reflexos de vida no silêncio espelhado da água. fragas de vidro em descontinuidades do olhar ...

quarta-feira, fevereiro 25, 2009



a minha religiosidade é sofrível. mas de fé, crença, firmeza, convicção nas coisas e pessoas, intenção...tenho os bolsos cheios. verdade que, às vezes, dou por eles rotos. perco mesmo coisas importantes para a vida. a minha.



domingo, fevereiro 22, 2009





volta, estás perdoada- disse amigo que não conheço pessoalmente, mas que admiro por tudo o que escreve e transmite. saiu-me o sorriso e a saudade ao encontro de todos os que encontrei por aqui e dos quais tenho andado afastada. pode ser que o sol me anime a escrita. pode ser que a tempestade amaine os dias brancos e lisos de brumas de enxofre que me feriram a retina nos meses de ausência. pode ser que pinte um quadro de luz azul e o ofereça a quem me visita ainda. pode ser...


terça-feira, novembro 25, 2008


a página branca. imaculada. os olhos não podem ver o que escrevi no pensamento se das mãos não sair pegada. impressos a cinza amasso os risos e os choros. vazo-os no caldo quente das memórias revoltas e remexo tudo com carinho. um dia hão-de ser palavras escritas. agora são só folhas brancas por fora e prenhes de sons sem denominação audível. tanto por dizer. tanto por saber. tanto por pensar. tanto por fazer. estarei no tempo de construir e destruir reconstruindo por dentro. sempre. depois soltarei o pensamento como o vento no fim de uma tarde fria de outono. será agreste e cortante. um arrepio de alma sem sonhos de verão. será o perfume da terra molhada no pousio de restolho cortado. será o aroma dos frutos maduros. das flores com raízes suculentas e profundas. poderá ser tudo isso ou nada. por agora recolho as imagens. podo as palavras. planto a árvore. dela farei sombra e encosto para continuar aparentemente quieta e calada. se nada escrever nunca mais assinarei num coração o meu nome. esse está vivo e sente.

segunda-feira, novembro 24, 2008

nada que escreva me agrada. queria ser poeta e não sou. verbalizar os dias cheios de abril. sacudir ao vento as emoções. carregadas nas nódoas do olhar. nos arco-íris que visito sem folgas. diariamente. mostrar o meu tesouro escondido a sete chaves. ter um museu com visitas gratuitas só de palavras escritas nas paredes. e desenhos. muitos desenhos. desenhos com olhos que falassem. e almofadas. muitas almofadas espalhadas no chão, onde se sentassem a beber canecas de chá com aromas tão definidos que não fosse preciso perguntar a essência. onde se contassem histórias à lareira que crepitassem faúlhas do sono humano. onde houvesse aquela poção mágica que dá clareza às mentes e saúde aos corpos. queria um museu assim. uma casa aberta para todas as idades. com asas nas janelas e botas de sete léguas nas portas. hoje aqui, amanhã mais adiante. naquela curva do tempo. a sorrir do ido e a respirar futuro. queria ter esta casa. onde todos os que entrassem fossem felizes para sempre como nas histórias de infância. não por alienação ou ingenuidade. mas por aprenderem a sublimar a vida. a vivê-la como magia. a acreditar que o impossível acontece. de bom e mau. mas haverá sempre alguém em quem vale a pena acreditar.

terça-feira, outubro 28, 2008

...porque a música me harmoniza as arestas dos dias, me serve os silêncios, em pautas de porcelena, trocados por beijos...uma rosa, quando o céu teima em não ficar azul...

domingo, outubro 12, 2008


momentos

uma agúdia chamou-me. há tanto tempo que não me ligavam nenhuma. fui ver. preta. reluzente. composta de metades cingidas por cinturinha de vespa. a mobilidade impressionou-me como sempre. tal como quando vejo um tractor manobrar um atrelado. pedia ajuda no transporte das pedrinhas que se amontoavam no caminho. sísifo dera-lhe aquele monte de pedrinhas para ela carregar. cansada daquela tarefa achou que eu viera do olimpo para a libertar da cruz. do alto do meu metro e sessenta e DOIS verguei-me à natureza outonal e quis saber da sua vida. falou-me em palavras "agúdias", grávidas de esperança e eu saí dali esdrúxula de conhecimento.

não. recuso-me a falar de como acabei por lhe queimar involuntariamente uma pata e de como pedi ajuda a um agudião que a levasse dali a voar.( a intenção era aquecê-la). que seja feliz no seu formigueiro. nunca mais aquecerei agúdias nem as usarei como isco aos pássaros. já lá vai o tempo em que com agúdias fazia holocausto. entrego-me ao tribunal internacional de Haia.


quarta-feira, outubro 01, 2008




assim sem vontade de escrever procuro as letras arrumadas em palavras e semeio-as ao vento fresco do sol posto. deixo ao critério manso deste outono crisálido o desfolhar das mensagens como se a vida andasse arredada da luz do dia. ouço os sons do sino da igreja anunciando horas que não simbolizam nada. não sei se o cão ladra ao som da crise instalada se afina a voz para uivar quando sairmos dela. a televisão opera os vegetais que somos numa inutilidade curativa. o silêncio da casa leva-me ao futuro repetitivo e ensurdecedor do barulho das paredes. o chip da transmutação instalou-se na soleira da alma e os números soltam-se-me no cérebro à procura da ordem crescente das prioridades sem lembrança de mim. seco a medula do trabalho horas a fio e fico encharcada dele pela noite fora como se mais nada fosse importante. adormeço e acordo só para vê-lo crescer e às vezes suspiro pela mama doce da preguiça.


ah, mas mesmo assim, os risos das crianças continuam a ser as páginas mais lindas do meu diário.

terça-feira, setembro 23, 2008






cheguei de longe e encontrei o mundo virado das avessas. deu-me uma trabalheira arrumá-lo sob as leis da lógica. tentei. juro que tentei. trabalhei dia e noite numa fona dos diabos. sempre que me virava o caos instalava-se. ria nas minhas costas. não. não sei bem se ria. possivelmente chorava. aquele ar palidamente esverdeado era confrangedor. só podia chorar. irritei-me na dúvida. voltei a fazer desesperada os consertos que se impunham e justificavam. enfrentei-o na tentativa de ordem. confrangia-me a mísero estado aquele desafio. assustou-me o grito rouco que saiu de mim. os olhos faiscavam labaredas. o paraíso das águas revoltava-se na tormenta do naufrágio. lancei a mão à boca e arranquei os gritos lancetados de fogo. lavei os olhos ardentes. abri a porta e deixei a luz entrar. branca. sentei-me a seu lado. não precisava olhar para mim. sabia-me ali. senti. quase. quase. quase. a sua mão na minha. a sua súplica. entendi-o. sorri-lhe. estava cansado também. vamos caminhar no caos de mãos dadas. pode ser que o amor devolva a serenidade ao seu mundo. ao meu também.


quinta-feira, setembro 18, 2008


tenho uma pena que não escreve direito. nem torto. deixou de escrever e voltou à garatuja de andar. solta de rumo. sem pena de penar. é uma pena minha. tão minha que me desenhou os olhos. o nariz. o oval do rosto. me pintou a tez morena. me ensinou as primeiras letras com tinta de dedos na terra macia onde descansava de voar. agora empenou o engenho de ensinar. não para descansar. nem olhar os desenhos conseguidos com orgulho. agora precisa de todo o amor para perder o sujeito e o predicado de pena.

terça-feira, setembro 09, 2008



Descalça procuro a luz da terra, do pão a energia, entre dependências de alerta germino.

domingo, agosto 10, 2008



Chegou a minha vez de ir de férias. Com porta para o mar, janela para o rio, cama d'água e verde-relva.

quinta-feira, agosto 07, 2008



abri agora mesmo a boca para o céu. muito. pronta a engolir o universo num trago. num trago não. ficaria com sóis a mais no peito e eu gosto de brilhar só de vez em quando. ficaria com planetas a mais na barriga e eu gosto de olhar deste os que a minha vista alcança. ficaria involuntariamente com gases a mais na alma e eu gosto de me expelir só quando a companhia o merece. primeiro engolia o azul. fazia-me mar. polvilhava as nuvens de açúcar. enrolava-as no eixo da terra e sentava-me à sombra verde de um chaparro a lambuzar-me de orvalho doce. depois comia o chaparro. dormia a sesta e seria alternativa ao alqueva.



quinta-feira, julho 24, 2008




belo é o estuário do meu rio que corre d'ouro. meu ninho placêntico fundiu frutos silvestres no teu corpo menina. saber amar-te é verdade que nasceu cedo. salva de leite materno sorvido no pasto do meu corpo uniu o divino graal à estrada dos teus paços. procuro-os nos socalcos que percorres na montanha de baco. ao teu porto arribo em âncora de braços. deslaço a torrente. comportas a água do meu sal gema. convidamos o rio que corre pausado a teus pés e refrescamos o tempo separado pelo espaço das nossas nascentes. unidades soltas que circulam na intersecção para sempre. minha. tua.

sábado, julho 19, 2008


estou a tricotar uma vida cheia de pontos por aprender. a renda desta aprendizagem é paga em tempo. esqueço o sol que se demora e castiga os dias daqueles que têm da praia uma imagem quase pueril e distante. um jardim de sombras frescas e romanescas aparece, às vezes, como um prenúncio das férias anunciadas. continuo.

domingo, junho 29, 2008


voo para sul de mim em listada margem de sobressalto. escavo o norte em nascentes poentes e procuro a estrela polar no centro irrigado de constelações acabadas de nascer. o dia amanhece ao pôr-de-sol. a terra socalca-se de abismos alaranjados e fantasmas de sombras quentes. do corpo do chão erguem-se saguões de penumbra. vultos percorrem os caminhos do porquê. regressam à porta da minha boca. secam-me os lábios e torturam-me a língua. nado cem braços no corpo da lava de terra queimada. um icebergue de fogo eleva-se na torrente. procuro morrer mais um pouco. e rio nos braços da morte precipitada. deixo-a a sangrar olhares. retiro-me. os pássaros sacodem os ninhos à janela das árvores e antecipam voo migratório para a serenidade. solta-se um dossel de seda no céu do meu chão. levito. uma quilha anula o esterno dorido. membros alados prolongam as orlas do corpo. um impulso de vento interno sai pela ponta dos dedos. hélio refrescante forra interiores. alinho vértices pelos pontos cardeais e voo para sul de mim. a este nada de novo. espero que a terra deixe de girar ao contrário.

terça-feira, junho 24, 2008




um dia hei-de ser... frango assado no espeto. de aviário não. frango do campo. carne suculenta e rija. tão rija que me masquem devagar como se fosse ópio. hei-de saciar a fome dos velhos desdentados e sem cheta. saciar as trevas das crianças de olhos esbugalhados para o espanto da dor sem resposta. ser pasto verde para os animais famintos nos carreiros de encosta íngreme onde os plantaram como cabras loucas. ser chuva em abundância no deserto das cidades adormecidas de peneiras. hei-de ser osso duro de roer para cabrões de barriga inchada e sem escrúpulos. hei-de ser relâmpago e trovão em simultâneo. mortífero e sagrado. hei-de ser o que a puta da vida quiser menos simplex de feno.

sábado, junho 21, 2008

sexta-feira, junho 13, 2008



quer o poeta matar a dor. tingi-la de vermelho rubro. sangrá-la do fel que agoniza o instante. soprá-la volátil no espaço da abóbada azul. queimá-la a ferro na franja de carne da consciência. sacudi-la do corpo. ser só palavras e metáforas de alívio. prometer a aurora ao entardecer. ser luz e calor a aconchegar o espírito. quer o poeta brindar com cálice o suco dourado da vida. ceifar o amargo do momento preciso em que se cravaram as esporas. retirar um a um os espinhos tão invisíveis quanto dolorosos. que trabalho árduo o teu, poeta. tens na tinta o caldo inconfundível das cores que revestem o gérmen da dor.



sexta-feira, junho 06, 2008




o corpo abandonado no sono nem sempre dorme. a manha dos sentidos entreabre os olhos de quando em vez e escuta os ruídos da noite vestida de lua e seda. o rocegar das vestes pintam sombras nas pálpebras inquietas. uma noite dormindo senti uma respiração junto ao ouvido. alguém estava ali pairando por cima do meu corpo. aproximava-se lentamente com asas no dorso e filtro na voz. do sono saiu o alerta de estar só em casa. acordei. pressenti nas sombras o silêncio ainda agora quebrado pelo grito que não saiu. certamente era a noite a dar-me o conselho de reaprender a dormir.


segunda-feira, junho 02, 2008






pega nas cartas uma a uma. aposta no modo de as baralhar. com dedos de viciado entendedimento fá-las rodar em cima da mesa. o som da roleta de papel. vezes sem conta. a sorte e o azar na ponta dos dedos. os dedos no cabo do mundo em arribas de abismo e asa delta. fuma. como se ao expirar o fumo exorcizasse o medo de falhar. concentração no sentido sexto. um último enlace no escuro e elas perdidas entre naipes numa imprevista orgia. começa o jogo. habilita os dedos em exercícios de alongamento. relaxa. suspende a respiração e arrisca. lança as bases. alicerça as paredes daquele sonho. constrói em altura a cadeia aleatória com fé no triunfo. a língua entre os dentes. a serra dentária a prometer guilhotina no erro. o gesto preciso. a fuga das palavras. a adrenalina da subida. degrau a degrau. lentamente. a concretização a um passo. um toque. em falso. dois. transpira. liga-se ao eixo. nas tentativas inglórias arrisca a última cartada. sente falta de ar. um aperto no peito. inspira e expira na esquina errada do jogo. cai de uma ameia e na queda sucumbe com o baralho de cartas.