reflexos de vida no silêncio espelhado da água. fragas de vidro em descontinuidades do olhar ...

domingo, janeiro 27, 2008









saio do mar no momento exacto em que sinto a onda a formar avalanche de maremoto. o recuo das águas dão o sinal de alarme e contrario a corrente num esforço de andamento forçado pela escolha. encravam-se os pés na maré subitamente vaza e todos os cascalhos da terra-chão se revoltam no impedimento da jornada. bátegas de seixos sem dono se enredam em torno das pernas molusco. cabos de energia sugam-me as forças num retorno à origem placêntica das águas profundas, onde o sono é tranquilo. sem retorno. sem contemplações, prometo vestir o sal de oposto e anular em contra-corrente a catástrofe eminente na saída.



sábado, janeiro 26, 2008








despojo-me entre as horas do dia do silêncio da noite. o sol veio aquecer o corpo permeável à brisa fina e cortante que trespassa a pele e esquina os ossos de hérnias. viajo para longe por atalhos que perderam a memória viva. percorro sem gps os recantos escusos das rotundas. retorno ao ponto de partida para de novo encetar caminho. desbravo os sulcos onde a água teima em escorrer caudais de estrada antiga. leito sumido no mapa de escala reduzida pelo estar tão perto o que se ausenta. desmedida articulação de gestos calados por espelhos côncavos. circuncisão da boca no porto das assimetrias. proporções irregulares pernoitam no corpo da geometria e minam as formas em raios de som inventados no sonho que rasga a pleura do pensamento.





terça-feira, janeiro 22, 2008




perdi da boca a palavra certa que jorra num coração tresloucado. a corrente sanguínea leva-a a banhos na central cerebrosa e ela sai de lá inundada da razão caprichosa de ser pura, justa, como se a emoção a enxovalhasse de hífens segmentares da verdade. sei do todo que nos une num córtex amulatado de vertentes. reajo como se na postura, a ética fosse a disciplina nuclear só de uma das parceiras. da emotividade retiro o grau e acrescento a água da vida num pré-juízo das acumulações que evidenciam o concluído. benzo o olhar às coisas que se fizeram sujeito e dilato a mesura da racionalidade, numa objectividade serena de saber quanto custa ser ar e terra e sol e lua dentro de um nicho de carne.

domingo, janeiro 20, 2008




bordei com luz o horizonte. tirei da gaveta o azul alvo de mar. o cinzento da neblina do sítio ficou subitamente nos olhos da criança lá atrás. janeiro de sementes adormecidas ressurgiu nas altas vagas da memória. a pedra absorveu a boémia da tristeza e atirei-a para longe onde repousará no leito do tempo sem fundo. esperei o pôr-do-sol, mas era domingo, e o sol ao entardecer resolveu meter-se em casa pela porta dos fundos. pintou de rubro pálido um traço na trave da porta de entrada para assinalar o futuro feito hoje. os olhos de calda saíram dos favos e prenhes de mãos prenderam as vozes nos estendais de peito raso. malvasia escorreu no tampo da mesa. a seiva imaculada da tinta uva sorveu-se com a língua até à última gota do dia.




sábado, janeiro 12, 2008


O cacto vivia ali há muitos séculos. Tantos que perdeu as horas da estória entre iberos e ocidentais globalizados, numa multiculturalidade sem nexo. Era pequeno e de um verde fresco e translúcido como a transparência das almas perdidas e achadas entre portais de eternidade. De quando em vez, renasciam-lhe flores minúsculas e cintilantes como sonhos de sol. Não havia estações que as trouxessem ou murchassem. Eram espontâneas como a luz de cada dia. Esperadas. Quando as neblinas ausentassem dos céus baixos como tectos sem casa. Orlas de deserto serviam-lhe de sítio, ao sul do rio que divide ao meio a civilização. Passavam as gentes indiferentes ou não à sua presença e demoravam-se em acampamentos de vida que o incluíam nas auroras boreais dos dias e nos festins carnavalescos do negrume da sombra sem dono.

Uns tiravam-lhe as flores e enfeitavam corações de egos produtivos de searas, outros empurravam-lhe os picos inofensivos de dor alheia e cravavam-nos na carne sangrada de seiva gritada de rubro.

Certos dias, sentia o corpo diminuto alargar-se em enxurradas de dor e, nos músculos fibrosos, crescerem-lhe quistos de liberdade sem comas. Transpirava por cílios agrestes rasgados na pele o suor das veias e, na retina dos olhos, esculpiam-se rugas que se escoavam na pele como gotas de neve gelada coada pelo sol. Eram as raízes a perderem a humidade da certeza de estar, embora oásis longínquos desaguassem em estuários de alquevas na sua boca entupida de palavras sem língua, de língua sem saliva, de céu sem palato. Sabia-lhe a mel de cicuta a bebida sorvida em cálice silencioso forjado na areia do corpo onde permanecia. Os olhos fechados de testas franzidas por prensas, reflectiam a luz do trovão apagada em raio invertido num buraco negro.

Pegou nos sapatos das raízes e gastou as solas no couro das dunas escaldantes de desertos-jamais e em sarkosys sem medo cumpriu o Dakar.

sexta-feira, janeiro 04, 2008



Bernardo Santareno...nos túneis da Liberdade


VETO TEATRO OFICINA


Círculo Cultural Scalabitano/Teatro Taborda
Santarém

Janeiro: 11, 18, 25

às 21.30horas


Bernardo Santareno... nos túneis da Liberdade, é uma narrativa dramática que procura revelar a vida do escritor.O espectáculo é construído a partir de testemunhos, da correspondência pessoal e de textos dramáticos do autor.Espectáculo estreado em Novembro último, tem sido considerado uma das melhores produções do Veto.


Preço: 5€


Círculo Cultural Scalabitado



Rua Maestro Luís Silveira nº 4, 2000-117 Santarém, PORTUGAL - Telef.: (+) 351 243 321 150

quinta-feira, janeiro 03, 2008

segunda-feira, dezembro 31, 2007

sexta-feira, dezembro 28, 2007





A Sereia das Pernas Tortas (bem podia ser um conto de Natal)

Era uma vez uma mulher que tão depressa era feia como era bonita, as pessoas diziam-lhe:
- Eu amo-te.
E iam com ela para a cama e para a mesa.
Quando era feia, as mesmas pessoas diziam-lhe:
- Não gosto de ti.
E atiravam-lhe com caroços de azeitona à cabeça.
A mulher pediu a Deus:
- Faz-me bonita ou feia de uma vez por todas e para
sempre.
Então Deus fê-la feia.
A mulher chorou muito porque estava sempre a apanhar
com caroços de azeitona e a ouvir coisas feias. Só os animais
gostavam sempre dela, tanto quando era bonita como quando
era feia como agora que era sempre feia. Mas o amor dos animais
não lhe chegava. Por isso deitou-se a um poço. No poço,
estava um peixe que comeu a mulher de um trago só, sem a
mastigar.
Logo a seguir, passou pelo poço o criado do rei, que
pescou o peixe.
Na cozinha do palácio, as criadas, a arranjarem o peixe,
descobriram a mulher dentro do peixe. Como o peixe comeu a
mulher mal a mulher se matou e o criado pescou o peixe mal o
peixe comeu a mulher e as criadas abriram o peixe mal o peixe
foi pescado pelo criado, a mulher não morreu e o peixe
morreu.
As criadas e o rei eram muito bonitos. E a mulher ali era
tão feia que não era feia. Por isso, quando as criadas foram
chamar o rei e o rei entrou na cozinha e viu a mulher, o rei
apaixonou-se pela mulher.
- Será uma sereia ? – perguntaram em coro as criadas ao
rei.
- Não, não é uma sereia porque tem duas pernas, muito
tortas, uma mais curta do que a outra – respondeu o rei às
criadas.
E o rei convidou a mulher para jantar.
Ao jantar, o rei e a mulher comeram o peixe. O rei disse à
mulher quando as criadas se foram embora:
- Eu amo-te.
Quando o rei disse isto, sorriu à mulher e atirou-lhe com
uma azeitona inteira à cabeça. A mulher apanhou a azeitona e
comeu-a. Mas, antes de comer a azeitona, a mulher disse ao rei:
- Eu amo-te.
Depois comeu a azeitona. E casaram-se logo a seguir no
tapete de Arraiolos da casa de jantar.
Adília Lopes

sábado, dezembro 22, 2007


Gostemos ou não do Natal, tenha ele o significado religioso, dos valores familiares, da amizade, seja ele uma carteira cheia de nada e o coração de coisa nenhuma, seja ele o que for, nesta época de excessos indignificantes, é sempre um tempo de pausa, de balanço, de morte de passados e de renascimento.

Nas luzes do silêncio de cada um, está presente o desejo que o novo solstício se alargue em esperança, em continuidade, em ruptura, em aceitação das mudanças inevitáveis a cada esquina deste presépio onde nascemos, nus, aquecidos por bafos de palha no estábulo ínfimo daquilo que somos. Grãos de areia nas mãos dum vento senhor do tempo que nos varre independentemente da nossa vontade de agregação.

Tempo de afectos dispersos na corrida dos dias onde se perde a verdade da criação do humano. Congrega-se a solidariedade, num ramalhete de dias que perdem as pétalas, o cheiro e a cor com o passar desta data que nos santifica a todos como epidemia inócua e vazia de amor tantas vezes. Datas...simbolismos...num até para o ano que agora vou ali.

Semeemos abraços e motivações para o resto do ano, plantemos sem pressa, salvemos a amizade de esteiras quebradiças de memória.

Que o sorriso me nasça quando o vejo esbanjado em embrulhos, que ele pontifique os meus dias, porque em todos eles há uma criança que nasce!

Que a natalidade vos visite em cada dia, agora e sempre. Ámen!

Escritos de uma ateia.

domingo, dezembro 09, 2007



Ciclo de vida



como um regato de pedras roladas pelos séculos de águas erosivas, vou na corrente fraca. persistente procuro o leito escorreito de artérias livres onde aumento a velocidade do sangue. lavo os musgos lamacentos das arestas por limar e irrigo o peito da terra árida numa dádiva de rega num gota-a-gota de promessas evolutivas. De quando em vez refresco-me em poças profundas de oxigénio. brinco, salpico, mergulho e perduro os segundos que fazem estremecer a eternidade . na hora da emergência, no turbilhão da corrente inesperada, olho o achado perdido e agarro-me às margens com sentido de toca. delibero percorrer todo o ciclo de água para ali voltar. segura de garras e armada de redes férteis de emalhamento sugado no mar do alento. cristalizar o tempo para poder nadar num ninho de carícias ternas de algas e pernoitar nos rochedos sem portas. labirinto sólido na construção dum formigueiro nutrido de vida exalando contornos maduros de escolha.

quinta-feira, dezembro 06, 2007


Afogo imperceptível

ouço a tosse cansada e rouca do tempo, vejo as rugas cruzadas nos corpos, percorro os templos da idade sem misericórdia e oblitero-me de viver, pela metade. rasgo as palavras que saem em desordem e afogo as sementes de pensamento geminado. salvo da tempestade os haveres preciosos em sacos de linho branco e enterro no estrume o puído metal que me ofusca o brilho. solto-me do tempo como folha caída e vagueio ao sabor do vento até encontrar a humidade que me transforme em seiva, alimento e vida. adormeço inerte em lençóis de frio e permaneço na opacidade do tempo esperando um raio de luz que me acorde.

quarta-feira, dezembro 05, 2007


Vertigem dos dias


Deambulo na vertigem dos dias. Cruzam-se as linhas das vidas que se misturam na minha num caldo de letrinhas e palavras com prazo marcado por ausências sentidas e queixumes soltos por ubiquidades devoradoras do meu tempo. Semeio o fruto da minha rotina nas gesticuladas dívidas da minha consciência. Linha de montagem imparável. Absorvo os devotos lavores como um doce estaladiço desagregando-se copiosamente nas mãos líquidas de ternura gulosa. Balanço. Procuro o equilíbrio no descanso do cansaço. Entre o sorriso e a calma. Bloqueios breves de pestanas suspiradas purificam-me a impaciência da espera resiliente na casa do tempo que cozinho em lume brando. Do naco sumarento que me anima e sustenta aqueço-me do frio. No calor do vidro cozido, duro e frágil, perscruto nas janelas transparentes a fuga à opacidade das muralhas num domínio perecedor de visão longínqua, por ser urgente o encargo . Almejo a serra para a caminhada sem tempo marcado e visto-me de força no peito com relevos sólidos para "A escalada do monte improvável" .





terça-feira, dezembro 04, 2007

Deixaste a almofada em casa...

Saías da cama com frio de aconchego, trazias a almofada preenchida de pura lã que desfiavas num rosário de dedos e um "côló" que se arrastava pelo chão como uma sombra de luz. Vinhas no calor da ternura perceber a cama grande onde cabíamos todos. Acordávamos perto do sonho expresso na tua cara de menina serena.
Hoje encontraste-me sozinha no colchão quente- frio da tua ida. Debaixo do braço, a almofada única de algodão e lã que se preservou ao longo da tua vida, menina-mulher. Enlaçámo-nos como nas noites de pesadelos, desta vez tendo presente o sonho do teu futuro.
À porta, as malas da vida mudada para longe, no peito, as portas de esperança que escancarás sobre o Douro numa paisagem que adoras, no coração da mãe, a alegria e o orgulho da rapidez com que conseguiste o teu primeiro cargo sério no mundo do trabalho. Fintaste o desemprego, depois de um estágio de Verão, mesmo antes de liberta da vida académica. Fecham-se em abraços de força e de ternura os corpos que ficam na lezíria que te viu crescer e abrem-se as vontades para um novo voo de independência e sucesso.
Emoção contraditória de perda e de plenitude! Regozijo e melancolia das metamorfoses que soubeste criar na seda da tua existência. Soltei-te há muito no mundo largo, mas parece que foi ontem que te tive pela primeira vez nos braços. Que sejas feliz na tua escolha de engenharia de vida!

segunda-feira, dezembro 03, 2007


Deserto de palavras

ando com as palavras debaixo da língua atadas em molhos. encho as bochechas com os seus sons mudos e elas na libertação desejada percorrem-me da faringe às têmporas e em mergulho agreste dissolvem-se na saliva que a custo engulo arranhando-me as cordas vocais sem piedade. putas das palavras que não se aninham no quente quimo nem se perdem nas flátulas entranhas de recolhimento. durmam que a noite é longa agora. restaurem-se do afogo e protejam-se do frio que se levanta quando adormece o dia. dêem ao sono a possibilidade de paz e possuam num coito tântrico a mensagem com a força grávida do renascer. um dia. como novas e ávidas de viver. meninas travessas que disfarçam líquidas os sentimentos escolhosos da nascente entupida. pedradas no charco fétido sem corrente. barragem abrupta da nascente à voz.






domingo, outubro 28, 2007




Aqui ficam memórias


Aproximam-se tempos sem tempo.


Agradeço a todos os que por aqui passaram, os momentos, os comentários, os abraços em que me envolveram. Não me vou despedir, pois continuarei a visitá-los sempre que possa.
Talvez volte um dia... deixarei a porta aberta. Desço as escadas com a consciência que deixo as palavras escritas, embrulhadas num manto de solidão. Talvez elas entendam que neste abandono há um presente a necessitar mais de mim.

terça-feira, outubro 23, 2007







lavo-me do dia com a água benta da noite que recolho em imaculada porcelana. hidrato a pele em elipses perfeitas com luas verdes de creme. massajo as plantas enraizadas no corpo com a seiva transparente das palavras. regenero os tecidos com fibras de luz e procuro o segredo da vida na palma de um sorriso. sei da planície o horizonte imenso e do imenso a lonjura de mim. visto-me de seda em gargalhadas soltas e solto-me e deslaço ante o sorriso expectante de um abraço. liberdade. conjuro comigo os momentos futuros e plano na frequência que me aquece a esperança. rejeito a lado escuro do sol e pernoito no algodão em rama em que envolvo a doce maresia do manto branco que nos cobre nesta noite perenemente falsa.



sexta-feira, outubro 19, 2007


um dia perdeu a cabeça da sombra. vazia de cabeça a sombra perseguia-a sem pensar.ora uma sombra que não pensa não interessa a ninguém. arreliou-se. seria que já nem a sua sombra estava interessada nela. ordenou-lhe que saísse da barriga. sabia-a escondida em algum lugar. era urgente a reposição da ordem. a perspectiva sol-sombra tinha-se invertido e circulava à sua volta como ponteiro maluco. cruzou os braços e esperou que passasse tal birra. não passou. pegou numa tesoura e cortou cerce a sombra toda. hoje vive sem sombras que a atormentem.

quarta-feira, outubro 17, 2007


é meia-noite. zune o silêncio numa melodia distante do sono. os mistérios repousam nas fragas iluminadas pela lua. escondidos os homens moram despidos do sonho e pouco sabem do rasto das estrelas cadentes. o firmamento semeado de bagas de luz serena o olhar da contemplação. o corpo incauto arrepia caminho na noite e recua nas portas entreabertas. rega-se o tempo de frio e serve-se em taças de aragem fresca. as sombras confusas dos templos relembram os sinos destruídos. os iluminados vestem-se em altares de festa. arrastam-se em fé na procura do desconhecido protector que amaina a tumba dos dias. outubro das ideologias perdidas. dos segredos guardados. inventados. construídos na crença à beira do naufrágio de alfabetos por traduzir.

terça-feira, outubro 16, 2007