
Por interstícios das malas abertas de quando éramos
pede-nos perdão pela saudade que nos devora.


A morte ainda esperou
Da ficção chegam intermitências da morte num tom sarcástico e manifestação irónica da decisão da mesma, ao recusar apresentar-se na existência de quem não morre nem pode voltar a viver, os moribundos. Os que no final da vida esperam o clic que alivie a desesperança do ser.
Mas, no Alentejo profundo, a morte anda, qual cavalo sem freio, assaltando nas curvaturas sinuosas os que, na dilatada planície, coam a vida sem rede.
A foice... a gadanha, na seara alheia de INEM. Mais de quatro horas a morte rondou o corpo, assobiando um cantar alentejano num prenúncio de abutre de papo cheio. A morte ainda esperou, condescendente, que à vida se desse suposição, mas cansou-se da demora e mostrou, hoje, em Odemira, o seu dom da ubiquidade.
Que daquela ninguém se livra quando chegada a hora, é certo, mas que não seja por falta de socorro que se percam vidas. O Alentejo ainda é Portugal!
Esta deve ser mais velha que a ... ou que o ...
Sem camuflagem
Chegam-nos de inesperadas formas e, de repente, surpreendem-nos pela leveza que nos transmitem. Sem camuflagens, de peito aberto na postura e na voz, sentimos-lhes a verdade que transmitem e à qual nos ligamos sem esforço. Da palavra lisa e sem mágoa, do olhar directo e frontal, semeiam à sua volta a serenidade, recriam a harmonia que todos vamos perdendo entre as fobias que nos envolvem e que nos aceleram a ansiedade.
Das mãos, os movimentos que nos fazem adivinhar a ausência de teatrealidade da vida, sem actos que envergonhem o actor, mas com uma firmeza consonante com a melodia da fala e a doçura e segurança do olhar.
Rimam com afectos, estas vidas, buscam na existência uma tranquilidade que nos renova o enleio, sustentam-se de uma energia de intensa sabedoria que nos bloqueia a perturbação e o tumulto. Dos traços no rosto ficam as marcas apaziguadas da sorte e das escolhas nem sempre pacíficas, mas que se viveram com a quietude na consciência.
Quando os deixamos é como se um fio de luz nos iluminasse e aquecesse. É bom ter amigos assim!

A notícia que faltava a quem tem pouca força de vontade para deixar de fumar. Ah!, mas nenhuma daquelas marcas é a minha!
Desculpas esfarrapadas. Promessas vazias de fé. Sonhos que ardem na boca dos dias saltimbancos de crentes adiados. A saúde à espera de encontrar o nicho de oxigenação esperado e os níveis de monóxido de carbono a ultrapassarem a barreira da estupidez.
Depois admiramo-nos que as células enlouqueçam e entrem num frenesim neoplásico!

Momentos nossos...
Pequenos outeiros terminados em bico. Colinas de prazer e doçura. Ânforas de amamentação e de vida. Da pele macia e fina o toque único e delicado. Botões das rosas que somos.
Expostas em decotes fundos, ocultas por vestes austeras, tímidas pelo recato ou volume apoucado, majestosas, altivas, disfarçadas...nossas! Símbolos da feminilidade e graça da mulher. Tecidos sensíveis... susceptíveis aos furores das hormonas que nos percorrem na vida.
Tocá-las sempre com a lupa do tacto, percorrê-las em busca de texturas desconhecidas, olhá-las com a visão apurada pela sabedoria da antecipação...sem medo, sem pavor. Dedicar-lhes momentos só nossos de uma intimidade feita de silêncio e de respeito pelo tesouro presente e pela imagens pandóricas que podem encerrar.
Este deve ser o lema!, porque no momento das certezas inconformadas ou das dúvidas temíveis esquecemos o mundo, separamo-nos dele e flutuamos num mar de angústia e de revolta, perdendo terra firme, tornamo-nos sinfonia de Vivaldi, vivendo a cada momento furores de humor constantes.
É como se de repente, depois de longa corrida, o descanso que ansiávamos se transforme, por erosão, num enorme precipício onde ninguém nos dará mão.
Momentos nossos...SEMPRE!


Olh'ó passarinho!
- Vês este ninho de avestruz? Veio da Austrália. A mãe foi comida por um tubarão e as avestruzezinhas estão orfãs.
- Oh!, que lindas, tão indefesas!
- A mãe apanhou gripe das aves, mas as crias estão sãs!
- Coitadinhas!
- Elas só precisam que as alimentem e as ensinem a andar. Darão belos exemplares! Da pele produzem-se carteiras, cintos, sapatos. Trata-se de uma pele muito cara dado a sua exclusividade. A sua carne é muito saborosa, tenra e saudável (baixa em colesterol e gordura). Cada animal dá cerca de 40 kg de uma carne vermelha escura, comparável com a melhor carne de vitela e as penas podem ser vendidas à indústria da moda e ainda usadas como utensílio de limpeza.
- Não fazia ideia!
- Vendo-te esta preciosidade só por 500 euros.
- Vou só ver se está a chover, já volto!

Vamos pintar uma nova tela!
"Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor"...
Alexandre O'Neil

Esferecidade natalícia
Começa Dezembro e deixamos as dietas equilibradas sucumbirem aos manjares que abundam por esta época. As patuscadas de amigos, os jantares de Natal, os lanches que da maçã passam para as azevias e fritos de arroz, bolo-rei e escangalhado... um exagero!
No turbilhão da compra dos presentes, um cafezinho ou um chá surgem como momentos de indeminização das forças, já que do resto nem vale a pena pensar muito e rendo-me aos filhoses, às rabanadas, aos sonhos e...não resisto!, aos coscorões, que se me apresentam com o charme estaladiço que me recobra as energias para mais meia dúzia de embrulhos. Se de bolos falo com afastamento, dos fritos sinto uma proximidade emotiva que me engorda.
Entro já com desvantagem nesta quadra natalícia, desprezando a balança por inútil desconfiança. Bacalhau, cabrito, perú, leitão...Arredondo, avolumo, engrandeço lateralmente. Se caio rebolo. Ainda bem que no guarda-fatos tenho da secção 38 à 42, caso contrário já não saía de casa.
E ainda as festas vão a meio! A partir de hoje declaro-me vegetariana!
...e as manhãs frias de há 40 anos voltam inesperadamente. Sinto ainda a alegria na construçao de presépios onde os rios de prata reflectiam a inocência...
Miguel AcevedoEu até nem gosto de touradas!

Há muito que o galo cantou!
Pensam que eu continuo a dormir?! Não! Sabem o que são Planos de Acompanhamento, Planos de Recuperação, Adaptações Curriculares, PEI(s), PE(s), avaliações, Gráficos de Aproveitamento, Mapas de Leite Escolar,Mapas de Registo de Faltas de professores e Auxiliares de Acção Educativa, Relatórios de Turma, reuniões ordinárias e extraordinárias...? Então é por aí que eu ando!
Com dedos de larápio raptei este post. Aqui ficam as desculpas. É por uma boa causa. Pode assinar a petição contra a TLEBS aqui.
Notícia que devia ter sido lida há 50 anos
"Pinochet faleceu devido a um enfarte e a um edema pulmonar às 17h15 (hora de Lisboa) no Hospital Militar, em Santiago do Chile. A informação foi avançada pelas autoridades hospitalares. “Ele morreu rodeado da sua família”, disse o médico Juan Ignacio Vergara".
Morreu acompanhado da família. O mesmo não poderão dizer dos milhares que matou e dos quais... muitos, nem sequer conseguiram ser resgatados pelos seus familiares.
Tem o nome encharcado pelo sangue que fez derramar!


Beryl Cook
Estes sapatos roeram-me os pés
chegou a hora de eu roer os sapatos!

Restauração do 30 de Novembro de 1640
Num exercício de profundíssima introspecção, hoje tentei perceber o sabor que a nossa vida teria se ainda hoje fôssemos espanhóis. Saí de casa com este sentir e com o olho atento ao que ia fazer: compras. Sinal de subtracção de dinheiro. Na carteira os poucos euros tinham cara e coroa de D. Juan Carlos. Não havia dúvida estava a correr bem! Podia continuar a esforçar-me, pois tudo estava a meu favor.
Passo pelo Corte Inglês cá do sítio, mas não entro, vou para o comércio tradicional, sentir a cidade, imaginá-la há 400 anos. Numa das praças principais espero dar fé a todas as bancas, regatear, sentir odores perdidos nas memórias escritas, rir exageradamente com grupos de animação burlesca, assistir a brigas com arruaceiros dados à pilhagem de galináceos, reconhecer as pegadas dos Filipes por terras lusitanas...o descontentamento, a revolta no ar... fecho os olhos, vou dobrar a esquina.
Hei-la à minha frente!
ZARA... BERSKA... MANGO... STRADIVARIUS... CELTA...CORTEFIEL...não ouso olhar mais. Recuo...espreito de novo.
BANESTO...SANTANDER...BANCO BILBAO VIZCAYA...!Meu Deus estou em Espanha, vivo como espanhola!
Perdi-me nas horas. Preciso de levar pelo menos a fruta. Comprei à pressa o que me pareceu ter bom aspecto...tão tarde, o peixe para grelhar! Olho de relance para as etiquetas do supermercado. A fruta também é espanhola...que maçada, não posso voltar atrás! Fartei-me do exercício a que me tinha proposto.
No regresso, roo uma maçã para o caminho, entretendo o estômago e as mãos sem cigarro. Não sabe a nada...puxo pela água do LUSO e bebo...bebo, até me sentir saciada!