reflexos de vida no silêncio espelhado da água. fragas de vidro em descontinuidades do olhar ...

quinta-feira, dezembro 06, 2007


Afogo imperceptível

ouço a tosse cansada e rouca do tempo, vejo as rugas cruzadas nos corpos, percorro os templos da idade sem misericórdia e oblitero-me de viver, pela metade. rasgo as palavras que saem em desordem e afogo as sementes de pensamento geminado. salvo da tempestade os haveres preciosos em sacos de linho branco e enterro no estrume o puído metal que me ofusca o brilho. solto-me do tempo como folha caída e vagueio ao sabor do vento até encontrar a humidade que me transforme em seiva, alimento e vida. adormeço inerte em lençóis de frio e permaneço na opacidade do tempo esperando um raio de luz que me acorde.

quarta-feira, dezembro 05, 2007


Vertigem dos dias


Deambulo na vertigem dos dias. Cruzam-se as linhas das vidas que se misturam na minha num caldo de letrinhas e palavras com prazo marcado por ausências sentidas e queixumes soltos por ubiquidades devoradoras do meu tempo. Semeio o fruto da minha rotina nas gesticuladas dívidas da minha consciência. Linha de montagem imparável. Absorvo os devotos lavores como um doce estaladiço desagregando-se copiosamente nas mãos líquidas de ternura gulosa. Balanço. Procuro o equilíbrio no descanso do cansaço. Entre o sorriso e a calma. Bloqueios breves de pestanas suspiradas purificam-me a impaciência da espera resiliente na casa do tempo que cozinho em lume brando. Do naco sumarento que me anima e sustenta aqueço-me do frio. No calor do vidro cozido, duro e frágil, perscruto nas janelas transparentes a fuga à opacidade das muralhas num domínio perecedor de visão longínqua, por ser urgente o encargo . Almejo a serra para a caminhada sem tempo marcado e visto-me de força no peito com relevos sólidos para "A escalada do monte improvável" .





terça-feira, dezembro 04, 2007

Deixaste a almofada em casa...

Saías da cama com frio de aconchego, trazias a almofada preenchida de pura lã que desfiavas num rosário de dedos e um "côló" que se arrastava pelo chão como uma sombra de luz. Vinhas no calor da ternura perceber a cama grande onde cabíamos todos. Acordávamos perto do sonho expresso na tua cara de menina serena.
Hoje encontraste-me sozinha no colchão quente- frio da tua ida. Debaixo do braço, a almofada única de algodão e lã que se preservou ao longo da tua vida, menina-mulher. Enlaçámo-nos como nas noites de pesadelos, desta vez tendo presente o sonho do teu futuro.
À porta, as malas da vida mudada para longe, no peito, as portas de esperança que escancarás sobre o Douro numa paisagem que adoras, no coração da mãe, a alegria e o orgulho da rapidez com que conseguiste o teu primeiro cargo sério no mundo do trabalho. Fintaste o desemprego, depois de um estágio de Verão, mesmo antes de liberta da vida académica. Fecham-se em abraços de força e de ternura os corpos que ficam na lezíria que te viu crescer e abrem-se as vontades para um novo voo de independência e sucesso.
Emoção contraditória de perda e de plenitude! Regozijo e melancolia das metamorfoses que soubeste criar na seda da tua existência. Soltei-te há muito no mundo largo, mas parece que foi ontem que te tive pela primeira vez nos braços. Que sejas feliz na tua escolha de engenharia de vida!

segunda-feira, dezembro 03, 2007


Deserto de palavras

ando com as palavras debaixo da língua atadas em molhos. encho as bochechas com os seus sons mudos e elas na libertação desejada percorrem-me da faringe às têmporas e em mergulho agreste dissolvem-se na saliva que a custo engulo arranhando-me as cordas vocais sem piedade. putas das palavras que não se aninham no quente quimo nem se perdem nas flátulas entranhas de recolhimento. durmam que a noite é longa agora. restaurem-se do afogo e protejam-se do frio que se levanta quando adormece o dia. dêem ao sono a possibilidade de paz e possuam num coito tântrico a mensagem com a força grávida do renascer. um dia. como novas e ávidas de viver. meninas travessas que disfarçam líquidas os sentimentos escolhosos da nascente entupida. pedradas no charco fétido sem corrente. barragem abrupta da nascente à voz.






domingo, outubro 28, 2007




Aqui ficam memórias


Aproximam-se tempos sem tempo.


Agradeço a todos os que por aqui passaram, os momentos, os comentários, os abraços em que me envolveram. Não me vou despedir, pois continuarei a visitá-los sempre que possa.
Talvez volte um dia... deixarei a porta aberta. Desço as escadas com a consciência que deixo as palavras escritas, embrulhadas num manto de solidão. Talvez elas entendam que neste abandono há um presente a necessitar mais de mim.

terça-feira, outubro 23, 2007







lavo-me do dia com a água benta da noite que recolho em imaculada porcelana. hidrato a pele em elipses perfeitas com luas verdes de creme. massajo as plantas enraizadas no corpo com a seiva transparente das palavras. regenero os tecidos com fibras de luz e procuro o segredo da vida na palma de um sorriso. sei da planície o horizonte imenso e do imenso a lonjura de mim. visto-me de seda em gargalhadas soltas e solto-me e deslaço ante o sorriso expectante de um abraço. liberdade. conjuro comigo os momentos futuros e plano na frequência que me aquece a esperança. rejeito a lado escuro do sol e pernoito no algodão em rama em que envolvo a doce maresia do manto branco que nos cobre nesta noite perenemente falsa.



sexta-feira, outubro 19, 2007


um dia perdeu a cabeça da sombra. vazia de cabeça a sombra perseguia-a sem pensar.ora uma sombra que não pensa não interessa a ninguém. arreliou-se. seria que já nem a sua sombra estava interessada nela. ordenou-lhe que saísse da barriga. sabia-a escondida em algum lugar. era urgente a reposição da ordem. a perspectiva sol-sombra tinha-se invertido e circulava à sua volta como ponteiro maluco. cruzou os braços e esperou que passasse tal birra. não passou. pegou numa tesoura e cortou cerce a sombra toda. hoje vive sem sombras que a atormentem.

quarta-feira, outubro 17, 2007


é meia-noite. zune o silêncio numa melodia distante do sono. os mistérios repousam nas fragas iluminadas pela lua. escondidos os homens moram despidos do sonho e pouco sabem do rasto das estrelas cadentes. o firmamento semeado de bagas de luz serena o olhar da contemplação. o corpo incauto arrepia caminho na noite e recua nas portas entreabertas. rega-se o tempo de frio e serve-se em taças de aragem fresca. as sombras confusas dos templos relembram os sinos destruídos. os iluminados vestem-se em altares de festa. arrastam-se em fé na procura do desconhecido protector que amaina a tumba dos dias. outubro das ideologias perdidas. dos segredos guardados. inventados. construídos na crença à beira do naufrágio de alfabetos por traduzir.

terça-feira, outubro 16, 2007

quinta-feira, outubro 11, 2007



tenho o cinzeiro cheio de trabalho ardido no corpo. tenho os ouvidos macerados de pós sonoros sem fonema que se identifique. tenho a saliva ácida da chuva gráfica das ideias. tenho o mercúrio na temperatura da febre solto no sangue. tenho as articulações laças da ferrugem cromada em metal cinzelado. tenho o peso do sono no canto da boca que se esconde na orelha. tenho a loucura certa para enfrentar a fera. tenho fera cá dentro para enfrentar a loucura. tenho anos que não sinto. sinto os anos que não tenho mas já tive. tenho saudades do futuro e de saber do passado que há-de ser o amanhã. tenho vida e morte e crime e castigo. tenho um carneiro selvagem para procurar no Japão. tenho kafka à cabeceira do amor. tenho medo do que conheço e desconheço o medo do que quero conhecer. tenho esperança na ternura e dela faço o meu dia vadio. sou inteiramente masculina numa feminilidade marcada. sou o sim , o não, o talvez com os pés no chão e a cabeça a metro e sessenta. quando baixa o nevoeiro sou bruma densa sem d. sebastião. quando o sol brilha sou campo de girassóis cercado por planície.


Sou tudo isto mais eu.

terça-feira, outubro 09, 2007



Um dia estava ela a ver passar navios quando de repente sentiu um arrepio na espinha. Devia ter trazido agasalho- pensou ela com os seus navios. Um marujo que a avistou com os cabelos arrepiados lançou-lhe a âncora e prendeu-lhe uma corda no cabelo em jeito de rabo de cavalo, indicando-lhe suavemente o caminho até à beira-rio. Despiu o blusão listado e cobriu-lhe os ombros nus que de galinha ganharam a pele. Na generosidade do acto ela agradeceu. Ele deu-lhe a mão e ela entrou na embarcação vazia. Percorreu numa dormência feliz distâncias que não sabia medir e outros entravam e faziam o passeio turístico com o marinheiro sempre no leme. Já noitinha quis sair daquela cena e pediu ao marujo para regressar que já estava tarde e este voltou-se para trás, bateu as asas e levantou voo com ela nas garras por um caminho de nuvens brancas e sóis transparentes e quentes e ela nunca mais teve frio. Só o cheiro do pinho lhe lembrava outros passeios dos quais não se recordava bem.




sábado, outubro 06, 2007



Foi grande o dia que começa a esconder-se cada vez mais cedo atrás daquele recorte cinzento com fios laranja tímidos que a copa das árvores tapa. Verdejando ainda, as folhas remoídas tombam cansadas das fortes bátegas e entregam-se aos convites do vento, para leve bailado de cores e de pranto.
Subo os paços do altar e encontro deitado o leão que me rende na guarda. A luz cerrada que envolve o anoitecer trouxe-lhe a lassidão do desalento talhado na espera e, escutada a voz que lhe afaga o ânimo, revolve-se na cama quente e, muito lentamente, como num despertar de amor, estica cada músculo, que solto relaxa finalmente para os afagos.Parece que aproveita a espreguiçadela para orar ao seu deus agradecendo o desejo pedido de o libertar de tão longa solidão diária. Poupada nunca, que a alegria de o ver é tanta que esbanjo ali a primeira dose de festas e mimos, seguida de biscoito suculento que o paladar canino aprova. Se a retirada acontece sem que sinta esquecidas as horas de ausência, interpela caminhos, barra entradas, reclama dona e ajeita modos de gato que lhe massagem a juba. Deixo-o lá fora como a um amor proibido e, platonicamente, pela janela das emoções trocamos olhares cúmplices e fazemos promessas de momentos.
Amacia-se a chegada desta maneira ritual e simples noite após noite. Gosto tanto do meu cão que acho que noutra encarnação fomos irmãos .
Deve ter sido por isso que no caminho para casa, apressada que vinha, ouvi aquela frase entrecortada pelo vento, reveladora de resquícios:
- Aúúúú! Até dá arrepios! Que balanço de cauda!

terça-feira, outubro 02, 2007

Ivan Lins - Lembra de Mim - Clip

Assim me despeço do Verão! Assobiando Ivan Lins, caminhando ao longo da represa, com as mãos nos bolsos do agasalho. Aconchego o corpo na tarde cinzenta e refresco-me do dia.

sábado, setembro 29, 2007

Cuidado com a moda Outono/Inverno

Por isto é que nunca ando com regador na mão!


Dentro do impossível, faço o possível por conseguir...às vezes não consigo!

quinta-feira, setembro 27, 2007



hoje li uma história esquecida na estante mais alta da mais velha biblioteca do mundo. Não importam as folhas arrancadas. as que permanecem intactas pediram-me que lhes sacudisse o pó. lhes lesse os sinais e lhes rasurasse as margens. em apontamentos soltos procurei significados em mim. reconstruo-a por dentro.

domingo, setembro 23, 2007


Vestiu-se de amor na despedida

Deitara-se tarde, preparando e ansiando o amanhã. Sabia de seu aquela tendência infantil de antecipar guloseima que lhe pintasse de azul o céu dos dias. Entrava na última semana de Agosto com a certeza que, daquele fim de Verão, lhe sobrariam dias de calma e isenção de cuidados. Novos horizontes lhe permitiriam restabelecer-se da afadigada vida que levava. Do cansaço tinha-lhe tomado o gosto por ser prazer o que lhe trazia existir, mas umas férias longe dos lugares costumeiros seriam uma ode ao prolongamento da mestria com que governava a vida.
Quando o telefone tocou para a despertar à hora marcada, já há muito se havia levantado. Na frescura da manhã, inesperadamente ventosa, sentiu pousarem-lhe as asas que a haviam de levar para destino paradisíaco onde o corpo se despediria do Verão. Partia só. Deixava para trás a certeza de um rompimento amoroso que prometia e descomprometia com uma imberbe e silenciosa indiferença. Não tinha paciência para arrastar situações de dependência mal resolvidas e tomara a dianteira no corte que a ligava àquele homem sem mote que a motivasse.
A viagem foi tranquila, com a descolagem deixava para trás o desencanto lavado com pingos de chuva que salpicavam caprichosos a aurora lisboeta. Linda a cidade!, melhor seria quando voltasse restabelecida e a apreciasse de outros ângulos, com olhos repousados na distância e emocionados no sabor do regresso.
Entre espreguiçadeiras e banhos quentes de areia e mar, sentiu a vida prenhe entrar-lhe nas veias com um vigor de quem sabe apreciar o que a natureza nos dá quando nos entregamos à lavagem centrífuga da alma. Olhava os outros com a sabedoria e a terna vertigem de saber amar.
Uma criança que vendia bugigangas na entrada da praia pediu-lhe sem falar que a acarinhasse. Baixou-se interessada no que ela fazia e pousou o olhar naquelas mãos pequenas que maquinalmente inventavam sobrevivência. Artesão da vida com saberes adicionados na necessidade. Sorriu. Lentamente ergueu o olhar e encontrou aqueles olhos enormes de um castanho amendoado pintalgados de solidão e carinho. Ficaram parados presos um ao outro num fio que se enrolava no peito. Era como se aquele olhar já fosse seu por ser conhecido. Abanou o pensamento e preparou-se para comprar uma daquelas peças tão belas quanto naifs. Mas a criança disse-lhe num tom de voz surpreendentemente calmo e maduro: Leva, foi feito para ti!Obrigado por observares o meu trabalho. Volta mais vezes, tens uns olhos tão doces e és tão bonita, que me atrais mais clientes.
Olhou em volta e percebeu que se encontrava rodeada de pessoas que como ela pegavam nas peças e se prendiam a elas como a amuletos. Ficou ali sem noção do tempo e, na entrega do presente, tocaram-se as mãos, ásperas e quentes as da infância roubada, macias e trémulas as dela. Mas a suavidade com que o menino lhe limpou o rosto despertou nela a certeza de que não seria a última vez que o veria.


( Projecto de conto escrito a posteriori para uma brincadeira séria do sem pénis nem inveja. A intenção de participar assistiu-me desde a primeira hora, mas motivos vários impediram-me de escrever dentro do prazo. Foi escrito ontem, porque a ideia bailava por aqui. Registe-se).



sábado, setembro 22, 2007



Aluno-Qual é o cúmulo da vaidade?
Professora- Não sei. Qual é, Jorge?
Aluno-Comer flores para enfeitar os vasos sanguíneos.