reflexos de vida no silêncio espelhado da água. fragas de vidro em descontinuidades do olhar ...

sábado, setembro 08, 2007



Vi-a hoje. Trabalhei com aquela mulher alguns anos e dela trazia as lembranças inteiras de ter ensinado a minha filha a ler. Uma profissional dedicada, inovadora, atenta aos seus alunos, senhora de uma cultura que recolhia na vida como mata-borrão. Uma leitora devota que sabia desbravar vontades na cativante aventura de saber.
Com os anos afastou-se da componente lectiva, o barulho das crianças incomodava-a, tornou-se irritável e indiferente ao mundo, apática sem ermo num mundo de antidepressivos e psicossomatismos inerentes. Exageradamente gorda, arrastava no andar lento um pesar que se amortalhava nos olhos baços postos no chão, no desalinho da figura sobressaía um ventre imenso de solidão e um sorriso triste de quem tem fome no peito. Mostrava-me timidamente a poesia que escrevia desde há muito e eu via o inconformismo no grito das palavras que morriam no papel amarelecido pelos anos, a latência duma vida pela metade, a simetria dos dias sem brilho que lhe raptaram a essência. Aposentou-se e deixei de a ver.
Apareceu-me hoje do nada. Dos cabelos crespos surgiram-me uns longos e sedosos cabelos negros dos quais pendia uma fita colorida bem coquette, uma maquilhagem ligeira matizava um rosto sereno onde as sardas enfeitavam alegremente um sorriso rasgado, os olhos recuperaram a doçura e coadjuvavam os lábios nas palavras por dizer...sem necessidade de pressa. A postura de rosto erguido resplandecia juventude, as roupas seduziam os olhares, a graciosidade das formas num corpo sem memória em mim.
Divorciou-se. Emagreceu. Entrou para a Universidade da Terceira Idade. Organiza tertúlias de poesia. Apaixonou-se. É feliz.

sexta-feira, setembro 07, 2007


Venham sempre, quero que me encham a casa com a vossa alegria e os vossos sorrisos, tirem-me daqui os velhos do Restelo!

O teu último grito de vida, Clara! Desculpa amiga, por não termos tido a vontade suficiente para o fazer da forma que gostarias. Uma vida dedicada a causas, um exemplo de energia e tenacidade, sempre... até ao fim a acreditar que vale a pena viver.

Viste-nos, Clara? Estivemos lá todos, hoje, numa casa que não queríamos para ti, cheia de flores murchas que a saudade não rega, são de sal os pingos de choro. Rodeamos-te com a ternura e a tristeza da enorme perda sofrida. Vieram todos, de todo o lado, e misturámos as lágrimas com o sorriso das tuas lembranças, porque tu quererias que houvesse palmas e danças e festa no ar.

Uma salva de palmas para ti, minha querida! Descansa em paz!

terça-feira, setembro 04, 2007




Retomei, ao terceiro dia do nono mês do calendário Gregoriano, as pulsações da escola com as minhas ainda numa arritmia sinusal causada pelo estrangulamento das largas artérias por onde me movia em férias. C'est lá rentrée, mon Dieu!

No receio de que as pálpebras se mantivessem inertes à claridade do dia e que eu permanecesse restelada entre lençóis por mais do que devia, avisei de véspera amigo que já não visitava há um mês, sabendo que dos mansos e robóticos tique-taques que durante a noite me embalam, chegada a hora, entra naquela frenética e histérica alegria com ligação directa ao meu centro nevrálgico, sem dar hipóteses de acalmia enquanto não lhe der atenção. Amigo da onça! Mas para isso o quero e jeito me dá, que da manha do corpo sabe a mente, ou vice-versa ou simbiótico jogo de empurra se instala no complexo restolho de sono.
Sintonizado para as 8 horas da manhã, dar-me ia hora e meia de tranquilidade antes de entrar no bulício dos abraços inquiritivos de como foram as férias. Estando a 5 minutos da escola era prevista calma preparação, pequeno-almoço mastigado, não engolido na pressa, partilhado momento com o Baltasar num até já, que a dona volta cedo.
Mas teve de ser pessoalizado o despertar que o amigo da onça, não esteve pelo ajustado. Falta de treino ou senilidade precoce do bichinho, manteve-se na ronha sem cumprimento das funções acostumadas.
Pelas 9 horas tocou. Afinal enganei-me no acerto dos ponteiros, pensei entre risotas caseiras. Mas a certeza do momento nocturno deixava-me em dúvida. Fui ver. O ponteiro apontava certeiro as 8 da manhã. Como é possível, não sei, mas parece-me que amanhã terei de apontar para as sete ou voltarei a ser enganada por este inesperado inimigo da pontualidade.



segunda-feira, setembro 03, 2007



Estava eu atarefada, num daqueles momentos em que as nossas mãos se repartem pelo trabalho caseiro, com a mestria de pianista no teclado, desejosa de terminar as tarefas e poder usufruir dos últimos momentos de férias, de concluir leitura e dar uns retoques finais numa tela que tem andado a virar as costas para mim há tempo a mais, ou terá sido o contrário?, isso agora não interessa, quando toca o telefone.

-Estou, sim!
-É a senhora dona Maria...?
-Eu própria, faça o favor de dizer!
-Estamos a fazer um inquérito sobre hábitos televisivos. Podia dizer-me qual é o canal de televisão que mais se vê na sua casa?
-Aqui não vemos televisão, usamo-la só para decoração.
-Ah, é?!
-É.

Olha, desligou!

domingo, setembro 02, 2007



caio as paredes de branco para a alegria que está sentada num banco a rir-se do presente daquele dia. cobre-se de neve quente ao sol da manhã e a luz que enche aqueles olhos é a razão de viver. sabe que nas brechas se esconde a humidade das teias urdidas em fios escuros de pó e sombra. na limpeza sustêm-se os aromas do canto breve. liberdade tingida de pinceladas de grades. cantam os galos numa imitação tardia da vida prolongada para trás do ontem. esperanças pesadas na desordem do anoitecer. no momento a certeza que caiada a vida lhe apetece.

quinta-feira, agosto 30, 2007

Pink Martini - Sympathique

Aujourd'ui je ne veux plus travailler...

quarta-feira, agosto 29, 2007




Uma base de dados portuguesa inédita sobre expressão facial da emoção desenvolvida por um cientista da Universidade Fernando Pessoa, do Porto, está disponível na Internet para uso de investigadores.
O material agora disponibilizado na Internet inclui fotografias e vídeos com exemplos das seis emoções básicas (alegria, tristeza, medo, surpresa, aversão e cólera) e dos quatro tipos de sorriso (largo, superior, fechado e sem sorriso).Desenvolvida pelo professor Freitas-Magalhães, director do Laboratório de Expressão fácil da Emoção (FEElab) da Faculdade de Ciências da Saúde daquela universidade, esta base de dados destina-se a apoiar investigações em psicologia clínica, forense e experimental, neuropsicologia, neuropsiquiatria e ciência neurocognitiva, explicou à agência Lusa Érico Castro.Freitas-Magalhães é o único psicólogo português que estuda as funções e repercussões do sorriso no desenvolvimento das emoções e das relações interpessoais.Segundo Érico Castro, o FEElab apresentou na semana passada à Fundação para a Ciência e Tecnologia dois projectos de investigação, um sobre reconhecimento das expressões básicas em deficientes mentais e o outro sobre o efeito do sorriso na percepção psicológica de delinquentes portugueses.Expressão facial e delinquentes foi, aliás, o tema que Freitas-Magalhães desenvolveu numa conferência sobre comportamento humano e evolução da sociedade realizada em Junho na Universidade da Pensilvânia, em Filadélfia (Estados Unidos).Estudos anteriores dirigidos por Freitas-Magalhães incidiram no efeito do sorriso na percepção psicológica da afectividade e dos estereótipos, e nas diferenças de género, idade, da cor da pele e de gémeos, bem como no reconhecimento das emoções básicas através da expressão facial em diferentes grupos etários.Este investigador acaba de publicar o primeiro livro em Portugal sobre esta problemática, intitulado "A Psicologia do Sorriso Humano", nas Edições Universidade Fernando Pessoa, e planeia lançar outro em finais do ano, esse com o título "Psicologia das Emoções: O Fascínio do Rosto Humano".

Público

terça-feira, agosto 28, 2007




As avós não tocavam piano nem falavam francês, uma delas tinha um português vernáculo que usava na ponta da língua disparando a torto e direito, sem entender franzidos de testa que diagnosticavam sumiço pela terra adentro se não moderasse intempestividades linguísticas. Tinha uma taberna que nunca cheguei a conhecer que de tão graciosa entrada, numa semi-cave, ganhou fama por "Boca do Inferno", ao avô foi-lhe atribuída alcunha de "O Diabo". Pobre senhor Diabo que nunca se lhe conheceu sádicos prazeres no mundo do mal, antes triste sina da sua própria alma. Padecia de asma terrível que nos calores do subterrâneo atascado não encontrava brandura, nem os hálitos destilados, nem fermentações avinhadas desentupiam vias arfantes de farfalheira arquejante.
Num Inverno rigoroso, a tosse na Boca do Inferno tornou-se insuportável e a falta de ar levou-o até ao médico. Homem possante, de voz cavernosa e modos grotescos, de um humor subtil a pedir arcaboiço mental, caso contrário quem lá entrava com suspeita de doença saía de lá de maca.
- Pois é, Diabo, estás por um fio. Daqui a dois ou três meses vais saber como é bom estar no inferno!
O avô matutou naquilo durante algum tempo e nem as melhoras sentidas, lhe retiraram a ideia de que eram as da morte. Nunca o conheci, suicidou-se nas traseiras da Boca do Inferno.

domingo, agosto 26, 2007




No fundo da minha gaveta estou sobradinha de brumas. Recorresse eu a ela e o horizonte toldar-se-ia numa neblina densa de inverno, quase a metamorfizar-se em forte aguaceiro com direito a granizo ralado de um padecer que faria clamar as pedras da calçada. Pois nem sempre os dias são brandos e felizes, vezes há, em que se entorna o contentamento, descalço o humor logo pela manhã e febrilmente esvazio as angústias, que não fúrias, na pia dos dias. Do sorriso largo, estagna a vontade e regateiam-se serenidades a troco de introspecções e queda dos ombros com pendor esquerdista.
Da tendência depressiva depressa se retira proveito criativo que na escrita se aninha. Do mal do menos! Livros em Branco repletos de quedas livres em abismo solitário que na gaveta ganham alma de fantasmas de mim. Retiro-lhes a escuridão amiúde, salvo-os do buraco negro onde se encontram e o choque com a luz é sempre traumático para os meus olhos que mergulham em palavras que juraria nunca ter escrito, tal o jorro que sai da ponta dos dedos, alagando a folha, sem tempo para estabelecer canais da mente que regulem as enxurradas do peito. Do fundo da gaveta saem às vezes com direito a liberdade sem condicionalismos, são escritos do tempo, memórias com rosto, cinzel que nos afectos mostrou esculturas gravadas na pele. Se as virem por aí, falem-lhes do sol e dos voos lindos dos pássaros, riscando o céu azul, ao fim da tarde.

sábado, agosto 25, 2007



Crescemos juntos. Tínhamos em comum terra plana e segura onde nos movimentávamos aos bandos, tal era a algaraviada que se soltava do prazer da companhia. De bicicleta, mais tarde com automóveis-arrastadeiras que se compravam a meias percorria-se a distância que as mesadas curtas e as permissões familiares consentiam. Inventavam-se festas por tudo e por nada, nas férias, principalmente os rapazes voavam até Peniche ou à Nazaré e aí permaneciam meses em acampamentos ciganos que instalavam nos parques de campismo espalhando sedução e alegria de viver. Durante o Inverno, fazíamos do teatro um ponto de encontro de nós e de nós com a vida e na criatividade cresciam as asas do saber quem somos, procurando sentidos, determinando escolhas.
Soltos na vida, temos na distância a certeza do reencontro. Podemos estar meses sem nos encontrarmos será como se na véspera tivéssemos estado todos juntos e, na sede da conversa, ateamos os rostos de beijos e risos e palavras que se soltam sem medo do toque que na idade não encontrou portas fechadas.
Ontem estivemos juntos, comendo queijos de cabra e alheiras e coelho e grelos salteados e tigeladas e vinhos tintos que um leva e que os outros apreciam e sabem que o melhor vem dali. A cada um o seu pelouro que na complementaridade está o espólio de amigos servido. A irreverência nos olhares mesmo quando a desilusão ocorre. Nas confidências íntimas volvem-se os anos e numa santa irmandade dão-se conselhos, ralhados às vezes, sem lesões nem ofensas que não se rebatam na hora. Donos uns dos outros, de braços estendidos, dinâmica atenta num grupo pronto-socorro que não quer joelhos esfolados.

sexta-feira, agosto 24, 2007

quinta-feira, agosto 23, 2007




Do fundo da gaveta (3)

no movimento estaciono o olhar. proibido. percorro na transgressão o misto saber. revolvo nas fendas a maresia cristalizada na noite dos ossos. invento locais para passos fecundos de tudo em cisma de nada. presencio as nuvens etéreas das palavras que evaporam ao seco. o sol gira sobre girassóis de desequilíbrio continuado. expurga-se o pranto das pétalas maduras perto da lonjura. emigram asas de pranto salgado em flor e pousam em cristais translúcidos no ventre. ciclo fechado do tempo semeado de esquecimento.

terça-feira, agosto 21, 2007



Tirando tédio ao ramerrão dos dias partem com as casas às costas na procura de alívio para desalentados espíritos. Sobra-lhes em carga o que lhes falta no íntimo e entram no estio frouxo com rotinas tão intensas como as que repisaram durante meses de corre-corre entre o trabalho e a casa, vivida a meias sem meandros de afecto que lhes preencham o oco.

Levam a esperança escrita no horizonte que almejam azul e quente sem chefias determinantes dos humores que do lado negro se pretendem libertar. O reencontro íntimo das almas encolhidas por toldos de sombra, aumenta a exposição puída dos afectos, tecidos por tear perro de vontades e cumplicidades. Elas na renda procuram preceitos que lhes arrebiquem o sorriso, eles nos desportivos diários engendram tesão matinal que caída a noite esmorece. Salubridade dos dias sem potáveis gustações que saciem o palato ávido de agrado e onde o retorno é sempre de inexplicável acidez escoando palavras sortidas de aspereza e queixume.

Resta-lhes a romaria ao templo da Praia da Luz, para domar ansiedades por perdas cerzidas com prantos brandos. Em causas maiores o voyerismo se estende em redor do espectáculo da dor, em idas e vindas de fé. Perceber ao vivo a dimensão do drama seja qual for o desfecho.
Dão as mãos finalmente e entram na praia no silêncio... pesado, de quem percebe o mal menor que os anima.

segunda-feira, agosto 20, 2007

Um prazer dos diabos (3)

Simplex 333

Um prazer dos diabos (2)

Taxas moderadoras nas urgências

Um prazer dos diabos (1)

Tele-Escola para Políticos

La Faute à Fidel

"Anna tem 9 anos e uma vida é simples, ordeira e de hábitos instalados. Uma vida que decorre confortavelmente, entre Paris e Bordéus.Mas eis que entre 1970 e 1971, o compromisso político assumido por seus pais, da extrema esquerda, muda a vida de Anna.Primeiro, o seu tio, comunista e envolvido na luta contra o regime de Francisco Franco, desaparece, possivelmente assassinado pela guarda-civil espanhola.Posteriormente, após uma viagem ao Chile, durante a presidência de Salvador Allende, Marie e Fernando (os pais de Anna) decidem por em prática as suas ideias políticas.Termina assim a tranquilidade na casa dos arredores de Paris, que começa a ser visitada por camaradas "vermelhos e barbudos", por pessoas que sonham com a Revolução de Fidel Castro. Termina a época da educação religiosa e, sobretudo, a calma que caracterizava a vida da menina".

(Julie Gravas, realizadora do filme, é filha de Constantin Costa Gravas).




Queria muito ver este filme. Entre outras moticações, por viver numa terra que entregou a vida de muitos dos seus filhos a causas que na base da ideologia se desprendia dos valores materiais individuais para abraçarem a luta por um bem estar colectivo. Superiodade moral a que me curvo respeitosamente, acreditando que os princípios impulsionadores foram alavancas e motor de arranque para a democracia em Portugal. Com todos os erros e desilusões "Hasta siempre".


E vos digo e conjuro que canteis!



Que sejais menestreis
De uma gesta de amor universal!
Duma epopeia que não tenha reis,
Mas homens de tamanho natural!
Homens de toda a terra sem fronteiras!
De todos os feitios e maneiras,
Da cor que o sol lhes deu à flor da pele!
Crias de Adão e Eva verdadeiras!
Homens da torre de Babel!
Homens do dia a dia
Que levantem paredes de ilusão!
Homens de pés no chão
Que se calcem de sonho e de poesia
Pela graça infantil da vossa mão!

Miguel Torga

domingo, agosto 19, 2007


Entre malas e roupas limpa-se o dia das areias que infiltradas em avessos imperceptíveis vertem as réstias de férias, como dos casacos com compleição carnavalesca, ainda na Páscoa, se soltam papelinhos dos bolsos, resistindo à quarta-feira de cinzas e ao enterro do galo. Dos pareos finos e dos tops reduzidos não se queixa a lavadeira de serviço, ser mulher quando aperta o calor é reduzir trabalho das serviçais, leia-se, maquinaria pesada que num simples gesto passa horas de labuta, poupando-nos de esfregar, corar e torcer. Tanto de noite como de dia, que nos turnos bi-horários ainda nos garante trocados. É certo que este regime não diminui o consumo. É fundamental pensar que são necessários cerca de 2600 Kw de carvão para conseguir 1KW de electricidade. É um horror!A poupança de electricidade não se consegue com electricidade barata, mas sim diminuição do consumo...então lá vou tendo o cuidado de fazer cargas completas e reduzir para meia-lavagem quando as peças o justificam. É claro que para a EDP e congéneres que por aí devem estar a chegar, o que interessa é o lucro, mas isso agora dava outra estória. Certo é que dispensadas de barrelas, fruímos das horas que tão bem sabemos aproveitar. E soube-me a nozes o convite para almoço entre sobrados e milheirais, visitando a paisagem de cores quentes do Ribatejo mais além, onde a conversa se pôs em dia, houve tempo para acabar o livro que estava por páginas saber finais e uma tela branca já pousa no cavalete com cores de mar e de beijos. Uma paixão a necessitar de registo.

sábado, agosto 18, 2007



Entre o sol e as brumas, vislumbra-se uma anarquia a precisar de leis, que a anomia aparente só corresponde pela metade à gestão deste espaço! Se às normas coercivas e controladoras sou avessa por natureza, preferindo a responsabilidade individual como prato forte, o bom senso como entrada e para ajustar entranhas, doce apurado em humanitárias concepções, traduzidas aqui em tolerância de exigência assertiva, vejo-me em palpos de aranha para resolver abordagens que nas maiúsculas procuram a refega.

Sou da paz! Cheguei agora de férias, ainda sinto a areia e o sal a inquietarem-me a pele! As expectativas para férias foram superadas o que engoda a vontade de bisar, as do regresso aumentadas pelas gargalhadas blogosféricas, entremeadas de humores neo-liberais a inquinar-me o capital humano, num prurido subcutâneo que me encaminha para regime de lay-off sob o comando apertado desta gerência.

Há um ano iniciei esta faceta pública de divulgação do que amiúde me apetecia escrever. Saiu da gaveta este prazer por escrevinhar, sem expectativas de maior. Um prazer avulso entre prazeres. Durante seis meses naveguei sem piratarias oclusas descobrindo pares que seleccionava conforme a sensibilidade. Escrevia sem esperar que muita gente me lesse já que não havia links para retribuir(?). Surgiu uma lista diversificada que se alinha agora aqui do lado direito. A maioria que leio não me lê, mas não é isso que me retira motivação nesta esfera. Gosto de quem escolhi e visito-os sempre na perspectiva de que nem sempre com eles concordo, mas o respeito pelo seu espaço e opinião faz com que na divergência não me perca nos caminhos da irascibilidade e inoportunidade. Todos os comentários são valorosos, mesmo quando o escárnio escorre pelas letras há ainda a graça e a inteligência a salvarem o jeito pirata.

Sou inteiramente responsável pelos que cativei. Quero que quando me visitem tenham recanto repousado para minutos de partilha. As grandes questões blogosféricas de enredos políticos e pessoais sigo-as com a atenção que me merecem mas nelas nunca me incluí por não ser esse o meu projecto. Espaço de discussão com catálogo diverso poderá ser, mas nunca tendo por base a provocaçãozinha insolente. Às tantas perde a graça, cai em desgraça. A parte lúdica dilui-se rapidamente. Existem palcos mais visíveis onde esse arreganhar de dente poderá ser um estímulo, aqui neste nicho pacato mostra-se o dito só para soltar sorrisos. Só fica quem quer.

Ah, já me ia esquecendo, faz hoje um ano que este espaço surgiu! Na prevalência do sol, esperando que assim continue já que nunca gostei do lápis azul.

terça-feira, agosto 14, 2007



Meu querido, sei que sou uma egoísta que estirada nas areias deste país, entre comezainas fartas e verdes frescos, te deixa assim ao abandono, logo agora que se aproxima data tão marcante para ti.
Sabias...sabes que a nossa relação não será eterna, aliás, cumprido este ciclo que esperava já com alguma ansiedade, tínhamos certa ruptura cerce. Com porta aberta sempre, para circularmos entre amigos que juntos escolhemos e que continuaríamos a visitar de braço dado, com sorriso aberto, acrescentando amizade a esta que nos une.
Ouviste-me como só um amigo o faz, na calma ou na turbulência dos dias, aconselhaste-me com os teus silêncios que soube entender, guardaste segredos como rascunhos que só nós interpretaremos, descobrimos juntos a cumplicidade com o mundo exterior e no nosso percorremos labirínticos passos de descoberta. Mas dizem que um ano é quanto dura uma paixão e já não corro para ti como o fiz em tempos. Sabes disso e nem por sombras teces queixume que me penalize.
Estas férias separados foram excelente barómetro de afecto e, meu querido blog, certificada está esta minha dedicação por ti. Fizeste-me falta. Senti a ausência com saudade e regressarei no dia do teu aniversário. Não, não te mudarei o layout, quero-te assim neste tom ocre que me lembra já a luz de fim de tarde de um Verão por terminar. No meu, vais achar diferença, sabes que a tez morena produz melanina em quantidade quando exposta a banhos de sol, mas no sorriso branco encontrarás a palavra chave para este nosso modo de vida.


quarta-feira, agosto 08, 2007



Na sétima onda atrevo-me a cavalgar. Seguro-me na crista branca que se lança nos ares empurrada pelo vento e salpico-me nas crinas soltas de espuma e de branco. Na neblina matinal relampejam arco-íris de frescura e imensidão e olho para trás rindo-me do perseguidor e envolvente olho espelhado que pestaneja sedutor ao beijar a areia morna. Amor ancestral de vida fecundado nos abraços eternos entre a terra e o mar.
Gosto do Atlântico, firme, vigoroso, pujante de esperma derramado no corpo da praia sensual e ávida de sal, qual fêmea espreguiçada ao sol, esperando do amante o reencontro sempre desejado.
No sussurro perene de incansável melodia lavo o pensamento, sacudo os ponteiros das horas e dos minutos e percorro a vastidão de cada segundo contando os grãos da rocha fina e branca onde me deito. Cubro-me de conchas e pedras que no fundo do tempo me beijam os pés e na pureza do momento invento-lhes energias que guardo em segredo. Deixei de pensar, medito em recolhimento com a natureza absoluta deste lugar.

Só o chamamento da cataplana de marisco me lembra que saber (a)mar também se faz com os sabores terrenos.


domingo, agosto 05, 2007








O meu amanhecer





O meu pôr-do-sol





Agora, irei em busca de novas paisagens...fiquem bem!


sábado, agosto 04, 2007



Porque hoje é sábado e está um dia lindo lá fora...



Um fazendeiro coleccionava cavalos e só lhe faltava uma determinada raça. Um dia, ele descobriu que o seu vizinho tinha esse cavalo. Assim, ele atazanou tanto o seu vizinho que conseguiu comprar o cavalo. Um mês depois o cavalo adoeceu e ele chamou o veterinário:
- Bem, o seu cavalo está com uma virose, é preciso tomar este medicamento durante 3 dias, no terceiro dia eu voltaarei e, caso ele não esteja melhor, será necessário sacrificá-lo.
Naquele momento, o porco escutava toda a conversa.
No dia seguinte deram o medicamento e foram-se embora. O porco aproximou-se do cavalo e disse:
- Força amigo! Levanta-te daí, senão serás sacrificado!!!
No segundo dia, deram o medicamento e foram-se embora.O porco aproximou-se do cavalo e disse:
- Vamos lá amigo, levanta-te, senão vais morrer! Vamos lá, eu ajudo-te a levantar... Upa! Um, dois, três.
No terceiro dia, deram-lhe o medicamento mas o veterinário disse:
- Infelizmente, vamos ter que sacrificá-lo amanhã, pois a virose pode contaminar os outros cavalos.
Quando se foram embora, o porco aproximou-se do cavalo e disse:
- É agora ou nunca, levanta-te logo! Coragem! Upa! Upa! Isso, devagar!Óptimo, vamos, um, dois, três, agora mais depressa, vai...Fantástico! Corre, corre mais! Upa! Upa! Upa!!!Venceste, Campeão!!!
Então de repente o dono chegou, viu o cavalo a correr no campo e gritou:
- Milagre!!! O cavalo melhorou. Isso merece uma festa...Vamos matar o porco!!!

Estados d'alma em pó

O gigantão
Pra ser maior
Pôs-se a inchar
Como um balão
E tanto inchou
O gigantão
Que rebentou
Caiu no chão

sexta-feira, agosto 03, 2007



Alguém me pode explicar isto?


quinta-feira, agosto 02, 2007




Olhava o tecto como limitado horizonte, não se limitando, erguia vigas e placas cimentadas no corpo imóvel que no amanhecer do dia sonhava auroras. Pensava com as amígdalas, na sensação conhecida de que a cada emoção se alagavam estas de embargos pesados e, abrindo comportas, humedeciam o corpo e o rosto num fogo gelado. Duas, uma de cada lado da garganta a saberem dos segredos a alma do negócio.
Afinal quatro!, mais duas, "localizadas na profundidade dos lobos temporais anteriores. Centros identificadores de perigo, gerando medo e ansiedade e colocando o corpo em situação de alerta, apontando-se para fugir ou lutar. Conjunto nuclear importante para os conteúdos emocionais das nossas memórias."
Com quatro amígdalas em funcionamento pleno, como se justificava que se comportasse como à sua ablação tivesse sido sujeita?




Para J

quarta-feira, agosto 01, 2007

19etrocaopasso


De mim...

Da menina crescida em berço de campo olho as memórias dos tempos perdidos entre achados momentos telúricos. O sabor da terra quente, sentido no lamaçal inventado, sabia a ervas de verdade com flores por descobrir em herbários futuros. Chupar o caule das azedas à mistura com deliciosas flores de marmeleiro era manjar de pequena gourmet, adocicado na brincadeira partilhada, percorrida entre hortas desenhadas em esquadrias sábias da enxada e jardins de intenso cheiro a buxo, trazendo a magia da descoberta.
Motricidade trabalhada na global interacção com o espaço, sentida nos arranhões,nos joelhos esfolados, nas lascas invasivas, nas unhas que subiam as árvores como garras de felino. Ao fim do dia, mugia-se dos limões suco que arredasse sujidade em unhas de carvoeira. No Verão, ao calor expunha cabeça que do chapéu só via serventia para assento, e a cor da pele trigueira metia a mana em apuros" Mãe, vou lavar a Ti com lixívia". Corre-corre de gargalhadas e de sermões.

Quem se servia das unhas desta maneira a elas não dava valor comestível. Nunca dei, nem dou! Aos conselhos empenhados para não roer as unhas, aqui fica escrito, por linhas tortas, que não as roo, senão para figura de estilo aplicada a estados de alma. Não sendo as mesmas amêndoas perfeitas, andam sempre no tamanho certo que não me empate afazeres de meter a mão na massa. Aparadas de peles que rejeito, assim como de vernizes de cores, resplandecem brilho suave que olhos conhecedores sabem dos segredos da manicure ser a base, que em duplicada camada, me chega. Tomaria eu desdizer igualmente vício que as amarelam. Mas um dia destes saberão dessa pequena vitória.

segunda-feira, julho 30, 2007



Por trás dos reposteiros ( novos, que Verão implica mudança para mim) distendo-me do calor abrasador que ferve o sangue de quem trabalha lá fora. Que posso eu fazer? Solidarizo-me. Do ar condicionado fica a secura das mucosas infiltradas em carvão, pulverizado por Slims que para mal dos meus pecados, não largo. O trabalho nas minas é duro! O país serve-se lento, longe das sestas assumidas, perto da languidez da produtividade, a meio-gás, que, A Gosto, vem a caminho pausa merecida para a maioria dos portugueses. Que o diga Paulo Portas que promete feroz oposição para Setembro, que agora com este calor não dá jeito nenhum. Façamos uma pausa que o tempo é de navegação nos iates onde todos(?) somos praticamente amigos...de bebidas estupidamente frescas e de roupas leves e corpos bronzeados e assim...


Entretanto no Jardim fresco, que possuímos(?) algures há "um bicho-carpinteiro que vai moendo a Madeira por dentro"e raspando o que não lhe convém para o "contnente". Já que esta coisa dos referendos aborta facilmente nas águas atlânticas, desde que não seja um escorrega tipo Aqua-show de euros . Que as leis da República se aplicam a todo o território nacional, tinha eu certeza em mim, mas parece que o calor me afectou o sistema neurológico ou estou mesmo a viver na república dos bananas, que se vão refrescando com gelados, batidos de fresco álcool e salada de frutas oxidada pelas temperaturas altas lá de fora e mornas águas de interno descontentamento.


Eu fico assim! Irónica e de garra afiada, desde que deixei de roer as unhas e passei a usar endurecedor e vernizes. Qualquer dia deixo de fumar, passo a roer as unhas novamente e mostro a psicopata que há em mim.

domingo, julho 29, 2007



Sun-tarém


A 10 de Março de 1147 sai de Coimbra um exército composto por alguns Templários, cavaleiros e peonagem, num total de 250 homens, comandado por Mem Ramires, com o fim de conquistar o burgo de Santarém aos Mouros.
Na madrugada do dia 15, depois do sono ter vencido as sentinelas, que se encontravam nos postos de vigia, Mem Ramires e os seus homens entraram no burgo e sem grandes dificuldades, tomaram Santarém.


Hoje, foi a vez do sol, qual toiro enraivecido, apanhando a campinagem a dormir, instalar-se no centro do Ribatejo, como se não houvesse outro lugar para abancar! Dos 42º previstos, aos 45º já chegou! A cidade mais quente do país começa a olhar para o Alqueva como oásis, percebendo que Além Tejo as temperaturas se vão refreando, enquanto o Tejo parece regato de sopa fermentada, cuspida no leito por espanhóis sovinas!

sábado, julho 28, 2007


Porque hoje é sábado e está um dia lindo lá fora...


Um professor de Matemática quis pregar uma partida aos seus alunos e disse-lhes:
- Meninos , aqui vai um problema:

Um avião saiu de Amesterdão com uma velocidade de 800 km/h, à pressão de 1.004,5 milibares; a humidade relativa era de 66% e a temperatura 20,4 graus C. A tripulação era composta por 5 pessoas, a capacidade era de 45 assentos para passageiros, o banheiro estava ocupado e havia 5 hospedeiras (mas uma estava de folga).

A pergunta é... Quantos anos eu tenho?

Os alunos ficam assombrados. O silêncio é total. Então o Joãozinho, lá no fundo da sala e sem levantar a mão, responde:
- 44 anos, professor!
O professor, muito surpreso, olha-o e diz:
- Certíssimo. Eu tenho 44 anos. Mas como adivinhastes?
E o Joãozinho :
- Bem, eu deduzi porque eu tenho um primo que é meio parvo, e ele tem 22 anos...

sexta-feira, julho 27, 2007



Quando há alguns anos me deparei com o livro" Uma Infelicidade Maravilhosa" de Boris Cyrulnik, estanquei. Do autor pouco ou nada sabia. A antítese dos conceitos não me permitiam a concordância. Desconfiei, mas instintivamente peguei no livro, na certeza que após breve leitura, um sorriso de descrédito me confirmasse o que assegurava: nunca a infelicidade poderia ser válida a ponto de se adjectivar de maravilhosa.Charmar-lhe-ia dolorosa aprendizagem, nunca título que se aliasse à Alice no seu mundo. Que disparate!
De pé, li. Currículo do autor interessante, bibliografia magnífica. Interessei-me e comprei.
Relatos de gente (sobretudo crianças), que perante a desconstrução de seu quotidiano encontraram a força para enfrentar e superar a adversidade com a coragem dos heróis.
Verdadeiras epopeias psíquicas que transformam o caos e o desequilíbrio num estado maior de força e de triunfo certos. Resiliência. Foi nesta altura, que a palavra carcinoma me ferrava a bisturi o corpo e a alma, que contactei com o conceito e percebi, na prática, que é possível aplicá-lo." O sobrevivente é um herói culpado por ter morto a morte".
" Quando a realidade é terrível, o sonho dá-nos uma esperança louca. Em Auschwitz, ou durante a guerra..., o super-homem era um poeta".

Dedicado ao Luís e à Ana, com todo o carinho.



quinta-feira, julho 26, 2007


Fotografia roubada aqui.

Gosto de o ser. Mulher sem anos de solidão. Vida comprimida num corpo repartido pelos afectos que me ligam aos outros que me estão próximos e por quem vou tendo o privilégio de me cruzar. Que me dou pouco, peno eu, que me dou demais, alguém me diz. Na entrega de uma palavra, de um sorriso, de um aconchego encontro a demasia certa, quantas vezes esbarrando no excesso de um troco que não mereço. Tenho o que escolhi e dou a quem me escolheu. Na permuta a realização. Na blogosfera sei de nomes, de nicks, de pessoas integras e inteiras que crivei de poeiras estéreis e me engrandecem os momentos de deliciosa ( in)solidão. Visito-os, habitualmente, ao fim do dia. Bato-lhes à porta, tomamos juntos tisana que não dispenso, rio, aprendo, comovo-me, e num até amanhã camaradas me despeço, quantas vezes sem um comentário ter escrito, mas com a certeza de que ali irei voltar. Porque esta comunidade pode...tem, uma força imensa que já se percebe e quem viver verá, gosto de aqui estar.


A Teresa, incluiu-me numa corrente. Não vou partir o elo e encaminho-a para dez blogs que, também eu, gostaria de poder folhear em livro. Se dispensarem o desafio não lhes vai acontecer nada, só uma certeza podem ter : lá pela noitinha eu sentar-me-ei a ler-vos.

quarta-feira, julho 25, 2007



Sonho


A lua banha-me rente. desce em escadaria pela noite fora e pousa-me nos pés da cama onde me deito acordada. silenciam-se as palavras em mostras de gestos inacabados. traduzidos pelo centro do corpo que arde em fogo brando. sustento o ar quente como floresta tropical e salpico-me de sal e húmus. fertilizo o pensamento nos búzios trazidos pela noite e da líquida vegetação transformo a seiva do lugar em alimento sussurrado pelo vento. ondulam prenhes as flores. tremo. a lua caiu redonda no meio da minha cama e eu sou luar e fios de prata e não tenho olhos senão para as crateras que cravou em mim. a noite. pouso a lua no chão. acordo com o sol beijando-me os olhos. incandescente. sonho.

terça-feira, julho 24, 2007




Do fundo da gaveta...(2)

na maciez audível vibram as fibras da carne num banho de ternura alado. sabes da cor dos meus dias como da recta a imensidão. infindável. entre perpendiculares sentidos. obtuosidade aguda nas coincidências singulares. extraordinária proximidade entre mundos paralelos que coincindem para além das regras da geometria palpável. abstracção desmedida entre mãos sem olhos que se entrelaçam ao amanhecer e permanecem em dádiva perante o ocaso da razão. leitura de sons acolchoados num solfejo estremado em escalas de ser sem ter. ausência presente no seio do sol. no colo da lua. embalando constelações em cama de mar. vai-vem na maré que traz os fios da voz. sentida.

segunda-feira, julho 23, 2007




Chegam os dias sem despertador como adereço principal do acordar e madrugo mais cedo, sem sono. A claridade apressada, nesta altura do ano, espreita cedo os recantos do quarto, sucumbindo a sombra dos objectos conhecidos, que rapidamente se reposicionam nos lugares costumeiros, após orgia nocturna. Dia após dia vêmo-los ali na estética esquadria de um dia, longínquo, de inspiração.
Levanto-me de mansinho, para não os assustar. Dos pés saem raízes que se prendem ao núcleo central da terra, não levante eu voo etéreo na leveza dos dias.
Há muito que a passarada da vizinhança conversa numa estridente praça de jorna, regateando o melhor lugar para atacar a comida do Baltazar que dá de bandeja vida fácil a quem por aqui arranja ninho, ou pernoita nas árvores que ladeiam o quintal. Indiferente, o bicho teima com o sono, que lhe pende timidamente a língua entre dentes e a imagem de dona fora de portas tão cedo. Já são horas de passear? Levanta só a cabeça ainda com a língua entre portas. Quer perceber se é mimo nocturno ou se deixou passar a hora. Dorme Baltazar, vim só beber a frescura da manhã e um copo de leite morno.
Regresso à horizontalidade agora ainda mais acolhedora. A vela está torta, a jarra sem flores, as molduras...levanto-me e abro a janela. Hoje, vou mudar o quarto! A madrugada sempre me inspirou.


domingo, julho 22, 2007


Interiores da noite...( má língua)


Não se faz anos todos os dias! Há que comemorar! Estamos todos de acordo. Na recepção a diferença: entrada no bar com pulseira hoteleira em regime de pensão completa ou triagem hospitalar. O aniversariante à porta vestido num rigor bacoco fez-me lembrar o pai no dia do casamento. Casaco branco com linho por nobre escolha fere a vista ao primeiro embate, sapatilha prateada chiando a novo, t-shirt negra onde as letras de prata esboçam uma frase que não dá para ler, devido ao abotoamento certeiro do casaco que apetece desabotoar e mandar ao ar, talvez desse jeito à lua que, na noite inesperadamente fria, vive num quarto crescente de arrepios.
Circula na festa com o ar de anfitrião zeloso para que nada falte, dando ordens com a exigência de quem paga. Afirma-o, alto e bom som, altivo, para que não fique a dúvida de quem manda ali. Charuto cubano na boca que nunca fumou, valha-nos isso! Pasmo! Espero um sorriso que me mostre o dente de ouro, olho a mão na busca da unha adulta e cachucho digno, imagino pulseira e fio de ouro, arreganho o dente para adivinhar o quilate. Abano a cabeça e desfaço a imagem, afinal vi-o crescer!
Da alegria dos 27 anos, não vi o brilho nem sombra. Melhor, só sombra. Sobra-lhe em carros e motos o que lhe falta em acerto. Mal cumpridos e desarrumados aos anos vai somando a arrogância do dinheiro do pai. Mas a este e à zelosa mãe responde com rei na barriga criada a batata frita e a bifinhos ainda hoje limpos de gorduras pelas mãos da progenitora. Um pequeno ditador, na casa sede, que nada faz digno de registo, nem mesmo fingir que estuda. Mas o desejo da noite era mesmo ter casa própria. Paga pelo pai, claro! Lá chegará.

sábado, julho 21, 2007

Hoje, começam as minhas férias! Devia sentir-me assim!







Mas sinto-me assim!




Isto passa!



Porque hoje é sábado e está um dia lindo(?) lá fora...

Dois gajos loiros estavam a trabalhar para o Departamento de Urbanismo. Um escavava um buraco e o outro vinha atrás e voltava a encher o buraco. Trabalharam um lado e outro da rua. Passaram à rua seguinte. Sem nunca descansar. Um escavava um buraco e outro enchia o buraco outra vez. Um espectador divertido com a situação, mas não entendendo o porquê do que eles faziam foi perguntar ao cavador:


- Estou impressionado com o esforço que os dois põem no trabalho, mas não compreendo por que é que um escava um buraco e, mal acaba, o parceiro vem atrás e volta a enchê-lo.O cavador limpando a testa suspira:


- Bem, isto pode parecer estranho porque normalmente somos três homens na equipa, mas hoje o gajo que planta as árvores telefonou a dizer que está doente.

terça-feira, julho 17, 2007



Nas águas mornas do teu colchão

banho-me de espuma.

Vetusta a esperança

se alimenta dos sabores adocicados

da luz trémula da vela que nos vigia

cobiçando o dealbar da realidade

sonhada

propagado em brilho intenso

suspenso no prazer

que se prolonga

para além do estar.

Levito!
Do fundo da gaveta...(1)


A luz do dia acordou cedo esboçando em traços cruéis a imprecisão das horas por viver. Dormias sem sonhar a vingança do outono... o verde das tímidas folhas, veladas no botão embrionário, anoiteceram já velhas, secas, embutidas da dor do nado-morto. Nasceram fora do tempo e a transgressão as levou. Das perenes fez-se a coroa e alinhavada com dor cravejou-se na tua cabeça.

segunda-feira, julho 16, 2007




Post embrionário não publicado a 10 de Junho

Passa-se pelo dia como quem vai ali e já vem! Jangada de pedra sem rumo, ou então, com os descobridores de caminhos desconhecendo dos astrolábios os segredos da navegação. Palas nos olhos e toca andar que a onda vai nesta direcção.

Adenda:

Depois das eleições por Lisboa e da vergonhosa abstenção, não me choca nada que se leia isto:"Não sou profeta, mas Portugal acabará por integrar-se na Espanha". Aliás, há muito que me sinto . Quem não exerce a cidadania não merece outra coisa!

domingo, julho 15, 2007


Diz quem me conhece que sou pessoa calma. Descamo a pele e procuro encontrar essa serenidade que, no pregão alheio, não se identifica...totalmente. Sinto uma maternidade fraterna com a vida e com os que me cercam. Ouço-os no colo da isenção, sem dedo em riste nos modos, entendendo que cada um é emaranhado de seres criados por nós que se atam e desatam na sensibilidade pessoal, sustentada nas pregas alinhavadas com o mundo, cosidas com linhas cruzadas em pontos complexos que muitos esqueceram o preceito, mas registam no jeito a súmula final.

Aos extremos sou adversa, aos caprichos sem propósito retiro-me, aos impulsos descontrolados olho de soslaio. Reservo dificuldade em entender o descontrolo. Aplaino filtros de malhas precisas mas arremelgo os olhos quando pressinto egos fora do tónus, com recorrência a vitaminoses de soberba, de exagero, de prepotência, de bicos de pés sem ponta por onde se pegue. Centros umbilicais causam-me enfado. Retiro-me. Serei calma na frontalidade assertiva, das palavras ditas na procura do encontro com o outro, na capacidade de rir das fraquezas assumidas sem moléstia de dor.

Lavam-me os pés, para meu desconcerto, pegam-me na planta dos mesmos e, em toques, localizam-me órgãos em reflexologia que desconheço. Só sinto alfinetadas onde a calma se acaba e começa o cansaço de ser calma. Alerta a precisar de meditação.

sábado, julho 14, 2007





Porque hoje é sábado e está um dia lindo lá fora...


Por que cantadas em loiras nao dão certo???


(MALANDRO) - Oi gata... Qual é seu telefone?
(LOIRA) - Nokia. E o seu?
(MALANDRO) - Uau! Isso aqui é uma calçada ou uma passarela de moda?
(LOIRA) - Hum, agora você me pegou... É que eu não sou daqui. Então não sei te informar...
(MALANDRO) - Eu não tiro o olho de você!
(LOIRA) - Ainda bem, né? Senão eu fico cega!
(MALANDRO) - Nossa! Eu não sabia que boneca andava!
(LOIRA) - Sério? Nossa, você tá por fora, hein? Já tem até Barbie que anda de bicicleta!
(MALANDRO) - Que curvas, hein!
(LOIRA) - Nem me fala... Eu bati o carro 7 vezes pra chegar nessa festa!
(MALANDRO) - Esse seu vestido vai ficar lindo jogado no chão do meu quarto!
(LOIRA) - Quer comprar um igual pra fazer um tapete? Eu te indico a loja...
(MALANDRO) - Eu quero o seu amor, gata!
(LOIRA) - Espera só um pouquinho... Amô-or! Tem um moço aqui querendo você!
(MALANDRO) - Me dá seu telefone, vai!
(LOIRA) - Socorro ! Um assalto !
(MALANDRO) - Meu coração disparou quando eu te vi!
(LOIRA) - Socorro! Alguém ajude! O moço está tendo um ataque cardíaco!
(MALANDRO) - Quer beber alguma coisa?
(LOIRA) - Ai, que bom que você apareceu, garçom!




doem-me as pálpebras nos muros fechados, sangram as pétalas nas retinas murchas, agridem-me as palavras sufocadas no mar revoltoso que me encharca a garganta. queimam-se a carvão os traços desenhados no sonho sem sono. só noite. uiva o vento desdenhando o verão em templos perdidos sem si. chilreiam as folhas verdes entre os ramos secos que me ofereces e busco no ninho a asa partida. perdida. solta do corpo e dorida no ventre que se expande em volúpia adormecida. sabia. sei. do teu medo de saber a verdade corroída sem norte. perco-te nas poucas palavras que me dás. sem vida. seco e incho de dor. desmedida.

sexta-feira, julho 13, 2007

Num esforço de arre macho empurro-as. Arqueio as que se lhes sobrepõem numa tentativa vã de lhes dar firmeza. Insistem na queda livre para o amparo sonhado. Se cais queimas-te! Não importa!Nenhuma tentação lhes surge como ânimo. Resistem à luxúria da vida, a saber: despachos ministeriais, e armam-se em moles membranas que se quedam no encosto. Imóveis, pesadas, sem viço. Os cílios envolventes, quais vigas de fino ferro, cerram-se como portadas ionizadas.

Homessa, não consigo abrir os olhos!O raio das pálpebras tombam na cama do sono, sonham mergulho de alívio e eu teimosa fecho uma de cada vez.

Já foram todos de férias?

quinta-feira, julho 12, 2007


Longe vão os tempos da minha meninice mas a eles volto com a regularidade das memórias vivas, dos sítios que percorro, dos cheiros sentidos, dos sons que enchiam o meu quotidiano e que agora se tornam alerta e apontamentos de lembrança.
Uma vida guardando dentro e fora de nós tudo o que nos fez assim e não diferentes. Reminiscências de um passado-presente, pela importância , pelo mérito ou desmerecimento tal, que cravou à nossa passagem uma marca inalterável pelo tempo. Sinais distintos no correr dos dias e da vida.
Aqui sentada, ouço o vento que varre a planície, neste dia ainda quente. Insiste, hoje, em mostrar a sua força, ensaiando uivos para mostras vindouras. A folhagem das árvores, desnorteada, murmura segredos de dor e de esperança.
Vento que me traz um tímido e longínquo cantar de galo, como se de um garnisé se tratasse. Rapidamente recuo na máquina do tempo instalada no memorial afectivo.
A casa da madrinha. Visitada nas tardes de sábado ou de domingo. Outeiros menos urbanos, então. Espaços bucólicos, onde a liberdade de acção e de descoberta me era entregue de mão-beijada sem repreensões de maior. Menina na casa de filho-homem perdido. Alegria bem-vinda e acolhida entre beijos e aclamações de extremados afectos, para meu regalo e aprovação.
Entre tanques de rega e campos cultivados me perdia, brincando com tudo e com nada. Brinquedos inventados na urgência de quem se diverte com as coisas simples que a natureza oferece a quem tem tempo de a observar.
Pela tardinha, o galo cantava. Canto grave e roufenho como se o cansaço da lide e do tagarelar da capoeira lhe retirasse a limpidez da voz, ao fim do dia. E aquela coisa espantosa que me acontecia em simultâneo" Madrinha, cheira-me aqui a pão fresco!"Entre risos e abraços preparava-se o lanche com compotas, que tu tão bem sabias fazer.
Sentada entre estendais e os últimos raios de sol, saboreava a merenda e os dias de felicidade ingénua e plena que me enchiam de tranquilidade e de paz.
Madrinha, ouvi o galo cantar! Cheira-me aqui a pão fresco!

quarta-feira, julho 11, 2007




Momentos inacabados


Subo aos olhos fechados a escada de madeira encaracolada no trilho. Degraus de libertação de fim de dia onde entro no mais intimista dos meus mundos. Aqui podo e recolho os sabores da vida, da que me deu o novo amanhecer que agora se alaranja em cama de terra e mar. Filtro nas paredes que me envolvem os ecos, beijo a terracota da chávena de chá que bebo, escrevendo, pintando, desenhando a sanguínea redondos momentos entartarugados no corpo dos dedos que liberto.




Estes momentos são meus e teus que paraste e me lês. A Ela agradeço o querer- Dos outros, os momentos.

terça-feira, julho 10, 2007



Passam rostos, tocam-se mãos, trocam-se olhares, soltam-se risos, ideias, conceitos. Na nata dos dias ficam vagas ou profundas vontades de saber mais de quem se cruzou connosco na vida. Alguns, vivem ali diariamente, partilhamos os mesmos espaços, mas não vivem em nós. É como se as sementes não germinassem pela falta de nutrientes, salobridade distante que impede a fecundidade, manta-morta desnutrida em salgadiço terreno.

Outros alimentam as relações na distância como se presentes diários nos enviassem ao ser. Vêmo-los como ocasos na solidão, sabê-los é ter companhia certa e, dos momentos vividos no plural, fazem-se festas que nos animam as ausências.



segunda-feira, julho 09, 2007



Uivam os ventos num desnorte de mudança geológica, batendo nas portadas das gentes atadas na sorte da inversão do magnetismo polar. Regista-se nos corpos o que das mentes emana entre derivas e certezas por catalogar. Sintomas genéricos sem marca registada que indique composição melhorada para cura promissora. Prevenção varrida das tábuas bíblicas por vento holocáustico da humanidade insana. Fragmentos de alento anuem aos restos de valentia que se empurram a soldo de vontades cansadas. Saem p'rá vida como descontinuidades, como a escrita que se lê aos solavancos. Perra.

domingo, julho 08, 2007


Reclamam-me. Desço às alturas das exigências diárias com a mente ausente nas catacumbas que pairam atmosfericamente, longe das cavernas metafóricas de Platão. Espero!Massajo o plexo solar contrariando o movimento biológico do relógio. Inspiro. Reparo nas moscas mutantes que me surgem do nada e no alado movimento Live Earth sustento a esperança da quebra da inércia. Medito. Nas Sete Maravilhas da noite viajo ao piano com Chopin. Sereno. O Ribatejo fora da classificação nacional, mas a nova Passagem da Lezíria a unir-nos as margens. Atravesso-me. Descalço o betão e entro no rio em barco desbotado pelo tempo, incito os cães que me seguem a nado sabendo da corrente as manhas. Risco as águas frescas e limpas da memória com as mãos que tive. Encontro-me.

quinta-feira, julho 05, 2007


Estico com o olhar o lençol escuro que percorre a planície. Da janela aberta de mim para o mundo, hoje cheira a Verão . Na borda d'água coaxam batráquios lançando no ar o retinido cheiro a lamaçais quentes. O bordo alaranjado do horizonte entre pinceladas de azul e salpicos de luzes promete manhã luminosa e tecidos leves entrelaçando os corpos na vida. Sinto uma leveza curtida no ar morno que me invade e a brisa sai de mim em lufadas de vapor sereno.

Ponho o "cavalo" no estábulo e ajeito-lhe ração de ânimo. Amanhã recomeçamos. Agora é tempo de sentir.

quarta-feira, julho 04, 2007



Obrigada Xantipa!


Tenho andado tão arredada da blogosfera que só agora reparei que tinha um prémio! A Senhora Sócrates atribuiu a este modesto blog um molho de grelos que sinto alguma relutância em aceitar, pela invisibilidade a que me remeti, ultimamente. Do gosto pela escrita não me safo é verdade e que ela me tem acompanhado no meu dia a dia também. Só que noutras andanças que da escola não são alheias. Há quase duas semanas que vi as minhas crianças dizerem-me adeus entre abraços e sorrisos e promessas de saudades já sentidas e, no entanto, presencio as minhas tarefas a grelarem no tempo, numa desdobra de mim que tem sido difícil de gerir. Coisas de professora "quase" titular, sobre quem recaem cargos e mais cargos que se abraçam na responsabilidade e dela se alimentam.
Cuido da horta como posso e dos vegetais perfilho o paladar, excepção feita aos ditos humanos que me enfadam na ausência de fotossíntese cerebral.
Pois, está entregue o ramalhete dos grelos e, agora tenho de nomear cinco mulheres, com blogues não colectivos, ( vai ser difícil, porque já estão quase todas aqui da lista ao lado servidas... meritoriamente) e enviar para o blogue com grelos.

Encaminho o prémio para: Once in a while, Serendipity, Fábulas, Estes Momentos e Leonoreta.


«O Prémio "Blogue com grelos" premeia mulheres que, na sua escrita, para além de mostrarem uma preocupação pelo mundo à sua volta, ainda conseguem dar um pouco de si, dos seus sentires e com isso tornar mais leve a vida dos outros. Mulheres, mães, profissionais que espalham a palavra de uma forma emotiva e cativante. Que nos falam da guerra mas também do amor. A escrita no feminino, em toda a net lusófona tem que ser distinguida»