reflexos de vida no silêncio espelhado da água. fragas de vidro em descontinuidades do olhar ...

terça-feira, abril 01, 2008



a transparência do verde floresce nas tonalidades do estuário onde desaguo. os barcos arribam a proa no sentido da maré e o olhar ondula na margem lavando o lodo onde os peixes vêm comer na minha mão. pássaros camuflados de rochas cinzentas esgarçam riscas brancas em voos de pranto sossego. semeiam-se moedas nas águas da sorte. dias por escalar. escalados com espinhas e sal nas fibras duras que rejeitam o agora. fundem-se as mãos da terra na sede e cedem os dedos a pernoitar gaivotas nos lábios de seda. a boca do mar lava o riso do rio e trocam mensagens de amor e lava na incandescência rubra dum pôr-do-sol sereno anunciando luar. infindável a renovação. o regurgitar do sol no frio de cama escura.


domingo, março 30, 2008



O equinócio aconteceu e esperados são os rasos voos das aves que nos visitam num casamento perfeito com autóctones de condomínios privados nos beirados com janela e nos telhados com observatórios sobre as vastas redondezas.
As cegonhas aprisionaram-nos o país e dão-se bem mesmo nas estações de fuga. Abastece-nos de beleza vê-las lançarem-se em planagens longas e sedutoras, tal não fosse a elegância com que cruzam os ares mas, ver um enorme bando de flamingos cruzando o Tejo, juro ter sido a primeira vez que tal me aconteceu. Não fossem as bandas sonoras da estrada assinalarem perigo de desgovernada condução e da berma me teria aproximado com prejuízo impensável. Tal a surpresa e a sublimidade da emoção.
Registar o momento em fotografia foi coisa que não consegui, mas garanto que tenho ainda os olhos lavados daqueles rasgos de plumagem rosada, pernas e postura de manequim.

quarta-feira, março 26, 2008


A minha avó me diria
que anda o diabo à solta
ao ouvir a ventania.
Mas no coro do momento
os ramos dançam com as musas
em ritmos de alegria.
Sopra e rufa nos cantos
descobrindo desencantos,
segredos de quem diria.
Uivam os lobos à esquina
olhando as pernas da menina
que se descobrem com o vento.
Soçobra a agitação
no mundo da ventania
e liberta a aflição
quando a pele da menina
fica como a da galinha
sem pano de cobrimento.
Oh, que lá se vai a carta
que escrevi ao meu amor!
O vento leva-a pela certa
à morada que deserta
a fecha no esquecimento.
Senhor vento, olhe o chapéu
que mesmo agora comprei
na loja da fantasia
roubou-mo ao dar-me um beijo
com essa aragem lisa e fria.
O beijo dava-lho eu...
mas o chapéu, senhor vento
comprado ainda agora
rodopia desalento
sem uma cabeça por dentro.
Senhor vento, vá-se embora
deixe a Primavera entrar
fresca e morna, morna e fria
na suprema alegria
de renascer do tormento.





segunda-feira, março 17, 2008





juntei à água que corria em regatos de chuva o detergente de sol lavado pelas nuvens e fiz uma bola de sabão. alguém entrou nela por magia e tomou a minha bola de sabão como útero materno. alimentei-a com a seiva umbilical do meu sorriso e tornou-se uma pena no ar que eu impedia de cair. soprando de levinho mantinha a flutuante esfera translúcida num ambiente anti-gravitacional. um dia adormeci e ronquei mais forte, por via de uma obstipação nasal. a bola de sabão saiu da minha íntima atmosfera e foi projectada pela janela entreaberta. sentindo a ausência de brilho e de frescura na boca acordei sobressaltada. olhei pela janela. a bolha rebentou no ar e alguém espirrou desumanidade estatelando-se no chão.




quinta-feira, março 13, 2008



belisca a vida sempre que dói. ela serôdia finge que nem vê que dentro sofre. parte pedaços que a língua lambe num remédio sábio e cola-os com o cuspo da alma. a língua da gente tem sabores de cura e frutos silvestres que saram a míngua. na fartura de ser o sangue ilumina o espírito de tamanho capaz de cicatrizar as penas. e sai a palavra nos poros sabão, lavando as sementes daninhas e os restos de lava escura do coração venoso. veias cavadas no pescoço da hiena embuçada. escorrem lamúrias e lágrimas de demência agridoce em decomposição. soltam-se comportas de mar e sal e empurra-se a onda na sementeira. na estoicidade revela-se a aceitação. na aceitação a saída entala-se na verdade embaciada por não expressa.

quarta-feira, março 05, 2008




trago ao peito um ramo de beijos que apanhei agora ali naquela esquina de vento. vou semeá-los no rosto de quem me olha de longe ou quem me espreita de perto. saibam que na minha ausência há sempre um beijo guardado aqui dentro da gaveta e que salta confortado para um sorriso rasgado ou para uns olhos de moleque que não receberam ainda o carinho por gorjeta. que o mundo no corre-corre se esquece de dar um beijo ou um abraço de irmão parece já coisa batida, mas que mal faz um beijinho dado com tanto carinho para agradecer a visita?




quinta-feira, fevereiro 28, 2008



foges na rua estreita onde caminhas. procuras saídas a cada esquina lúbrica. soltas as asas perras de medo no beco onde te escondes. voo circular na altitude do chão barrento. perpetuas a desdita no desassossego que investe contra ti desconhecendo que é de ti que renasce a cada mão estendida de sol. serenas só. no tormento fungam-se as costas vulcânicas das garras. sente-se o querer no não saber o quê e pernoitas na soleira da porta caída de vagas ininterruptas de desordem. pressentes o perigo na proximidade e aprisionas no escuro o lado brilhante. como se o brilho fosse vergonha. como se os olhos fossem pecados e o coração órgão infesto. aprendes do braille os sinais de fogo e fúria. em acto desumano cegas-te.



sábado, fevereiro 23, 2008






há uma cidade que amanhece para a vida. os olhos cruzam-se em bons dias de sorrisos. a chuva chama impaciente as almas para a dança. dinamene sobrevoa o coração dos poetas e as epopeias repetem-se em novidades lusíadas. nas grutas forradas de amor e palavras crescem lentamente estalactites de calor. o eco soa finalmente lavado dos timbres de rasgos metálicos .

sábado, fevereiro 16, 2008


Não me lembro de ter escrito


Chegam as horas mortas

gastas nos olhos de areia

que varro no lento varejar dos cílios

Seguro a cabeça

do tempo

pensando acarinhá-lo

um pouco

tirá-lo da vazante

Jazem as horas

num avesso de quem precisa de tempo

para respirar

ao anoitecer

Liberto-me de cordas

de limos

penetro no sono líquido das noites

silenciadas

por dias de chumbo.



domingo, fevereiro 10, 2008


Eis-me


Tendo-me despido de todos os meus mantos

Tendo-me separado de adivinhos mágicos e deuses

Para ficar sozinha ante o silêncio

Ante o silêncio e o esplendor da tua face

Mas tu és de todos os ausentes o ausente

Nem o teu ombro me apoia nem a tua mão me toca

O meu coração desce as escadas do tempo em que não moras

E o teu encontro

São planícies e planícies de silêncio

Escura é a noite

Escura e transparente

Mas o teu rosto está para além do tempo opaco

E eu não habito os jardins do teu silêncio

Porque tu és de todos os ausentes o ausente




Sophia de Mello Breyner Andresen

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

Os gatos imperfeitos que vou pintando vão sendo distribuídos pelos amigos. Porque da blogosfera saltam amizades verdadeiras que acolhemos com abraços, aqui ficam estes dois a simbolizar o "enrosca-te a mim" que deixei no Porto. Reforço de carinho, numa tarde linda para visitar amigos de quem se gosta muito, mas que a distância impede, fazendo do telefone e meio perfeito para matar as saudades logo pela manhã.

terça-feira, fevereiro 05, 2008

segunda-feira, fevereiro 04, 2008



compraram a máscara para fantasiar o país da chuva melodramática de acontecimentos. mas há muito que todos andavam mascarados. nasceram com ela os cabeçudos, num entrudo extemporâneo de frenesim arrogante, prolongando de insónias e enterros do galo, os populares. escapam aos três dias de direito e, entram a eito, ano fora, tapando as fachadas sombrias, as fuças de asno, com a lusitana complacência por assistência.



sexta-feira, fevereiro 01, 2008



efe...mero

afago o fogo da fogueira afogada no frasco de favo-fel que folheio em forma de folha sem frente só verso. fali na fala do fado-fadango que festejava fervente a ferida com ferrolho férreo de fictícia figura flexível do ser. fluorescência de fogacho fugitivo como foguetão fugaz de fundação fundamentalista em busca de furo frutífero de saída. furacão forjado em fórmula-foral sem fonema na fonte onde forasteira força fustiga o formato fendido de vontade. filamento filantropo fiado na filosofia filtrada sem fito. ferocidade de feitiço.









segunda-feira, janeiro 28, 2008




A fonte permanece lá atrás. A memória da criança livre, nas tardes serenas dos primeiros dias, de Inverno despidas, leva-me lá. O charco das águas límpidas e perfumadas pelas roseiras de Stª Teserinha, o aroma fresco dos musgos que bordejavam as margens, misturado com a lavada aragem de eucaliptos e de pinheiros sobranceiros, permanece intacto na brisa das tardes longínquas. Procuro a eira onde pousavam os malhos nas palhas secas esperando as mãos calosas do dono para castigar as leguminosas mães-grávidas de alimento das pessoas simples. Parto dorido de esforço, renascido em sopas suculentas para estômagos cansados dos amargos do dia.


Enxurradas rasgaram o pequeno planalto, sem eira nem beira, num reviralho de terras sem firmeza no andar. As copas esguias das árvores-perfume desapareceram no tempo dos saldos, pela natureza desumana das mãos sem olhos no sentir. Os silvos dos pássaros ecoam, no profundo vale de planície, sem a beleza da restolhada nos ramos esculpidos de abraços ao azul primaveril do céu.

Da fonte, nem um caco permanece para testemunhar passagem pela vida das mulheres e crianças que ali lavavam e brincavam a meias, num corar de água e sabão e roupa com corpos estendida nas ervas.

Só a poça lamacenta que escorre sangrenta de barro, ajunta e incorpora imagens de ontem. Ainda ontem foi dia de trazer da fonte a barriga saciada de água fresca, bebida na palma da mão, e rama de eucalipto de um verde fino e translúcido para pôr na jarra que me enfeitava a noite de cheiros. Fui ver. A fonte permanece lá atrás.



domingo, janeiro 27, 2008









saio do mar no momento exacto em que sinto a onda a formar avalanche de maremoto. o recuo das águas dão o sinal de alarme e contrario a corrente num esforço de andamento forçado pela escolha. encravam-se os pés na maré subitamente vaza e todos os cascalhos da terra-chão se revoltam no impedimento da jornada. bátegas de seixos sem dono se enredam em torno das pernas molusco. cabos de energia sugam-me as forças num retorno à origem placêntica das águas profundas, onde o sono é tranquilo. sem retorno. sem contemplações, prometo vestir o sal de oposto e anular em contra-corrente a catástrofe eminente na saída.



sábado, janeiro 26, 2008








despojo-me entre as horas do dia do silêncio da noite. o sol veio aquecer o corpo permeável à brisa fina e cortante que trespassa a pele e esquina os ossos de hérnias. viajo para longe por atalhos que perderam a memória viva. percorro sem gps os recantos escusos das rotundas. retorno ao ponto de partida para de novo encetar caminho. desbravo os sulcos onde a água teima em escorrer caudais de estrada antiga. leito sumido no mapa de escala reduzida pelo estar tão perto o que se ausenta. desmedida articulação de gestos calados por espelhos côncavos. circuncisão da boca no porto das assimetrias. proporções irregulares pernoitam no corpo da geometria e minam as formas em raios de som inventados no sonho que rasga a pleura do pensamento.





terça-feira, janeiro 22, 2008




perdi da boca a palavra certa que jorra num coração tresloucado. a corrente sanguínea leva-a a banhos na central cerebrosa e ela sai de lá inundada da razão caprichosa de ser pura, justa, como se a emoção a enxovalhasse de hífens segmentares da verdade. sei do todo que nos une num córtex amulatado de vertentes. reajo como se na postura, a ética fosse a disciplina nuclear só de uma das parceiras. da emotividade retiro o grau e acrescento a água da vida num pré-juízo das acumulações que evidenciam o concluído. benzo o olhar às coisas que se fizeram sujeito e dilato a mesura da racionalidade, numa objectividade serena de saber quanto custa ser ar e terra e sol e lua dentro de um nicho de carne.

domingo, janeiro 20, 2008




bordei com luz o horizonte. tirei da gaveta o azul alvo de mar. o cinzento da neblina do sítio ficou subitamente nos olhos da criança lá atrás. janeiro de sementes adormecidas ressurgiu nas altas vagas da memória. a pedra absorveu a boémia da tristeza e atirei-a para longe onde repousará no leito do tempo sem fundo. esperei o pôr-do-sol, mas era domingo, e o sol ao entardecer resolveu meter-se em casa pela porta dos fundos. pintou de rubro pálido um traço na trave da porta de entrada para assinalar o futuro feito hoje. os olhos de calda saíram dos favos e prenhes de mãos prenderam as vozes nos estendais de peito raso. malvasia escorreu no tampo da mesa. a seiva imaculada da tinta uva sorveu-se com a língua até à última gota do dia.




sábado, janeiro 12, 2008


O cacto vivia ali há muitos séculos. Tantos que perdeu as horas da estória entre iberos e ocidentais globalizados, numa multiculturalidade sem nexo. Era pequeno e de um verde fresco e translúcido como a transparência das almas perdidas e achadas entre portais de eternidade. De quando em vez, renasciam-lhe flores minúsculas e cintilantes como sonhos de sol. Não havia estações que as trouxessem ou murchassem. Eram espontâneas como a luz de cada dia. Esperadas. Quando as neblinas ausentassem dos céus baixos como tectos sem casa. Orlas de deserto serviam-lhe de sítio, ao sul do rio que divide ao meio a civilização. Passavam as gentes indiferentes ou não à sua presença e demoravam-se em acampamentos de vida que o incluíam nas auroras boreais dos dias e nos festins carnavalescos do negrume da sombra sem dono.

Uns tiravam-lhe as flores e enfeitavam corações de egos produtivos de searas, outros empurravam-lhe os picos inofensivos de dor alheia e cravavam-nos na carne sangrada de seiva gritada de rubro.

Certos dias, sentia o corpo diminuto alargar-se em enxurradas de dor e, nos músculos fibrosos, crescerem-lhe quistos de liberdade sem comas. Transpirava por cílios agrestes rasgados na pele o suor das veias e, na retina dos olhos, esculpiam-se rugas que se escoavam na pele como gotas de neve gelada coada pelo sol. Eram as raízes a perderem a humidade da certeza de estar, embora oásis longínquos desaguassem em estuários de alquevas na sua boca entupida de palavras sem língua, de língua sem saliva, de céu sem palato. Sabia-lhe a mel de cicuta a bebida sorvida em cálice silencioso forjado na areia do corpo onde permanecia. Os olhos fechados de testas franzidas por prensas, reflectiam a luz do trovão apagada em raio invertido num buraco negro.

Pegou nos sapatos das raízes e gastou as solas no couro das dunas escaldantes de desertos-jamais e em sarkosys sem medo cumpriu o Dakar.