reflexos de vida no silêncio espelhado da água. fragas de vidro em descontinuidades do olhar ...

sábado, julho 19, 2008


estou a tricotar uma vida cheia de pontos por aprender. a renda desta aprendizagem é paga em tempo. esqueço o sol que se demora e castiga os dias daqueles que têm da praia uma imagem quase pueril e distante. um jardim de sombras frescas e romanescas aparece, às vezes, como um prenúncio das férias anunciadas. continuo.

domingo, junho 29, 2008


voo para sul de mim em listada margem de sobressalto. escavo o norte em nascentes poentes e procuro a estrela polar no centro irrigado de constelações acabadas de nascer. o dia amanhece ao pôr-de-sol. a terra socalca-se de abismos alaranjados e fantasmas de sombras quentes. do corpo do chão erguem-se saguões de penumbra. vultos percorrem os caminhos do porquê. regressam à porta da minha boca. secam-me os lábios e torturam-me a língua. nado cem braços no corpo da lava de terra queimada. um icebergue de fogo eleva-se na torrente. procuro morrer mais um pouco. e rio nos braços da morte precipitada. deixo-a a sangrar olhares. retiro-me. os pássaros sacodem os ninhos à janela das árvores e antecipam voo migratório para a serenidade. solta-se um dossel de seda no céu do meu chão. levito. uma quilha anula o esterno dorido. membros alados prolongam as orlas do corpo. um impulso de vento interno sai pela ponta dos dedos. hélio refrescante forra interiores. alinho vértices pelos pontos cardeais e voo para sul de mim. a este nada de novo. espero que a terra deixe de girar ao contrário.

terça-feira, junho 24, 2008




um dia hei-de ser... frango assado no espeto. de aviário não. frango do campo. carne suculenta e rija. tão rija que me masquem devagar como se fosse ópio. hei-de saciar a fome dos velhos desdentados e sem cheta. saciar as trevas das crianças de olhos esbugalhados para o espanto da dor sem resposta. ser pasto verde para os animais famintos nos carreiros de encosta íngreme onde os plantaram como cabras loucas. ser chuva em abundância no deserto das cidades adormecidas de peneiras. hei-de ser osso duro de roer para cabrões de barriga inchada e sem escrúpulos. hei-de ser relâmpago e trovão em simultâneo. mortífero e sagrado. hei-de ser o que a puta da vida quiser menos simplex de feno.

sábado, junho 21, 2008

sexta-feira, junho 13, 2008



quer o poeta matar a dor. tingi-la de vermelho rubro. sangrá-la do fel que agoniza o instante. soprá-la volátil no espaço da abóbada azul. queimá-la a ferro na franja de carne da consciência. sacudi-la do corpo. ser só palavras e metáforas de alívio. prometer a aurora ao entardecer. ser luz e calor a aconchegar o espírito. quer o poeta brindar com cálice o suco dourado da vida. ceifar o amargo do momento preciso em que se cravaram as esporas. retirar um a um os espinhos tão invisíveis quanto dolorosos. que trabalho árduo o teu, poeta. tens na tinta o caldo inconfundível das cores que revestem o gérmen da dor.



sexta-feira, junho 06, 2008




o corpo abandonado no sono nem sempre dorme. a manha dos sentidos entreabre os olhos de quando em vez e escuta os ruídos da noite vestida de lua e seda. o rocegar das vestes pintam sombras nas pálpebras inquietas. uma noite dormindo senti uma respiração junto ao ouvido. alguém estava ali pairando por cima do meu corpo. aproximava-se lentamente com asas no dorso e filtro na voz. do sono saiu o alerta de estar só em casa. acordei. pressenti nas sombras o silêncio ainda agora quebrado pelo grito que não saiu. certamente era a noite a dar-me o conselho de reaprender a dormir.


segunda-feira, junho 02, 2008






pega nas cartas uma a uma. aposta no modo de as baralhar. com dedos de viciado entendedimento fá-las rodar em cima da mesa. o som da roleta de papel. vezes sem conta. a sorte e o azar na ponta dos dedos. os dedos no cabo do mundo em arribas de abismo e asa delta. fuma. como se ao expirar o fumo exorcizasse o medo de falhar. concentração no sentido sexto. um último enlace no escuro e elas perdidas entre naipes numa imprevista orgia. começa o jogo. habilita os dedos em exercícios de alongamento. relaxa. suspende a respiração e arrisca. lança as bases. alicerça as paredes daquele sonho. constrói em altura a cadeia aleatória com fé no triunfo. a língua entre os dentes. a serra dentária a prometer guilhotina no erro. o gesto preciso. a fuga das palavras. a adrenalina da subida. degrau a degrau. lentamente. a concretização a um passo. um toque. em falso. dois. transpira. liga-se ao eixo. nas tentativas inglórias arrisca a última cartada. sente falta de ar. um aperto no peito. inspira e expira na esquina errada do jogo. cai de uma ameia e na queda sucumbe com o baralho de cartas.



quinta-feira, maio 22, 2008


de repente ficou leitosa a tarde. o verde da paisagem embebedou-se da cor esbranquiçada que cai das nuvens. os líquens e os musgos nos telhados suspenderam a cor ocre e refrescam-se de seiva. as plumagens são sacudidas uma a uma e os bicos percorrem a poeira dos dias, pousada nos corpos subitamente arredondados das aves. Fustigam os vidros os pingos grossos numa pressa de chegar ao aconchego da terra. parda agora. partem em fúria das alturas e precipitam-se abruptos numa paixão desenfreada de abraços telúricos. os caminhos da água levam-nos aos ciclos de nós e nos padrões descobertos suspende-se o sol entre os dedos. fica a melodia nos tímpanos do barro que nos cobre a abrir caminho para a alma lavada.

segunda-feira, maio 19, 2008



Não sei viver.Nunca soube e tudo o que vivo é difícil. Não sei amar. E tudo o que amei foi distante. Não sei falar. E tudo o que disse foi esquecido. Não sei dar-me. E sempre que me dei fui devolvida. Não sei escrever. Nunca soube e tudo o que sei é nada. Não aprendi a gostar de mim. E sempre que gostei fizeram lembrar-me que não o merecia. Não sei sentir. E sempre que senti foi dor. Desenho um sol e uma flor nesta noite escura e a lua sorri em crescendo.Penduro fios de prata nos cabelos e ilumino o rosto de luz. Penteio os raios de sol que me restam e visto-me na minha pele.

domingo, maio 18, 2008




- Qual a diferença entre solução e dissolução?

- Se colocarmos um membro do governo em ácido sulfúrico e esperarmos que se dissolva, temos uma dissolução; se fizermos o mesmo com o governo inteiro obtemos a solução.


quarta-feira, maio 14, 2008




ei-la de cristal. sugada da mais fina areia. em volúpia de fogo enformada. substância permeável à visão mais opaca.

quarta-feira, maio 07, 2008




Dizem que falar é não estar calado, é proferir palavras, exprimir significados e significantes, é combinar e ajustar sons dentro da consciência fonética de um idioma, verbalizar ideias, dizer de nossa justiça, argumentar, pensar alto, conversar com o outro, (dis) correr sentidos e emoções.

Há quem fale pelos cotovelos, quem fale por falar, quem fale de papo cheio, quem fale grosso e até quem dê que falar...

Por que será, então, que o silêncio é sempre tão gritante?

domingo, abril 27, 2008




minha casa é palafita a dois passos da enchente. deitada na minha cama sinto da água a maré. hoje encheu-se de estrelas que das frestas da madeira fizeram pouso premente. é tão linda a minha casa. já disse que é palafita. passa a água. passa a vida. e ela segura e erguida. em estacas de madeira refresca o chão dos meus pés . nunca tenho os pés no chão. nem no ar está bom de ver. na minha casa há um barco que regressa ao fim do dia e me repousa da faina quando a noite é maresia. a minha casa é na água. no rio onde me banho. só o vento sabe dela e dos segredos que tenho. dentro da minha casa conto as estrelas no rio. são dançarinas flutuantes que me beijam noite fora. velando-me se alguma nuvem se adensa ou se demora. a minha casa é palafita. é de tábuas e tem janela. quando a tarde cai a pique fico ali. olhando as águas. da janela da minha casa limpa-se a vista de mágoas.

sexta-feira, abril 25, 2008


...e a flor da liberdade sorriu no coração de um país...

terça-feira, abril 15, 2008



Rester au lit





dói-me a clara do olho. sinto os arrepios da febre e o tombo do sono. sabes, nunca devia ter fritado os miolos sem uma frigideira anti-esturro.


sábado, abril 12, 2008




a inutilidade do verbo descreve a curva apertada em risco azul que desce do peito e desagua nos pés. derrama-se. nunca o sangue deixou de ferver na palma da mão estendida. sorvido como água inquinada que se cospe na sarjeta do véu prateado que emoldura o bravo. os actos fazem-se noite como quem submerge na cegueira profunda do oceano. flutua a palavra na luz da verdade sem chão. semente apodrecida na terra sangrenta. jaz uma falha negra impermeável à vida. escorrem-se os dias e perdem-se as fontes. cai a tarde prestes a pique nas costas das árvores. erosiva-se o corpo do mundo. comportas de cal viva queimam as paredes da carne. nem no presente se presta o melífluo agora a salvar o futuro. reclama a serenata e visita o céu. veste o fato da graça e refaz-te em dedos e mãos e braços de mar. flutua interiores. descobre nascentes.


segunda-feira, abril 07, 2008




Hoje, sinto-me tranquila. Não aquela tranquilidade de quando era menina. Quando sabia que se roubasse uma rosa para oferecer à minha mãe e a dona do jardim estivesse entre portas a ver-me praticar o delito, eu correria para os braços da avó a pedir socorro e ela resolveria tudo com um sorriso e uma conversa de amigas com a vítima do furto. Não, essa tranquilidade já não a tenho. Perdi-a quando deixei de ter avó, de ter colo onde coubesse, de ter pregas no pescoço de alguém para beliscar até me ficar nuvem a pairar no sono.

“É tão bom ser pequenino, ter pai, ter mãe, ter avós, ter esp'rança no destino e ter quem goste de nós”. (Esta era uma das canções com que a minha avó me embalava)

Passei a ser eu o colo de mim e dos meus. Mas hoje roubei uma rosa. Entreguei-a a quem a merecia e não aconteceu nada, porque a roseira era brava e o dono era o chão que a viu nascer. Atei-a ao coração onde as palavras se prendiam por dentro e me enfiavam um funil na garganta. Afunilando para dentro as emoções em pacotinhos de açúcar e alargando do interior a necessidade de dar.
Não tinha mais nada à mão. Às vezes, nem uma palavra salta da boca no embaraço do momento, só o gesto fala por mim e os olhos lampejantes de palavras (sonsas!) que não encontram a coerência que pretendo.

Toma! Gosto de ti!

Nem isto sai. Mas a rosa, cheia de espinhos rasgou-me a carne dos dedos e marcou a sangue o gesto sem anemia na alma.

Hoje, roubei uma rosa, mas sinto-me tranquila.

terça-feira, abril 01, 2008



a transparência do verde floresce nas tonalidades do estuário onde desaguo. os barcos arribam a proa no sentido da maré e o olhar ondula na margem lavando o lodo onde os peixes vêm comer na minha mão. pássaros camuflados de rochas cinzentas esgarçam riscas brancas em voos de pranto sossego. semeiam-se moedas nas águas da sorte. dias por escalar. escalados com espinhas e sal nas fibras duras que rejeitam o agora. fundem-se as mãos da terra na sede e cedem os dedos a pernoitar gaivotas nos lábios de seda. a boca do mar lava o riso do rio e trocam mensagens de amor e lava na incandescência rubra dum pôr-do-sol sereno anunciando luar. infindável a renovação. o regurgitar do sol no frio de cama escura.


domingo, março 30, 2008



O equinócio aconteceu e esperados são os rasos voos das aves que nos visitam num casamento perfeito com autóctones de condomínios privados nos beirados com janela e nos telhados com observatórios sobre as vastas redondezas.
As cegonhas aprisionaram-nos o país e dão-se bem mesmo nas estações de fuga. Abastece-nos de beleza vê-las lançarem-se em planagens longas e sedutoras, tal não fosse a elegância com que cruzam os ares mas, ver um enorme bando de flamingos cruzando o Tejo, juro ter sido a primeira vez que tal me aconteceu. Não fossem as bandas sonoras da estrada assinalarem perigo de desgovernada condução e da berma me teria aproximado com prejuízo impensável. Tal a surpresa e a sublimidade da emoção.
Registar o momento em fotografia foi coisa que não consegui, mas garanto que tenho ainda os olhos lavados daqueles rasgos de plumagem rosada, pernas e postura de manequim.

quarta-feira, março 26, 2008


A minha avó me diria
que anda o diabo à solta
ao ouvir a ventania.
Mas no coro do momento
os ramos dançam com as musas
em ritmos de alegria.
Sopra e rufa nos cantos
descobrindo desencantos,
segredos de quem diria.
Uivam os lobos à esquina
olhando as pernas da menina
que se descobrem com o vento.
Soçobra a agitação
no mundo da ventania
e liberta a aflição
quando a pele da menina
fica como a da galinha
sem pano de cobrimento.
Oh, que lá se vai a carta
que escrevi ao meu amor!
O vento leva-a pela certa
à morada que deserta
a fecha no esquecimento.
Senhor vento, olhe o chapéu
que mesmo agora comprei
na loja da fantasia
roubou-mo ao dar-me um beijo
com essa aragem lisa e fria.
O beijo dava-lho eu...
mas o chapéu, senhor vento
comprado ainda agora
rodopia desalento
sem uma cabeça por dentro.
Senhor vento, vá-se embora
deixe a Primavera entrar
fresca e morna, morna e fria
na suprema alegria
de renascer do tormento.