanto do reino.
Cresceu num quarto forrado em algodão em rama para absorver a humidade que lhe saía dos olhos e, não havia médico, nem remédio capaz de secar aquela fonte imensa de vapor de água salgado.O pai da princesa era meio homem, meio leão e, todos os dias, saía cedo do castelo para ir caçar.Raramente se lembrava que a princesa existia. Quando ele chegava, ela ouvia a porta do castelo bater com força e corria para junto da rainha mãe que lhe soprava carinhosamente a nuvem acabada de se formar no olhar.
Às vezes, ela procurava o rei seu pai e falava-lhe das cores do seu mundo acabado de nascer e de como já conseguira deixar o céu azul durante toda a manhã, nos jardins do castelo. Mas as nuvens que se formavam enquanto falava, irritavam o pai que lhe rugia com os olhos vermelhos de sangue e raiva. Ela arrefecia nas nuvens cinzentas de chumbo que a envolviam e voltava para o seu trono.
O trono da princesa era alto demais para ela, fora construído a pensar na sua vida adulta. Para subir para lá ela sentia-se anã. Segurava-se com força e depois de muito se esforçar e não conseguir, vinha uma ama que a agarrava ao colo e a deixava sentada lá, com as pernas penduradas como pêndulos e os pés sem tocar no chão. Era ali o único lugar, onde conseguia espreitar o mundo dos adultos sem os achar gigantes e pensava se algum dia conseguiria entendê-los. Segurava-se bem para não cair e ficava ali horas a fio, a dobrar ideias, a falar com os seus botões, a desfiar rosários de palavras que nunca disse, a sonhar alegrias, a construir nuvens claras com formas de animais e figuras bizarras... chegava a sorrir. Quando isto acontecia, as figuras-nuvens evaporavam-se no ar como por magia. No seu trono dos sonhos, a princesa chegava a sentir-se feliz.
A princesa de olhos tristes foi crescendo e começou a espreitar o mundo ao seu redor, Reparava como as outras crianças da sua idade brincavam felizes nas ruas pobres e sujas do seu reino, de como se divertiam nas tardes frias de Inverno, durante as fracas alveiradas de sol...de como se empoeiravam de terra quente , durante os grandes dias de Verão... enquanto ela ficava sentada no trono, a tecer sonhos de rostos felizes,a desenhar estrelas cadentes que embelezassem as palavras, a pintar arco-íris cheios de aventuras e surpresas,a sonhar com olhos sem nuvens...
Um dia a princesa, saiu do castelo, atrevendo-se a ver a vida para lá daquelas paredes onde permanecia prisioneira do seu infortúnio. Quis saber como eram as pessoas para lá dos vultos que não ousavam olhar as ameias do seu mundo.Era um dia de Outono frio e gelado,quase Inverno. O vento agreste fustigava o corpo em golpes duros e impiedosos, mas rente à pele e ao coração, a princesa levava a esperança de encontrar alguém que a ensinasse a falar sem nuvens, a respirar os sonhos que acalentava, a descobrir o sol por detrás das montanhas de brumas em que se movia.Tremiam-lhe as pernas de insegurança, levava consigo os olhos grávidos de vapor de água e, nas nuvens cinzentas de chumbo, o frio aproximava as gotículas e construía alvos cristais que deslizavam para a terra. Desciam e cobriam de branco o que antes reflectia o negrume do céu.
As ruas estavam vazias de gente, não se avistava sequer um animal nas redondezas e ela continuava a andar como se soubesse o que procurava, como se tivesse a certeza que iria encontrar alguém que a ajudaria. Por fim, acabaram as casas e ela continuou a caminhada pelo pequeno bosque sombrio que ladeava o sopé da montanha da qual nunca avistara o cume.
Cansada e ansiosa, sentou-se numa pedra a descansar um pouco. Só o vento falava naquelas paragens e os ramos das árvores, dançavam pesados com copas de neve que se avolumavam. De repente, avistou um rapazinho que tremia apesar do bom agasalho que lhe cobria os ombros. Era alto e magro, as madeixas de cabelo revoltavam-lhe ao vento, permanecia de olhos fechados e expunha a cara para o céu, como que suplicando uma ajuda dos deuses. Tinha porte de príncipe, esbelto e audaz, e nas suas mãos segurava um lápis e um papel molhado onde estava desenhado um sol.
- Olá! - disse a princesa dos sonhos.
Ele abriu os olhos e esboçou um sorriso triste, enquanto se levantada para a cumprimentar.
- Olá, princesa! Sei quem tu és porque te vejo, às vezes, enquanto passeias no teu jardim.- disse o rapaz.
Enquanto falavam um com o outro, nuvens flutuavam de lá para cá. Sem nenhum dos dois se incomodar com o que acontecia, perceberam que ambos tinham sido amaldiçoados pela mesma doença. Todos os dias, a partir daí, se encontravam para conversar. Adivinhavam palavras, antecipavam sentimentos um do outro, sabiam de cor o sabor e cheiro das nuvens, o perfume salgado da solidão... Ele mostrava-lhe os desenhos que fazia para tecer a sua alma e as dos outros e ela as palavras que escrevia como luto dos sonhos inacabados.Ficaram amigos para a vida.
A cada dia se abria mais clareiras nos seus olhos, havia momentos em que tudo se dissipava no horizonte e uma claridade próspera os envolvia. Sorriam, nesses momentos e, dos olhos tristes de ambos, nasciam brilhos de tonalidades surpreendentes.Acreditaram que juntos sarariam aquele mar numa evaporação definitiva. Simultaneamente, ou à vez, encorajavam a vontade quando algum fraquejava. Arriscaram o convívio com outras pessoas para confirmarem a sua cura. Era preciso que cada um acreditasse que essa ligação era possível. Que os outros gostariam deles mesmo que o densidade nublosa surgisse de quando em vez.
Não se sabe ao certo o que aconteceu aos dois. No entanto, a princesa passou a acreditar nos seus sonhos. O rapaz, determinou-se na sua afirmação.
Sabe-se que da última vez que se viram, um céu azul cobria o mundo, cheio de sóis quentes e sem nuvens...
quinta-feira, fevereiro 26, 2009

ouço a serena quietude do sobressalto das águas em meu redor. cascatas em regatos líricos permeiam-me o corpo. sinto o frio do degelo no núcleo central do sangue. pressinto a inundação das paredes gastas do corpo. uma imersão lenta num lago parado do tempo sem sol. a caliça da pele despe o murmúrio intenso feito olhares sem ombro. tudo pára. os ramos das árvores ainda nuas suspendem o vento. pesam o mundo num pendor de sono. mergulham na corrente lisa de atropelos. resta o silêncio forense dos montes longínquos. sombras irreais. como sonho parado na paisagem do pensamento. inerte. num ritmo contínuo de descontinuidades. afogo o silêncio no coito do dia com a noite e acendo as luzes fora de mim. o lado escuro da luz. o eco da luz dentro de mim traz-me aos ouvidos palavras cor-de-rosa. cinzentas. vazias. plenas de sentido. acalmo a torrente nas calotes de gelo e fogo e aqueço-me na alcova do ninho que me prende o olhar através da janela. há sempre janelas que me elevam o olhar...
quarta-feira, fevereiro 25, 2009
domingo, fevereiro 22, 2009

volta, estás perdoada- disse amigo que não conheço pessoalmente, mas que admiro por tudo o que escreve e transmite. saiu-me o sorriso e a saudade ao encontro de todos os que encontrei por aqui e dos quais tenho andado afastada. pode ser que o sol me anime a escrita. pode ser que a tempestade amaine os dias brancos e lisos de brumas de enxofre que me feriram a retina nos meses de ausência. pode ser que pinte um quadro de luz azul e o ofereça a quem me visita ainda. pode ser...
terça-feira, novembro 25, 2008
a página branca. imaculada. os olhos não podem ver o que escrevi no pensamento se das mãos não sair pegada. impressos a cinza amasso os risos e os choros. vazo-os no caldo quente das memórias revoltas e remexo tudo com carinho. um dia hão-de ser palavras escritas. agora são só folhas brancas por fora e prenhes de sons sem denominação audível. tanto por dizer. tanto por saber. tanto por pensar. tanto por fazer. estarei no tempo de construir e destruir reconstruindo por dentro. sempre. depois soltarei o pensamento como o vento no fim de uma tarde fria de outono. será agreste e cortante. um arrepio de alma sem sonhos de verão. será o perfume da terra molhada no pousio de restolho cortado. será o aroma dos frutos maduros. das flores com raízes suculentas e profundas. poderá ser tudo isso ou nada. por agora recolho as imagens. podo as palavras. planto a árvore. dela farei sombra e encosto para continuar aparentemente quieta e calada. se nada escrever nunca mais assinarei num coração o meu nome. esse está vivo e sente.
segunda-feira, novembro 24, 2008
nada que escreva me agrada. queria ser poeta e não sou. verbalizar os dias cheios de abril. sacudir ao vento as emoções. carregadas nas nódoas do olhar. nos arco-íris que visito sem folgas. diariamente. mostrar o meu tesouro escondido a sete chaves. ter um museu com visitas gratuitas só de palavras escritas nas paredes. e desenhos. muitos desenhos. desenhos com olhos que falassem. e almofadas. muitas almofadas espalhadas no chão, onde se sentassem a beber canecas de chá com aromas tão definidos que não fosse preciso perguntar a essência. onde se contassem histórias à lareira que crepitassem faúlhas do sono humano. onde houvesse aquela poção mágica que dá clareza às mentes e saúde aos corpos. queria um museu assim. uma casa aberta para todas as idades. com asas nas janelas e botas de sete léguas nas portas. hoje aqui, amanhã mais adiante. naquela curva do tempo. a sorrir do ido e a respirar futuro. queria ter esta casa. onde todos os que entrassem fossem felizes para sempre como nas histórias de infância. não por alienação ou ingenuidade. mas por aprenderem a sublimar a vida. a vivê-la como magia. a acreditar que o impossível acontece. de bom e mau. mas haverá sempre alguém em quem vale a pena acreditar.
terça-feira, outubro 28, 2008
domingo, outubro 12, 2008

momentos
uma agúdia chamou-me. há tanto tempo que não me ligavam nenhuma. fui ver. preta. reluzente. composta de metades cingidas por cinturinha de vespa. a mobilidade impressionou-me como sempre. tal como quando vejo um tractor manobrar um atrelado. pedia ajuda no transporte das pedrinhas que se amontoavam no caminho. sísifo dera-lhe aquele monte de pedrinhas para ela carregar. cansada daquela tarefa achou que eu viera do olimpo para a libertar da cruz. do alto do meu metro e sessenta e DOIS verguei-me à natureza outonal e quis saber da sua vida. falou-me em palavras "agúdias", grávidas de esperança e eu saí dali esdrúxula de conhecimento.
não. recuso-me a falar de como acabei por lhe queimar involuntariamente uma pata e de como pedi ajuda a um agudião que a levasse dali a voar.( a intenção era aquecê-la). que seja feliz no seu formigueiro. nunca mais aquecerei agúdias nem as usarei como isco aos pássaros. já lá vai o tempo em que com agúdias fazia holocausto. entrego-me ao tribunal internacional de Haia.
quarta-feira, outubro 01, 2008

assim sem vontade de escrever procuro as letras arrumadas em palavras e semeio-as ao vento fresco do sol posto. deixo ao critério manso deste outono crisálido o desfolhar das mensagens como se a vida andasse arredada da luz do dia. ouço os sons do sino da igreja anunciando horas que não simbolizam nada. não sei se o cão ladra ao som da crise instalada se afina a voz para uivar quando sairmos dela. a televisão opera os vegetais que somos numa inutilidade curativa. o silêncio da casa leva-me ao futuro repetitivo e ensurdecedor do barulho das paredes. o chip da transmutação instalou-se na soleira da alma e os números soltam-se-me no cérebro à procura da ordem crescente das prioridades sem lembrança de mim. seco a medula do trabalho horas a fio e fico encharcada dele pela noite fora como se mais nada fosse importante. adormeço e acordo só para vê-lo crescer e às vezes suspiro pela mama doce da preguiça.
ah, mas mesmo assim, os risos das crianças continuam a ser as páginas mais lindas do meu diário.
terça-feira, setembro 23, 2008

cheguei de longe e encontrei o mundo virado das avessas. deu-me uma trabalheira arrumá-lo sob as leis da lógica. tentei. juro que tentei. trabalhei dia e noite numa fona dos diabos. sempre que me virava o caos instalava-se. ria nas minhas costas. não. não sei bem se ria. possivelmente chorava. aquele ar palidamente esverdeado era confrangedor. só podia chorar. irritei-me na dúvida. voltei a fazer desesperada os consertos que se impunham e justificavam. enfrentei-o na tentativa de ordem. confrangia-me a mísero estado aquele desafio. assustou-me o grito rouco que saiu de mim. os olhos faiscavam labaredas. o paraíso das águas revoltava-se na tormenta do naufrágio. lancei a mão à boca e arranquei os gritos lancetados de fogo. lavei os olhos ardentes. abri a porta e deixei a luz entrar. branca. sentei-me a seu lado. não precisava olhar para mim. sabia-me ali. senti. quase. quase. quase. a sua mão na minha. a sua súplica. entendi-o. sorri-lhe. estava cansado também. vamos caminhar no caos de mãos dadas. pode ser que o amor devolva a serenidade ao seu mundo. ao meu também.
quinta-feira, setembro 18, 2008

tenho uma pena que não escreve direito. nem torto. deixou de escrever e voltou à garatuja de andar. solta de rumo. sem pena de penar. é uma pena minha. tão minha que me desenhou os olhos. o nariz. o oval do rosto. me pintou a tez morena. me ensinou as primeiras letras com tinta de dedos na terra macia onde descansava de voar. agora empenou o engenho de ensinar. não para descansar. nem olhar os desenhos conseguidos com orgulho. agora precisa de todo o amor para perder o sujeito e o predicado de pena.
domingo, agosto 10, 2008
quinta-feira, agosto 07, 2008

abri agora mesmo a boca para o céu. muito. pronta a engolir o universo num trago. num trago não. ficaria com sóis a mais no peito e eu gosto de brilhar só de vez em quando. ficaria com planetas a mais na barriga e eu gosto de olhar deste os que a minha vista alcança. ficaria involuntariamente com gases a mais na alma e eu gosto de me expelir só quando a companhia o merece. primeiro engolia o azul. fazia-me mar. polvilhava as nuvens de açúcar. enrolava-as no eixo da terra e sentava-me à sombra verde de um chaparro a lambuzar-me de orvalho doce. depois comia o chaparro. dormia a sesta e seria alternativa ao alqueva.
quinta-feira, julho 24, 2008

belo é o estuário do meu rio que corre d'ouro. meu ninho placêntico fundiu frutos silvestres no teu corpo menina. saber amar-te é verdade que nasceu cedo. salva de leite materno sorvido no pasto do meu corpo uniu o divino graal à estrada dos teus paços. procuro-os nos socalcos que percorres na montanha de baco. ao teu porto arribo em âncora de braços. deslaço a torrente. comportas a água do meu sal gema. convidamos o rio que corre pausado a teus pés e refrescamos o tempo separado pelo espaço das nossas nascentes. unidades soltas que circulam na intersecção para sempre. minha. tua.
sábado, julho 19, 2008

estou a tricotar uma vida cheia de pontos por aprender. a renda desta aprendizagem é paga em tempo. esqueço o sol que se demora e castiga os dias daqueles que têm da praia uma imagem quase pueril e distante. um jardim de sombras frescas e romanescas aparece, às vezes, como um prenúncio das férias anunciadas. continuo.
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