terça-feira, outubro 16, 2007
quinta-feira, outubro 11, 2007

tenho o cinzeiro cheio de trabalho ardido no corpo. tenho os ouvidos macerados de pós sonoros sem fonema que se identifique. tenho a saliva ácida da chuva gráfica das ideias. tenho o mercúrio na temperatura da febre solto no sangue. tenho as articulações laças da ferrugem cromada em metal cinzelado. tenho o peso do sono no canto da boca que se esconde na orelha. tenho a loucura certa para enfrentar a fera. tenho fera cá dentro para enfrentar a loucura. tenho anos que não sinto. sinto os anos que não tenho mas já tive. tenho saudades do futuro e de saber do passado que há-de ser o amanhã. tenho vida e morte e crime e castigo. tenho um carneiro selvagem para procurar no Japão. tenho kafka à cabeceira do amor. tenho medo do que conheço e desconheço o medo do que quero conhecer. tenho esperança na ternura e dela faço o meu dia vadio. sou inteiramente masculina numa feminilidade marcada. sou o sim , o não, o talvez com os pés no chão e a cabeça a metro e sessenta. quando baixa o nevoeiro sou bruma densa sem d. sebastião. quando o sol brilha sou campo de girassóis cercado por planície.
Sou tudo isto mais eu.
terça-feira, outubro 09, 2007

Um dia estava ela a ver passar navios quando de repente sentiu um arrepio na espinha. Devia ter trazido agasalho- pensou ela com os seus navios. Um marujo que a avistou com os cabelos arrepiados lançou-lhe a âncora e prendeu-lhe uma corda no cabelo em jeito de rabo de cavalo, indicando-lhe suavemente o caminho até à beira-rio. Despiu o blusão listado e cobriu-lhe os ombros nus que de galinha ganharam a pele. Na generosidade do acto ela agradeceu. Ele deu-lhe a mão e ela entrou na embarcação vazia. Percorreu numa dormência feliz distâncias que não sabia medir e outros entravam e faziam o passeio turístico com o marinheiro sempre no leme. Já noitinha quis sair daquela cena e pediu ao marujo para regressar que já estava tarde e este voltou-se para trás, bateu as asas e levantou voo com ela nas garras por um caminho de nuvens brancas e sóis transparentes e quentes e ela nunca mais teve frio. Só o cheiro do pinho lhe lembrava outros passeios dos quais não se recordava bem.
domingo, outubro 07, 2007
sábado, outubro 06, 2007

Foi grande o dia que começa a esconder-se cada vez mais cedo atrás daquele recorte cinzento com fios laranja tímidos que a copa das árvores tapa. Verdejando ainda, as folhas remoídas tombam cansadas das fortes bátegas e entregam-se aos convites do vento, para leve bailado de cores e de pranto.
Subo os paços do altar e encontro deitado o leão que me rende na guarda. A luz cerrada que envolve o anoitecer trouxe-lhe a lassidão do desalento talhado na espera e, escutada a voz que lhe afaga o ânimo, revolve-se na cama quente e, muito lentamente, como num despertar de amor, estica cada músculo, que solto relaxa finalmente para os afagos.Parece que aproveita a espreguiçadela para orar ao seu deus agradecendo o desejo pedido de o libertar de tão longa solidão diária. Poupada nunca, que a alegria de o ver é tanta que esbanjo ali a primeira dose de festas e mimos, seguida de biscoito suculento que o paladar canino aprova. Se a retirada acontece sem que sinta esquecidas as horas de ausência, interpela caminhos, barra entradas, reclama dona e ajeita modos de gato que lhe massagem a juba. Deixo-o lá fora como a um amor proibido e, platonicamente, pela janela das emoções trocamos olhares cúmplices e fazemos promessas de momentos.
Amacia-se a chegada desta maneira ritual e simples noite após noite. Gosto tanto do meu cão que acho que noutra encarnação fomos irmãos .
Deve ter sido por isso que no caminho para casa, apressada que vinha, ouvi aquela frase entrecortada pelo vento, reveladora de resquícios:
- Aúúúú! Até dá arrepios! Que balanço de cauda!
terça-feira, outubro 02, 2007
Ivan Lins - Lembra de Mim - Clip
Assim me despeço do Verão! Assobiando Ivan Lins, caminhando ao longo da represa, com as mãos nos bolsos do agasalho. Aconchego o corpo na tarde cinzenta e refresco-me do dia.
sábado, setembro 29, 2007
quinta-feira, setembro 27, 2007

hoje li uma história esquecida na estante mais alta da mais velha biblioteca do mundo. Não importam as folhas arrancadas. as que permanecem intactas pediram-me que lhes sacudisse o pó. lhes lesse os sinais e lhes rasurasse as margens. em apontamentos soltos procurei significados em mim. reconstruo-a por dentro.
domingo, setembro 23, 2007

Vestiu-se de amor na despedida
Deitara-se tarde, preparando e ansiando o amanhã. Sabia de seu aquela tendência infantil de antecipar guloseima que lhe pintasse de azul o céu dos dias. Entrava na última semana de Agosto com a certeza que, daquele fim de Verão, lhe sobrariam dias de calma e isenção de cuidados. Novos horizontes lhe permitiriam restabelecer-se da afadigada vida que levava. Do cansaço tinha-lhe tomado o gosto por ser prazer o que lhe trazia existir, mas umas férias longe dos lugares costumeiros seriam uma ode ao prolongamento da mestria com que governava a vida.
Quando o telefone tocou para a despertar à hora marcada, já há muito se havia levantado. Na frescura da manhã, inesperadamente ventosa, sentiu pousarem-lhe as asas que a haviam de levar para destino paradisíaco onde o corpo se despediria do Verão. Partia só. Deixava para trás a certeza de um rompimento amoroso que prometia e descomprometia com uma imberbe e silenciosa indiferença. Não tinha paciência para arrastar situações de dependência mal resolvidas e tomara a dianteira no corte que a ligava àquele homem sem mote que a motivasse.
A viagem foi tranquila, com a descolagem deixava para trás o desencanto lavado com pingos de chuva que salpicavam caprichosos a aurora lisboeta. Linda a cidade!, melhor seria quando voltasse restabelecida e a apreciasse de outros ângulos, com olhos repousados na distância e emocionados no sabor do regresso.
Entre espreguiçadeiras e banhos quentes de areia e mar, sentiu a vida prenhe entrar-lhe nas veias com um vigor de quem sabe apreciar o que a natureza nos dá quando nos entregamos à lavagem centrífuga da alma. Olhava os outros com a sabedoria e a terna vertigem de saber amar.
Uma criança que vendia bugigangas na entrada da praia pediu-lhe sem falar que a acarinhasse. Baixou-se interessada no que ela fazia e pousou o olhar naquelas mãos pequenas que maquinalmente inventavam sobrevivência. Artesão da vida com saberes adicionados na necessidade. Sorriu. Lentamente ergueu o olhar e encontrou aqueles olhos enormes de um castanho amendoado pintalgados de solidão e carinho. Ficaram parados presos um ao outro num fio que se enrolava no peito. Era como se aquele olhar já fosse seu por ser conhecido. Abanou o pensamento e preparou-se para comprar uma daquelas peças tão belas quanto naifs. Mas a criança disse-lhe num tom de voz surpreendentemente calmo e maduro: Leva, foi feito para ti!Obrigado por observares o meu trabalho. Volta mais vezes, tens uns olhos tão doces e és tão bonita, que me atrais mais clientes.
Olhou em volta e percebeu que se encontrava rodeada de pessoas que como ela pegavam nas peças e se prendiam a elas como a amuletos. Ficou ali sem noção do tempo e, na entrega do presente, tocaram-se as mãos, ásperas e quentes as da infância roubada, macias e trémulas as dela. Mas a suavidade com que o menino lhe limpou o rosto despertou nela a certeza de que não seria a última vez que o veria.
( Projecto de conto escrito a posteriori para uma brincadeira séria do sem pénis nem inveja. A intenção de participar assistiu-me desde a primeira hora, mas motivos vários impediram-me de escrever dentro do prazo. Foi escrito ontem, porque a ideia bailava por aqui. Registe-se).
sábado, setembro 22, 2007
domingo, setembro 16, 2007
quarta-feira, setembro 12, 2007

Há dias em que o Pai-Natal, no qual acredito com a cabeça do dedo mindinho do pé, me aparece travestido de intransigência. Mas, a rigidez da burrice, normalmente, zurra e dá coices no tempo da esperada flexibilidade.
Este pensamento é tão profundo que para o completar de forma original, embora com vómito mental, só me apetece dizer: depois não digam que eu não avisei!
sábado, setembro 08, 2007

Vi-a hoje. Trabalhei com aquela mulher alguns anos e dela trazia as lembranças inteiras de ter ensinado a minha filha a ler. Uma profissional dedicada, inovadora, atenta aos seus alunos, senhora de uma cultura que recolhia na vida como mata-borrão. Uma leitora devota que sabia desbravar vontades na cativante aventura de saber.
Com os anos afastou-se da componente lectiva, o barulho das crianças incomodava-a, tornou-se irritável e indiferente ao mundo, apática sem ermo num mundo de antidepressivos e psicossomatismos inerentes. Exageradamente gorda, arrastava no andar lento um pesar que se amortalhava nos olhos baços postos no chão, no desalinho da figura sobressaía um ventre imenso de solidão e um sorriso triste de quem tem fome no peito. Mostrava-me timidamente a poesia que escrevia desde há muito e eu via o inconformismo no grito das palavras que morriam no papel amarelecido pelos anos, a latência duma vida pela metade, a simetria dos dias sem brilho que lhe raptaram a essência. Aposentou-se e deixei de a ver.
Apareceu-me hoje do nada. Dos cabelos crespos surgiram-me uns longos e sedosos cabelos negros dos quais pendia uma fita colorida bem coquette, uma maquilhagem ligeira matizava um rosto sereno onde as sardas enfeitavam alegremente um sorriso rasgado, os olhos recuperaram a doçura e coadjuvavam os lábios nas palavras por dizer...sem necessidade de pressa. A postura de rosto erguido resplandecia juventude, as roupas seduziam os olhares, a graciosidade das formas num corpo sem memória em mim.
Divorciou-se. Emagreceu. Entrou para a Universidade da Terceira Idade. Organiza tertúlias de poesia. Apaixonou-se. É feliz.
sexta-feira, setembro 07, 2007

Venham sempre, quero que me encham a casa com a vossa alegria e os vossos sorrisos, tirem-me daqui os velhos do Restelo!
O teu último grito de vida, Clara! Desculpa amiga, por não termos tido a vontade suficiente para o fazer da forma que gostarias. Uma vida dedicada a causas, um exemplo de energia e tenacidade, sempre... até ao fim a acreditar que vale a pena viver.
Viste-nos, Clara? Estivemos lá todos, hoje, numa casa que não queríamos para ti, cheia de flores murchas que a saudade não rega, são de sal os pingos de choro. Rodeamos-te com a ternura e a tristeza da enorme perda sofrida. Vieram todos, de todo o lado, e misturámos as lágrimas com o sorriso das tuas lembranças, porque tu quererias que houvesse palmas e danças e festa no ar.
Uma salva de palmas para ti, minha querida! Descansa em paz!
terça-feira, setembro 04, 2007

Retomei, ao terceiro dia do nono mês do calendário Gregoriano, as pulsações da escola com as minhas ainda numa arritmia sinusal causada pelo estrangulamento das largas artérias por onde me movia em férias. C'est lá rentrée, mon Dieu!
No receio de que as pálpebras se mantivessem inertes à claridade do dia e que eu permanecesse restelada entre lençóis por mais do que devia, avisei de véspera amigo que já não visitava há um mês, sabendo que dos mansos e robóticos tique-taques que durante a noite me embalam, chegada a hora, entra naquela frenética e histérica alegria com ligação directa ao meu centro nevrálgico, sem dar hipóteses de acalmia enquanto não lhe der atenção. Amigo da onça! Mas para isso o quero e jeito me dá, que da manha do corpo sabe a mente, ou vice-versa ou simbiótico jogo de empurra se instala no complexo restolho de sono.
Sintonizado para as 8 horas da manhã, dar-me ia hora e meia de tranquilidade antes de entrar no bulício dos abraços inquiritivos de como foram as férias. Estando a 5 minutos da escola era prevista calma preparação, pequeno-almoço mastigado, não engolido na pressa, partilhado momento com o Baltasar num até já, que a dona volta cedo.
Mas teve de ser pessoalizado o despertar que o amigo da onça, não esteve pelo ajustado. Falta de treino ou senilidade precoce do bichinho, manteve-se na ronha sem cumprimento das funções acostumadas.
Pelas 9 horas tocou. Afinal enganei-me no acerto dos ponteiros, pensei entre risotas caseiras. Mas a certeza do momento nocturno deixava-me em dúvida. Fui ver. O ponteiro apontava certeiro as 8 da manhã. Como é possível, não sei, mas parece-me que amanhã terei de apontar para as sete ou voltarei a ser enganada por este inesperado inimigo da pontualidade.
segunda-feira, setembro 03, 2007

Estava eu atarefada, num daqueles momentos em que as nossas mãos se repartem pelo trabalho caseiro, com a mestria de pianista no teclado, desejosa de terminar as tarefas e poder usufruir dos últimos momentos de férias, de concluir leitura e dar uns retoques finais numa tela que tem andado a virar as costas para mim há tempo a mais, ou terá sido o contrário?, isso agora não interessa, quando toca o telefone.
-Estou, sim!
-É a senhora dona Maria...?
-Eu própria, faça o favor de dizer!
-Estamos a fazer um inquérito sobre hábitos televisivos. Podia dizer-me qual é o canal de televisão que mais se vê na sua casa?
-Aqui não vemos televisão, usamo-la só para decoração.
-Ah, é?!
-É.
Olha, desligou!
domingo, setembro 02, 2007

caio as paredes de branco para a alegria que está sentada num banco a rir-se do presente daquele dia. cobre-se de neve quente ao sol da manhã e a luz que enche aqueles olhos é a razão de viver. sabe que nas brechas se esconde a humidade das teias urdidas em fios escuros de pó e sombra. na limpeza sustêm-se os aromas do canto breve. liberdade tingida de pinceladas de grades. cantam os galos numa imitação tardia da vida prolongada para trás do ontem. esperanças pesadas na desordem do anoitecer. no momento a certeza que caiada a vida lhe apetece.
quinta-feira, agosto 30, 2007
Subscrever:
Mensagens (Atom)


