reflexos de vida no silêncio espelhado da água. fragas de vidro em descontinuidades do olhar ...

domingo, maio 18, 2008




- Qual a diferença entre solução e dissolução?

- Se colocarmos um membro do governo em ácido sulfúrico e esperarmos que se dissolva, temos uma dissolução; se fizermos o mesmo com o governo inteiro obtemos a solução.


quarta-feira, maio 14, 2008




ei-la de cristal. sugada da mais fina areia. em volúpia de fogo enformada. substância permeável à visão mais opaca.

quarta-feira, maio 07, 2008




Dizem que falar é não estar calado, é proferir palavras, exprimir significados e significantes, é combinar e ajustar sons dentro da consciência fonética de um idioma, verbalizar ideias, dizer de nossa justiça, argumentar, pensar alto, conversar com o outro, (dis) correr sentidos e emoções.

Há quem fale pelos cotovelos, quem fale por falar, quem fale de papo cheio, quem fale grosso e até quem dê que falar...

Por que será, então, que o silêncio é sempre tão gritante?

domingo, abril 27, 2008




minha casa é palafita a dois passos da enchente. deitada na minha cama sinto da água a maré. hoje encheu-se de estrelas que das frestas da madeira fizeram pouso premente. é tão linda a minha casa. já disse que é palafita. passa a água. passa a vida. e ela segura e erguida. em estacas de madeira refresca o chão dos meus pés . nunca tenho os pés no chão. nem no ar está bom de ver. na minha casa há um barco que regressa ao fim do dia e me repousa da faina quando a noite é maresia. a minha casa é na água. no rio onde me banho. só o vento sabe dela e dos segredos que tenho. dentro da minha casa conto as estrelas no rio. são dançarinas flutuantes que me beijam noite fora. velando-me se alguma nuvem se adensa ou se demora. a minha casa é palafita. é de tábuas e tem janela. quando a tarde cai a pique fico ali. olhando as águas. da janela da minha casa limpa-se a vista de mágoas.

sexta-feira, abril 25, 2008


...e a flor da liberdade sorriu no coração de um país...

terça-feira, abril 15, 2008



Rester au lit





dói-me a clara do olho. sinto os arrepios da febre e o tombo do sono. sabes, nunca devia ter fritado os miolos sem uma frigideira anti-esturro.


sábado, abril 12, 2008




a inutilidade do verbo descreve a curva apertada em risco azul que desce do peito e desagua nos pés. derrama-se. nunca o sangue deixou de ferver na palma da mão estendida. sorvido como água inquinada que se cospe na sarjeta do véu prateado que emoldura o bravo. os actos fazem-se noite como quem submerge na cegueira profunda do oceano. flutua a palavra na luz da verdade sem chão. semente apodrecida na terra sangrenta. jaz uma falha negra impermeável à vida. escorrem-se os dias e perdem-se as fontes. cai a tarde prestes a pique nas costas das árvores. erosiva-se o corpo do mundo. comportas de cal viva queimam as paredes da carne. nem no presente se presta o melífluo agora a salvar o futuro. reclama a serenata e visita o céu. veste o fato da graça e refaz-te em dedos e mãos e braços de mar. flutua interiores. descobre nascentes.


segunda-feira, abril 07, 2008




Hoje, sinto-me tranquila. Não aquela tranquilidade de quando era menina. Quando sabia que se roubasse uma rosa para oferecer à minha mãe e a dona do jardim estivesse entre portas a ver-me praticar o delito, eu correria para os braços da avó a pedir socorro e ela resolveria tudo com um sorriso e uma conversa de amigas com a vítima do furto. Não, essa tranquilidade já não a tenho. Perdi-a quando deixei de ter avó, de ter colo onde coubesse, de ter pregas no pescoço de alguém para beliscar até me ficar nuvem a pairar no sono.

“É tão bom ser pequenino, ter pai, ter mãe, ter avós, ter esp'rança no destino e ter quem goste de nós”. (Esta era uma das canções com que a minha avó me embalava)

Passei a ser eu o colo de mim e dos meus. Mas hoje roubei uma rosa. Entreguei-a a quem a merecia e não aconteceu nada, porque a roseira era brava e o dono era o chão que a viu nascer. Atei-a ao coração onde as palavras se prendiam por dentro e me enfiavam um funil na garganta. Afunilando para dentro as emoções em pacotinhos de açúcar e alargando do interior a necessidade de dar.
Não tinha mais nada à mão. Às vezes, nem uma palavra salta da boca no embaraço do momento, só o gesto fala por mim e os olhos lampejantes de palavras (sonsas!) que não encontram a coerência que pretendo.

Toma! Gosto de ti!

Nem isto sai. Mas a rosa, cheia de espinhos rasgou-me a carne dos dedos e marcou a sangue o gesto sem anemia na alma.

Hoje, roubei uma rosa, mas sinto-me tranquila.

terça-feira, abril 01, 2008



a transparência do verde floresce nas tonalidades do estuário onde desaguo. os barcos arribam a proa no sentido da maré e o olhar ondula na margem lavando o lodo onde os peixes vêm comer na minha mão. pássaros camuflados de rochas cinzentas esgarçam riscas brancas em voos de pranto sossego. semeiam-se moedas nas águas da sorte. dias por escalar. escalados com espinhas e sal nas fibras duras que rejeitam o agora. fundem-se as mãos da terra na sede e cedem os dedos a pernoitar gaivotas nos lábios de seda. a boca do mar lava o riso do rio e trocam mensagens de amor e lava na incandescência rubra dum pôr-do-sol sereno anunciando luar. infindável a renovação. o regurgitar do sol no frio de cama escura.


domingo, março 30, 2008



O equinócio aconteceu e esperados são os rasos voos das aves que nos visitam num casamento perfeito com autóctones de condomínios privados nos beirados com janela e nos telhados com observatórios sobre as vastas redondezas.
As cegonhas aprisionaram-nos o país e dão-se bem mesmo nas estações de fuga. Abastece-nos de beleza vê-las lançarem-se em planagens longas e sedutoras, tal não fosse a elegância com que cruzam os ares mas, ver um enorme bando de flamingos cruzando o Tejo, juro ter sido a primeira vez que tal me aconteceu. Não fossem as bandas sonoras da estrada assinalarem perigo de desgovernada condução e da berma me teria aproximado com prejuízo impensável. Tal a surpresa e a sublimidade da emoção.
Registar o momento em fotografia foi coisa que não consegui, mas garanto que tenho ainda os olhos lavados daqueles rasgos de plumagem rosada, pernas e postura de manequim.

quarta-feira, março 26, 2008


A minha avó me diria
que anda o diabo à solta
ao ouvir a ventania.
Mas no coro do momento
os ramos dançam com as musas
em ritmos de alegria.
Sopra e rufa nos cantos
descobrindo desencantos,
segredos de quem diria.
Uivam os lobos à esquina
olhando as pernas da menina
que se descobrem com o vento.
Soçobra a agitação
no mundo da ventania
e liberta a aflição
quando a pele da menina
fica como a da galinha
sem pano de cobrimento.
Oh, que lá se vai a carta
que escrevi ao meu amor!
O vento leva-a pela certa
à morada que deserta
a fecha no esquecimento.
Senhor vento, olhe o chapéu
que mesmo agora comprei
na loja da fantasia
roubou-mo ao dar-me um beijo
com essa aragem lisa e fria.
O beijo dava-lho eu...
mas o chapéu, senhor vento
comprado ainda agora
rodopia desalento
sem uma cabeça por dentro.
Senhor vento, vá-se embora
deixe a Primavera entrar
fresca e morna, morna e fria
na suprema alegria
de renascer do tormento.





segunda-feira, março 17, 2008





juntei à água que corria em regatos de chuva o detergente de sol lavado pelas nuvens e fiz uma bola de sabão. alguém entrou nela por magia e tomou a minha bola de sabão como útero materno. alimentei-a com a seiva umbilical do meu sorriso e tornou-se uma pena no ar que eu impedia de cair. soprando de levinho mantinha a flutuante esfera translúcida num ambiente anti-gravitacional. um dia adormeci e ronquei mais forte, por via de uma obstipação nasal. a bola de sabão saiu da minha íntima atmosfera e foi projectada pela janela entreaberta. sentindo a ausência de brilho e de frescura na boca acordei sobressaltada. olhei pela janela. a bolha rebentou no ar e alguém espirrou desumanidade estatelando-se no chão.




quinta-feira, março 13, 2008



belisca a vida sempre que dói. ela serôdia finge que nem vê que dentro sofre. parte pedaços que a língua lambe num remédio sábio e cola-os com o cuspo da alma. a língua da gente tem sabores de cura e frutos silvestres que saram a míngua. na fartura de ser o sangue ilumina o espírito de tamanho capaz de cicatrizar as penas. e sai a palavra nos poros sabão, lavando as sementes daninhas e os restos de lava escura do coração venoso. veias cavadas no pescoço da hiena embuçada. escorrem lamúrias e lágrimas de demência agridoce em decomposição. soltam-se comportas de mar e sal e empurra-se a onda na sementeira. na estoicidade revela-se a aceitação. na aceitação a saída entala-se na verdade embaciada por não expressa.

quarta-feira, março 05, 2008




trago ao peito um ramo de beijos que apanhei agora ali naquela esquina de vento. vou semeá-los no rosto de quem me olha de longe ou quem me espreita de perto. saibam que na minha ausência há sempre um beijo guardado aqui dentro da gaveta e que salta confortado para um sorriso rasgado ou para uns olhos de moleque que não receberam ainda o carinho por gorjeta. que o mundo no corre-corre se esquece de dar um beijo ou um abraço de irmão parece já coisa batida, mas que mal faz um beijinho dado com tanto carinho para agradecer a visita?




quinta-feira, fevereiro 28, 2008



foges na rua estreita onde caminhas. procuras saídas a cada esquina lúbrica. soltas as asas perras de medo no beco onde te escondes. voo circular na altitude do chão barrento. perpetuas a desdita no desassossego que investe contra ti desconhecendo que é de ti que renasce a cada mão estendida de sol. serenas só. no tormento fungam-se as costas vulcânicas das garras. sente-se o querer no não saber o quê e pernoitas na soleira da porta caída de vagas ininterruptas de desordem. pressentes o perigo na proximidade e aprisionas no escuro o lado brilhante. como se o brilho fosse vergonha. como se os olhos fossem pecados e o coração órgão infesto. aprendes do braille os sinais de fogo e fúria. em acto desumano cegas-te.



sábado, fevereiro 23, 2008






há uma cidade que amanhece para a vida. os olhos cruzam-se em bons dias de sorrisos. a chuva chama impaciente as almas para a dança. dinamene sobrevoa o coração dos poetas e as epopeias repetem-se em novidades lusíadas. nas grutas forradas de amor e palavras crescem lentamente estalactites de calor. o eco soa finalmente lavado dos timbres de rasgos metálicos .

sábado, fevereiro 16, 2008


Não me lembro de ter escrito


Chegam as horas mortas

gastas nos olhos de areia

que varro no lento varejar dos cílios

Seguro a cabeça

do tempo

pensando acarinhá-lo

um pouco

tirá-lo da vazante

Jazem as horas

num avesso de quem precisa de tempo

para respirar

ao anoitecer

Liberto-me de cordas

de limos

penetro no sono líquido das noites

silenciadas

por dias de chumbo.



domingo, fevereiro 10, 2008


Eis-me


Tendo-me despido de todos os meus mantos

Tendo-me separado de adivinhos mágicos e deuses

Para ficar sozinha ante o silêncio

Ante o silêncio e o esplendor da tua face

Mas tu és de todos os ausentes o ausente

Nem o teu ombro me apoia nem a tua mão me toca

O meu coração desce as escadas do tempo em que não moras

E o teu encontro

São planícies e planícies de silêncio

Escura é a noite

Escura e transparente

Mas o teu rosto está para além do tempo opaco

E eu não habito os jardins do teu silêncio

Porque tu és de todos os ausentes o ausente




Sophia de Mello Breyner Andresen

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

Os gatos imperfeitos que vou pintando vão sendo distribuídos pelos amigos. Porque da blogosfera saltam amizades verdadeiras que acolhemos com abraços, aqui ficam estes dois a simbolizar o "enrosca-te a mim" que deixei no Porto. Reforço de carinho, numa tarde linda para visitar amigos de quem se gosta muito, mas que a distância impede, fazendo do telefone e meio perfeito para matar as saudades logo pela manhã.

terça-feira, fevereiro 05, 2008