reflexos de vida no silêncio espelhado da água. fragas de vidro em descontinuidades do olhar ...

quarta-feira, março 05, 2008




trago ao peito um ramo de beijos que apanhei agora ali naquela esquina de vento. vou semeá-los no rosto de quem me olha de longe ou quem me espreita de perto. saibam que na minha ausência há sempre um beijo guardado aqui dentro da gaveta e que salta confortado para um sorriso rasgado ou para uns olhos de moleque que não receberam ainda o carinho por gorjeta. que o mundo no corre-corre se esquece de dar um beijo ou um abraço de irmão parece já coisa batida, mas que mal faz um beijinho dado com tanto carinho para agradecer a visita?




quinta-feira, fevereiro 28, 2008



foges na rua estreita onde caminhas. procuras saídas a cada esquina lúbrica. soltas as asas perras de medo no beco onde te escondes. voo circular na altitude do chão barrento. perpetuas a desdita no desassossego que investe contra ti desconhecendo que é de ti que renasce a cada mão estendida de sol. serenas só. no tormento fungam-se as costas vulcânicas das garras. sente-se o querer no não saber o quê e pernoitas na soleira da porta caída de vagas ininterruptas de desordem. pressentes o perigo na proximidade e aprisionas no escuro o lado brilhante. como se o brilho fosse vergonha. como se os olhos fossem pecados e o coração órgão infesto. aprendes do braille os sinais de fogo e fúria. em acto desumano cegas-te.



sábado, fevereiro 23, 2008






há uma cidade que amanhece para a vida. os olhos cruzam-se em bons dias de sorrisos. a chuva chama impaciente as almas para a dança. dinamene sobrevoa o coração dos poetas e as epopeias repetem-se em novidades lusíadas. nas grutas forradas de amor e palavras crescem lentamente estalactites de calor. o eco soa finalmente lavado dos timbres de rasgos metálicos .

sábado, fevereiro 16, 2008


Não me lembro de ter escrito


Chegam as horas mortas

gastas nos olhos de areia

que varro no lento varejar dos cílios

Seguro a cabeça

do tempo

pensando acarinhá-lo

um pouco

tirá-lo da vazante

Jazem as horas

num avesso de quem precisa de tempo

para respirar

ao anoitecer

Liberto-me de cordas

de limos

penetro no sono líquido das noites

silenciadas

por dias de chumbo.



domingo, fevereiro 10, 2008


Eis-me


Tendo-me despido de todos os meus mantos

Tendo-me separado de adivinhos mágicos e deuses

Para ficar sozinha ante o silêncio

Ante o silêncio e o esplendor da tua face

Mas tu és de todos os ausentes o ausente

Nem o teu ombro me apoia nem a tua mão me toca

O meu coração desce as escadas do tempo em que não moras

E o teu encontro

São planícies e planícies de silêncio

Escura é a noite

Escura e transparente

Mas o teu rosto está para além do tempo opaco

E eu não habito os jardins do teu silêncio

Porque tu és de todos os ausentes o ausente




Sophia de Mello Breyner Andresen

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

Os gatos imperfeitos que vou pintando vão sendo distribuídos pelos amigos. Porque da blogosfera saltam amizades verdadeiras que acolhemos com abraços, aqui ficam estes dois a simbolizar o "enrosca-te a mim" que deixei no Porto. Reforço de carinho, numa tarde linda para visitar amigos de quem se gosta muito, mas que a distância impede, fazendo do telefone e meio perfeito para matar as saudades logo pela manhã.

terça-feira, fevereiro 05, 2008

segunda-feira, fevereiro 04, 2008



compraram a máscara para fantasiar o país da chuva melodramática de acontecimentos. mas há muito que todos andavam mascarados. nasceram com ela os cabeçudos, num entrudo extemporâneo de frenesim arrogante, prolongando de insónias e enterros do galo, os populares. escapam aos três dias de direito e, entram a eito, ano fora, tapando as fachadas sombrias, as fuças de asno, com a lusitana complacência por assistência.



sexta-feira, fevereiro 01, 2008



efe...mero

afago o fogo da fogueira afogada no frasco de favo-fel que folheio em forma de folha sem frente só verso. fali na fala do fado-fadango que festejava fervente a ferida com ferrolho férreo de fictícia figura flexível do ser. fluorescência de fogacho fugitivo como foguetão fugaz de fundação fundamentalista em busca de furo frutífero de saída. furacão forjado em fórmula-foral sem fonema na fonte onde forasteira força fustiga o formato fendido de vontade. filamento filantropo fiado na filosofia filtrada sem fito. ferocidade de feitiço.









segunda-feira, janeiro 28, 2008




A fonte permanece lá atrás. A memória da criança livre, nas tardes serenas dos primeiros dias, de Inverno despidas, leva-me lá. O charco das águas límpidas e perfumadas pelas roseiras de Stª Teserinha, o aroma fresco dos musgos que bordejavam as margens, misturado com a lavada aragem de eucaliptos e de pinheiros sobranceiros, permanece intacto na brisa das tardes longínquas. Procuro a eira onde pousavam os malhos nas palhas secas esperando as mãos calosas do dono para castigar as leguminosas mães-grávidas de alimento das pessoas simples. Parto dorido de esforço, renascido em sopas suculentas para estômagos cansados dos amargos do dia.


Enxurradas rasgaram o pequeno planalto, sem eira nem beira, num reviralho de terras sem firmeza no andar. As copas esguias das árvores-perfume desapareceram no tempo dos saldos, pela natureza desumana das mãos sem olhos no sentir. Os silvos dos pássaros ecoam, no profundo vale de planície, sem a beleza da restolhada nos ramos esculpidos de abraços ao azul primaveril do céu.

Da fonte, nem um caco permanece para testemunhar passagem pela vida das mulheres e crianças que ali lavavam e brincavam a meias, num corar de água e sabão e roupa com corpos estendida nas ervas.

Só a poça lamacenta que escorre sangrenta de barro, ajunta e incorpora imagens de ontem. Ainda ontem foi dia de trazer da fonte a barriga saciada de água fresca, bebida na palma da mão, e rama de eucalipto de um verde fino e translúcido para pôr na jarra que me enfeitava a noite de cheiros. Fui ver. A fonte permanece lá atrás.



domingo, janeiro 27, 2008









saio do mar no momento exacto em que sinto a onda a formar avalanche de maremoto. o recuo das águas dão o sinal de alarme e contrario a corrente num esforço de andamento forçado pela escolha. encravam-se os pés na maré subitamente vaza e todos os cascalhos da terra-chão se revoltam no impedimento da jornada. bátegas de seixos sem dono se enredam em torno das pernas molusco. cabos de energia sugam-me as forças num retorno à origem placêntica das águas profundas, onde o sono é tranquilo. sem retorno. sem contemplações, prometo vestir o sal de oposto e anular em contra-corrente a catástrofe eminente na saída.



sábado, janeiro 26, 2008








despojo-me entre as horas do dia do silêncio da noite. o sol veio aquecer o corpo permeável à brisa fina e cortante que trespassa a pele e esquina os ossos de hérnias. viajo para longe por atalhos que perderam a memória viva. percorro sem gps os recantos escusos das rotundas. retorno ao ponto de partida para de novo encetar caminho. desbravo os sulcos onde a água teima em escorrer caudais de estrada antiga. leito sumido no mapa de escala reduzida pelo estar tão perto o que se ausenta. desmedida articulação de gestos calados por espelhos côncavos. circuncisão da boca no porto das assimetrias. proporções irregulares pernoitam no corpo da geometria e minam as formas em raios de som inventados no sonho que rasga a pleura do pensamento.





terça-feira, janeiro 22, 2008




perdi da boca a palavra certa que jorra num coração tresloucado. a corrente sanguínea leva-a a banhos na central cerebrosa e ela sai de lá inundada da razão caprichosa de ser pura, justa, como se a emoção a enxovalhasse de hífens segmentares da verdade. sei do todo que nos une num córtex amulatado de vertentes. reajo como se na postura, a ética fosse a disciplina nuclear só de uma das parceiras. da emotividade retiro o grau e acrescento a água da vida num pré-juízo das acumulações que evidenciam o concluído. benzo o olhar às coisas que se fizeram sujeito e dilato a mesura da racionalidade, numa objectividade serena de saber quanto custa ser ar e terra e sol e lua dentro de um nicho de carne.

domingo, janeiro 20, 2008




bordei com luz o horizonte. tirei da gaveta o azul alvo de mar. o cinzento da neblina do sítio ficou subitamente nos olhos da criança lá atrás. janeiro de sementes adormecidas ressurgiu nas altas vagas da memória. a pedra absorveu a boémia da tristeza e atirei-a para longe onde repousará no leito do tempo sem fundo. esperei o pôr-do-sol, mas era domingo, e o sol ao entardecer resolveu meter-se em casa pela porta dos fundos. pintou de rubro pálido um traço na trave da porta de entrada para assinalar o futuro feito hoje. os olhos de calda saíram dos favos e prenhes de mãos prenderam as vozes nos estendais de peito raso. malvasia escorreu no tampo da mesa. a seiva imaculada da tinta uva sorveu-se com a língua até à última gota do dia.




sábado, janeiro 12, 2008


O cacto vivia ali há muitos séculos. Tantos que perdeu as horas da estória entre iberos e ocidentais globalizados, numa multiculturalidade sem nexo. Era pequeno e de um verde fresco e translúcido como a transparência das almas perdidas e achadas entre portais de eternidade. De quando em vez, renasciam-lhe flores minúsculas e cintilantes como sonhos de sol. Não havia estações que as trouxessem ou murchassem. Eram espontâneas como a luz de cada dia. Esperadas. Quando as neblinas ausentassem dos céus baixos como tectos sem casa. Orlas de deserto serviam-lhe de sítio, ao sul do rio que divide ao meio a civilização. Passavam as gentes indiferentes ou não à sua presença e demoravam-se em acampamentos de vida que o incluíam nas auroras boreais dos dias e nos festins carnavalescos do negrume da sombra sem dono.

Uns tiravam-lhe as flores e enfeitavam corações de egos produtivos de searas, outros empurravam-lhe os picos inofensivos de dor alheia e cravavam-nos na carne sangrada de seiva gritada de rubro.

Certos dias, sentia o corpo diminuto alargar-se em enxurradas de dor e, nos músculos fibrosos, crescerem-lhe quistos de liberdade sem comas. Transpirava por cílios agrestes rasgados na pele o suor das veias e, na retina dos olhos, esculpiam-se rugas que se escoavam na pele como gotas de neve gelada coada pelo sol. Eram as raízes a perderem a humidade da certeza de estar, embora oásis longínquos desaguassem em estuários de alquevas na sua boca entupida de palavras sem língua, de língua sem saliva, de céu sem palato. Sabia-lhe a mel de cicuta a bebida sorvida em cálice silencioso forjado na areia do corpo onde permanecia. Os olhos fechados de testas franzidas por prensas, reflectiam a luz do trovão apagada em raio invertido num buraco negro.

Pegou nos sapatos das raízes e gastou as solas no couro das dunas escaldantes de desertos-jamais e em sarkosys sem medo cumpriu o Dakar.

sexta-feira, janeiro 04, 2008



Bernardo Santareno...nos túneis da Liberdade


VETO TEATRO OFICINA


Círculo Cultural Scalabitano/Teatro Taborda
Santarém

Janeiro: 11, 18, 25

às 21.30horas


Bernardo Santareno... nos túneis da Liberdade, é uma narrativa dramática que procura revelar a vida do escritor.O espectáculo é construído a partir de testemunhos, da correspondência pessoal e de textos dramáticos do autor.Espectáculo estreado em Novembro último, tem sido considerado uma das melhores produções do Veto.


Preço: 5€


Círculo Cultural Scalabitado



Rua Maestro Luís Silveira nº 4, 2000-117 Santarém, PORTUGAL - Telef.: (+) 351 243 321 150

quinta-feira, janeiro 03, 2008

segunda-feira, dezembro 31, 2007

sexta-feira, dezembro 28, 2007





A Sereia das Pernas Tortas (bem podia ser um conto de Natal)

Era uma vez uma mulher que tão depressa era feia como era bonita, as pessoas diziam-lhe:
- Eu amo-te.
E iam com ela para a cama e para a mesa.
Quando era feia, as mesmas pessoas diziam-lhe:
- Não gosto de ti.
E atiravam-lhe com caroços de azeitona à cabeça.
A mulher pediu a Deus:
- Faz-me bonita ou feia de uma vez por todas e para
sempre.
Então Deus fê-la feia.
A mulher chorou muito porque estava sempre a apanhar
com caroços de azeitona e a ouvir coisas feias. Só os animais
gostavam sempre dela, tanto quando era bonita como quando
era feia como agora que era sempre feia. Mas o amor dos animais
não lhe chegava. Por isso deitou-se a um poço. No poço,
estava um peixe que comeu a mulher de um trago só, sem a
mastigar.
Logo a seguir, passou pelo poço o criado do rei, que
pescou o peixe.
Na cozinha do palácio, as criadas, a arranjarem o peixe,
descobriram a mulher dentro do peixe. Como o peixe comeu a
mulher mal a mulher se matou e o criado pescou o peixe mal o
peixe comeu a mulher e as criadas abriram o peixe mal o peixe
foi pescado pelo criado, a mulher não morreu e o peixe
morreu.
As criadas e o rei eram muito bonitos. E a mulher ali era
tão feia que não era feia. Por isso, quando as criadas foram
chamar o rei e o rei entrou na cozinha e viu a mulher, o rei
apaixonou-se pela mulher.
- Será uma sereia ? – perguntaram em coro as criadas ao
rei.
- Não, não é uma sereia porque tem duas pernas, muito
tortas, uma mais curta do que a outra – respondeu o rei às
criadas.
E o rei convidou a mulher para jantar.
Ao jantar, o rei e a mulher comeram o peixe. O rei disse à
mulher quando as criadas se foram embora:
- Eu amo-te.
Quando o rei disse isto, sorriu à mulher e atirou-lhe com
uma azeitona inteira à cabeça. A mulher apanhou a azeitona e
comeu-a. Mas, antes de comer a azeitona, a mulher disse ao rei:
- Eu amo-te.
Depois comeu a azeitona. E casaram-se logo a seguir no
tapete de Arraiolos da casa de jantar.
Adília Lopes

sábado, dezembro 22, 2007


Gostemos ou não do Natal, tenha ele o significado religioso, dos valores familiares, da amizade, seja ele uma carteira cheia de nada e o coração de coisa nenhuma, seja ele o que for, nesta época de excessos indignificantes, é sempre um tempo de pausa, de balanço, de morte de passados e de renascimento.

Nas luzes do silêncio de cada um, está presente o desejo que o novo solstício se alargue em esperança, em continuidade, em ruptura, em aceitação das mudanças inevitáveis a cada esquina deste presépio onde nascemos, nus, aquecidos por bafos de palha no estábulo ínfimo daquilo que somos. Grãos de areia nas mãos dum vento senhor do tempo que nos varre independentemente da nossa vontade de agregação.

Tempo de afectos dispersos na corrida dos dias onde se perde a verdade da criação do humano. Congrega-se a solidariedade, num ramalhete de dias que perdem as pétalas, o cheiro e a cor com o passar desta data que nos santifica a todos como epidemia inócua e vazia de amor tantas vezes. Datas...simbolismos...num até para o ano que agora vou ali.

Semeemos abraços e motivações para o resto do ano, plantemos sem pressa, salvemos a amizade de esteiras quebradiças de memória.

Que o sorriso me nasça quando o vejo esbanjado em embrulhos, que ele pontifique os meus dias, porque em todos eles há uma criança que nasce!

Que a natalidade vos visite em cada dia, agora e sempre. Ámen!

Escritos de uma ateia.