reflexos de vida no silêncio espelhado da água. fragas de vidro em descontinuidades do olhar ...

quinta-feira, dezembro 07, 2006

Almada Negreiros- Maternidade


Pelo sim, porque a vida merece ser vivida de forma plena!

domingo, dezembro 03, 2006

Miró
Dadaísta? Só um pouco!

Estes sapatos roeram-me os pés

chegou a hora de eu roer os sapatos!

Tiro-lhes a palmilha , salpico com canela
e a sola rija atiro pela janela
bebo num trago o suor escaldado
que no couro velho ficou infliltrado
os atacadores sabem-me a esparguete
e a terra seca raspo com canivete
Com talheres de prata
trincho o que me resta
dos sapatos velhos
que me franziram a testa.
Para acompanhar, pão com bulor
o vinho da cepa com míldio sabor
e para sobremesa escolho a preceito
uma caixa de graxa
que já me fez jeito.

sexta-feira, dezembro 01, 2006


Teixeira de Pascoaes

( Continua isto a ser a alma portuguesa?)
  • FALTA DE PERSISTÊNCIA
  • VIL TRISTEZA
  • INVEJA
  • VAIDADE SUSCEPTÍVEL
  • INTOLERÂNCIA
  • ESPÍRITO DE IMITAÇÃO
«Defeitos da Alma Pátria»Cap. X de Arte de Ser Português, 1920
Picasso

Notícias do Beco(4)


Depois do inquérito feito ao pessoal aqui do beco, chegámos à conclusão que queremos continuar portugueses.


Restauração do 30 de Novembro de 1640

Num exercício de profundíssima introspecção, hoje tentei perceber o sabor que a nossa vida teria se ainda hoje fôssemos espanhóis. Saí de casa com este sentir e com o olho atento ao que ia fazer: compras. Sinal de subtracção de dinheiro. Na carteira os poucos euros tinham cara e coroa de D. Juan Carlos. Não havia dúvida estava a correr bem! Podia continuar a esforçar-me, pois tudo estava a meu favor.

Passo pelo Corte Inglês cá do sítio, mas não entro, vou para o comércio tradicional, sentir a cidade, imaginá-la há 400 anos. Numa das praças principais espero dar fé a todas as bancas, regatear, sentir odores perdidos nas memórias escritas, rir exageradamente com grupos de animação burlesca, assistir a brigas com arruaceiros dados à pilhagem de galináceos, reconhecer as pegadas dos Filipes por terras lusitanas...o descontentamento, a revolta no ar... fecho os olhos, vou dobrar a esquina.

Hei-la à minha frente!

ZARA... BERSKA... MANGO... STRADIVARIUS... CELTA...CORTEFIEL...não ouso olhar mais. Recuo...espreito de novo.

BANESTO...SANTANDER...BANCO BILBAO VIZCAYA...!Meu Deus estou em Espanha, vivo como espanhola!

Perdi-me nas horas. Preciso de levar pelo menos a fruta. Comprei à pressa o que me pareceu ter bom aspecto...tão tarde, o peixe para grelhar! Olho de relance para as etiquetas do supermercado. A fruta também é espanhola...que maçada, não posso voltar atrás! Fartei-me do exercício a que me tinha proposto.

No regresso, roo uma maçã para o caminho, entretendo o estômago e as mãos sem cigarro. Não sabe a nada...puxo pela água do LUSO e bebo...bebo, até me sentir saciada!

Rocio Jurado Flamenco a Lola Flores

De pura sepa! Ole

Zapatero borracho

Capitan está borracho...

quarta-feira, novembro 29, 2006

Espantalhos Nacionais

Quando eu era criança, percebi pela primeira vez como os pássaros deviam ser tolos quando vi o meu primeiro espantalho. Como é que o comportamento dos pássaros podia ser tão radicalmente afetado por algo que é evidentemente uma fraude?

Hoje ainda me interrogo, não sobre o medo infligido aos pássaros pelos espantalhos, mas como é possível que a certos figurões ainda se dê crédito !

Entrevista a Alberto João Jardim

segunda-feira, novembro 27, 2006

Mariza - Meu Fado Meu

O Fado- Malhoa
E há dias assim... em que me sinto infinitamente portuguesa.
Fernando Pessoa dizia que "o português é capaz de tudo, logo que não lhe exijam que o seja, porque somos um grande povo de heróis adiados".

domingo, novembro 26, 2006

Cecilia Bartoli - Rinaldo - Lascia ch'io pianga



O homem em eclipse


Ora foi que certo dia
o homem eclipsou-se
a data digam a data
a datazinha faz favor
qual data foi por decreto
que a gente se eclipsou
foi só manobra espertice
um dois três e pronto é noite
que nem a lua apareça
seja de que lado for
Uns seguraram-se logo
eram espertos bem se viu
outros cairam ao mar
com cabeça pernas e tudo
quanto a mim perdi a calma
fiquei desaparafusado
tradição cultura estilo
certeza amigos fatiota
tudo fora do seu sítio
um desaparafuso terrível
Segurem-me camaradas
sinto pernas a boiar
cheiro fantasmas enxofre
estou aqui mas posso voar
o parafuso da língua
vai partido vai saltar
agarrem-me! agarra!
pronto
pari o mais leve que o ar


Mário Cesariny


























Hoje, vou estar por aqui!



quinta-feira, novembro 23, 2006

António Variações - Humanos - Maria Albertina - Sic Noticias

Maria Albertina

"Natural de Ovar, onde nasceu em 1909 ou 1912 (consoante as fontes consultadas), Maria Albertina foi uma das muitas cantadeiras de excelente voz que, por motivos tantas vezes inexplicáveis, nunca chegou a grande vedeta.Esta artista nortenha viveu no Porto a sua adolescência e só em Lisboa iniciou a sua carreira artística. Vinda dos retiros, estreou-se nos palcos do teatro ao lado de Berta Cardoso e Maria das Neves, em 1930, na opereta História do Fado, e participou em várias operetas, entre as quais Coração de Alfama, de 1935. Na revista, o seu maior sucesso é o Fado da Sardinha Assada, da revista de 1934, Sardinha Assada. Chega a ser cabeça de cartaz na revista O Dia da Espiga, de 1943, mas abandona o palco, dedicando-se a cantar nas casas típicas, sendo uma apreciada fadista com uma carreira que se prolongou até ao anos setenta. Chegou a fazer parte do elenco da casa de fados de Lucília do Carmo, o Faia.Como era habitual nos anos trinta e quarenta, actuou também em várias digressões brasileiras e foi considerada uma das melhores intérpretes de marchas populares lisboetas, uma ironia para alguém natural do Norte! Mãe do popular locutor televisivo Cândido Mota, Maria Albertina faleceu em 1984. "


La sede dell'Accademia Albertina

Anche se il nome di "Albertina" rimanda a Carlo Alberto di Savoia, a cui si deve la decisiva "rifondazione" dell'Accademia nel 1833, le origini di questa sono molto più remote, tanto che l’Accademia torinese si può considerare una delle più antiche d’Italia.


L'Accademia Albertina è situata nell'antica "Isola di S. Francesco da Paola", sede dell'omonimo convento annesso alla chiesa tuttora esistente, la cui facciata si trova su quella che si chiamava allora "Contrada di Po", e che la toponomastica attuale designa come via Po.
Su quest'area, e utilizzando in parte l'ala est del chiostro, ad opera di Giuseppe Talucchi fu progettato e realizzato, tra il 1820 e il 1930, l'edificio che ospita ancor oggi l'Accademia Albertina, e che ad essa fu donato sin dal 1833 da Carlo Alberto, nell'ambito della "rifondazione" dell'Accademia stessa da lui voluta e realizzata.

L'imponente facciata disegnata da Talucchi occupa per intero il lato est dell'isola, e si prolunga in una ulteriore manica a sud, ospitando oggi, oltre a numerose Scuole dotate di ampi spazi, la ricca Biblioteca Storica e la pregevole Pinacoteca, estendendosi per ben cinque piani fuori terra."

quarta-feira, novembro 22, 2006


Albertina


"Com sua coleção gráfica famosa, o Albertina é considerado um dos museus os mais importantes no mundo. Aqui, se pode encontrar os estudos dos Hare” e do Klimt do campo de Dürer “das mulheres.
Uma vez os quartos vivos os maiores de Habsburg, o Albertina sentam-se majestosa na extremidade sul do palácio imperial em um dos últimos bastions restantes de Viena.
Fundado em 1776 pelo duque Herzog Albert de Saxe-Teschen, a coleção contem mais de 1 milhão cópias e 60.000 desenhos.

Os trabalhos famosos tais como os Hare do campo de Dürer “” e as “mãos dobradas para estudos do Prayer,” do Rubens das crianças as well as masterworks de Schiele, Cézanne, Klimt, Kokoschka, Picasso e Rauschenberg são mostrados em exhibitions em mudança.

O Albertina possui também uma coleção da arquitetura e uma colecção recentemente criada das fotografias (o newton e Lisette de Helmut modelam, entre outro).

Os quartos do estado dos quartos vivos os maiores da família de Habsburg foram ocupados uma vez pela filha favorita do Empress Maria Theresia, Archduchess Marie-Christine, mais tarde por seu Archduke adotado Karl do filho, vencedor da batalha de Aspern de encontro a Napoleon. Fazer & o Co Albertina caters a seu cada desejo culinary no nível o mais elevado.

Localizado imediatamente ao lado da coleção de Albertina, Café Albertina e o Augustinerkeller oferecem muitos specialties culinary do cuisine Viennese."

Maria Albertina

Maria Albertina deixa que eu te diga....
Maria Albertina deixa que eu te diga....

Esse teu nome eu sei que não é um espanto mas
é cá da terra e tem
tem muito encanto
Esse teu nome eu sei que não é um espanto mas
é cá da terra e tem
tem muito encanto

Maria Albertina como foste nessa
de chamar Vanessa à tua menina
Maria Albertina como foste nessa
de chamar Vanessa à tua menina

Maria Albertina deixa que eu te diga....
Maria Albertina deixa que eu te diga....

Esse teu nome eu sei que não é um espanto mas
é cá da terra e tem
tem muito encanto
Esse teu nome eu sei que não é um espanto mas
é cá da terra e tem
tem muito encanto

Maria Albertina como foste nessa
de chamar Vanessa à tua menina
Maria Albertina como foste nessa
de chamar Vanessa à tua menina

Maria Albertina deixa que eu te diga....
Maria Albertina deixa que eu te diga....

Esse teu nome eu sei que não é um espanto mas
é cá da terra e tem
tem muito encanto
Esse teu nome eu sei que não é um espanto mas
é cá da terra e tem
tem muito encanto

Maria Albertina como foste nessa
de chamar Vanessa à tua menina
Maria Albertina como foste nessa
de chamar Vanessa à tua menina

que é bem cheiinha e muito moreninha (repetir)

Os Humanos( Camané)

segunda-feira, novembro 20, 2006


Albertina

ou O insecto-insulto ou O quotidiano recebido como mosca

O poeta está
só,completamente só.
Do nariz vai tirando alguns minutos
De abstracção,alguns minutos
Do nariz para o chão
Ou colados sob o tampo da mesa
Onde o poeta é todo cotovelos
E espera um minuto que seja de beleza.
Mas o poeta
é aos novelos;
Mas o poeta já não tem a certeza
De segurar a musa,aquela
Que tantas vezes arrastou pelos cabelos...

A mosca Albertina,
que ele domesticava,
Vem agora ao papel,com um insecto-insulto,
Mas fingindo que o poeta a esperava...
Quase mulher
e muito mosca,
Albertina quer o poeta para si,
Quer sem versos o poeta.
Por isso fica,mosca-mulher,por ali...

-Albertina!,deixa-me
em paz,consente
Que eu falhe neste papel tão branco e insolente
Onde belo e ausente um verso eu sei que está!
-Albertina!,eu
quero um verso que não há!...


Conjugal,provocante,moreno
e azulado,
O insecto levanta,revoluteia,desce
E,em lugar do verso que não aparece,
No papel se demora com um insulto alado.
E o poeta
sai de chofre,por uns tempos desalmado...


Alexandre O'Neill

sábado, novembro 18, 2006

Turdus Merula

O merlo é um dissílabo que canta.
E perguntam vocês: mas que te deu hoje para te lembrares do melro, cantado por vozes do Brasil, numa geografia que não é a nossa?
E para vocês meus queridos ( dois ou três amigos que me visitam com a regularidade que me enternece o sorriso) responderei que acordo muitas vezes com o cantar dos melros no meu quintal. Alegra-me ver o seu saltitar e a destreza de voo e o laranja do bico do macho inspira-me na compra de camisolas. Achei na gravura a riqueza melodiosa do canto do melro e quis partilhá-la com vocês. Quando procurava a raíz etimológica da palavra encontrei estes "Cantores bons de bico" e, nem é tarde nem é cedo, experimentei fazer o link ( coisa que me anda a atormentar já há algum tempo, sem sucesso). Então não é que isto resultou! Afinal era tudo tão fácil!
Para mais alguém que passe aqui pelo beco, desculpem estes amadorismos bloguistas ( e os outros também) e esta informalidade no jeito.

sexta-feira, novembro 17, 2006



Que frio!

Pode não parecer, mas estou cheia de frio! Encontrei o casaco mas perdi os sapatos...



Notícias do beco(3)-Mails

Reparem no estado a que chegou a minha caixa de correio!Não tivesse eu dois gigas de espaço para armazenar tanta correspondência e, as cartas atapetariam a vizinhança. Fico espantada com os novecentos mails que tenho por abrir e que certamnete nunca mais lerei. Desculpas públicas a quem tão carinhosamente mos envia. Apresentem reclamação à Lurdinhas. Tempo livre? Só para dormir.Mas pouco! Se houver, neste momento, professores que estejam a fazer menos de 40 horas semanais dentro da escola, apresentem-se.

quinta-feira, novembro 16, 2006

Virados do avesso por um "vira-latas" qualquer

Vêmo-los nascer. Bolinhas de pêlo com olhos ternos.Chichis por todo o lado, cocós por aqui e por ali, esfregona na mão, ralhete pronto na ponta da língua e eles de rabinho a dar a dar vêm ter connosco prazenteiros e descarados e nós...rendêmo-nos!
Têm vida de príncipes alguns, acarinhados e amados como seres humanos nunca serão. Alinham na brincadeira, e nós temos para eles brinquedos-ossos, brinquedos-bolas... brinquedos-vida são eles que nos escutam, nos interrogam, nos fintam, nos testam, nos chantangiam e nos contagiam com aquela graça quadrúpede que se vai aninhando em nós.
Por eles "perdemos" noites e desdobramo-nos em cuidados: visitas regulares ao veterinário, vacinas em dia, desparasitante embuçado em mimos gastronómicos para alívio deles e nosso . Dos passeios matinais ou de fim do dia fica a compensação de ver a excitação e a alegria desmedida com que nos indicam a porta de saída como se da casa percebessem melhor que nós.
Depois quando sabemos que há quem os abandone, ficamos assim , sem perceber como é que alguém pode ser tão insensível e cruel.

quarta-feira, novembro 15, 2006



Metafísica

...Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando....


Álvaro de Campos ( Tabacaria)

Notícias da escola(1)
A Bárbara de 8 anos escreveu"Quando apanhamos a onda da ternura, a vida fica mais bela".

domingo, novembro 12, 2006


Notícias do Beco (1)

Hoje acordei com um cantar diferente no quintal. Belisquei-me. O céu azul, límpido e sublime,a temperatura quente para esta altura do ano, a humidade relativa do ar morna e... dois papagaios ainda bebés(acho) transportaram-me para paragens tropicais, que não as do meu beco.
Como vieram ali parar aquelas duas lindas criaturas? Quem se livrou delas ou as deixou escapar?
A palmeira centenária, paraceu cumprir ali a sua missão neste quintal.

Notícias do Beco (2)

As minhas cegonhas voltaram. Sem o filhote. Segundo especialista da área já deve ter ido para a tropa ou então foi ver o Gato Fedorento e foi raptado pela Floribela.



Vamos ...é domingo!

Vamos a hacer limpieza general

Vamos hacer limpieza general

y vamos a tirar todas las cosas

que no nos sirven para nada, esas

cosas que ya no utilizamos , esas

otras que no hacen más que coger polvo

las que nos hacen daño, ocupan sitio

o no quisimos nunca tener cerca.

Vamos a hacer limpieza general

o, mejor todavia, una mudanza

que nos permitea abandonar las cosas

sin tocarlas siquiera, sin mancharnos

dejándolas donde han estado siempre;

vamos a irmos nosotros, vida mia,

para empezar a acumular de nuevo.

O vamos a prenderle fuego a todo

y a quedarnos en paz, con esa imagen

de las brasas del mundo ante los ojos

y con el corazón deshabitado.

* Para um casal de amigos

Amalia Bautista

sábado, novembro 11, 2006


Avoir le mal de St. Martin –[ estar com ressaca]
Agora não se esqueçam...!

S. Martinho- da lenda à vida

«Martinho de Tours (São) -Bispo de Tours (n. actual Szambatkely, Hungria, 316 ou 317- m. Candes, França, 8.11.397).

Filho de um oficial do exército romano e nascido num posto militar fronteiriço, após estudos humanísticos, em Pavia, aos 16 anos entrou para o exército quando já a sua vontade o inclinava a fazer-se monge (aos 10 anos inscrevera-se como catecúmeno).

Em breve ganhou fama de taumaturgo.Em Amiens, provavelmente em 338, durante uma ronda nocturna no rigor do Inverno encontrou um pobre seminu: não tendo à mão dinheiro para lhe valer, com a espada dividiu ao meio a sua clâmide que repartiu com o desconhecido.

Na noite seguinte, em sonhos, viu Jesus, que disse:"Martinho, apesar de somente catecúmeno, cobriu-me com a sua capa."

Recebeu o baptismo na Páscoa de 339, continuando como oficial da guarda imperial até aos 40 anos. Abandonando a vida castrense, foi ter com Sto. Hilário de Poitiers, que lhe conferiu ordens sacras e lhe deu possibilidade de levar vida monacal: nasceu, assim, o famoso Mosteiro de Ligugé.

Eleito, por aclamação, bispo de Tours, foi sagrado provavelmente a 4.7.371.Ardente propagador de fé, fundou, em Marmoutier, um mosteiro donde sairam notáveis missionários e reformadores. Demoliu templos pagãos e levantou mosteiros como sustentáculos da evangelização.

Humilde e pacífico, manteve a sua independência perante o abuso da autoridade civil.O fascínio das suas virtudes radicadas na generosidade do seu zelo, na nobreza de caracter e, sobretudo, na sua bondade ilimitada mantida para alem da morte na prodigalidade dos seus milagres, magnificamente descritas pelo seu discipulo Sulpício Severo, fez com que S. M. T. fosse durante muitos séculos o santo mais popular da Europa Ocidental. A sua memória litúrgica é a 11 de Novembro.»


Oliveira, Alves de- "Martinho de Tours (São)", Enciclopédia Luso- Brasileira de Cultura, vol. 13 (Editorial Verbo)

sexta-feira, novembro 10, 2006



Mário Viegas

Uma pequena homenagem a Mário Viegas. Nasceste meia hora antes do dia de S. Martinho. A esta hora que te escrevo estaria a minha querida Professora Mariana Viegas, há 58 anos atrás, em trabalho de parto.Que excelente ser ela pôs no mundo. Partiste, mas não estás morto. Estive a ouvir-te há pouco. Disseste como ninguém as palavras!


Carta a meus filhos

Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.É possível, porque tudo é possível, que ele seja aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém de nada haver que não seja simples e natural.Um mundo em que tudo seja permitido, conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer, o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto o que vos interesse para viver.
Tudo é possível, ainda quando lutemos, como devemos lutar, por quanto nos pareça a liberdade e a justiça, ou mais que qualquer delas uma fiel dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade não tem conta o número dos que pensaram assim, amaram o seu semelhante no que ele tinha de único, de insólito, de livre, de diferente, e foram sacrificados, torturados, espancados, e entregues hipocritamente `a secular justiça, para que os liquidasse “com suma piedade e sem efusão de sangue.”Por serem fiéis a um deus, a um pensamento, a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas à fome irrespondível que lhes roía as entranhas, foram estripados, esfolados, queimados, gaseados, e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido, ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória. Às vezes, por serem de uma raça, outras por serem de uma classe, expiaram todos os erros que não tinham cometido ou não tinham consciênciade de haver cometido.
Mas também aconteceu e acontece que não foram mortos.Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer, aniquilando mansamente, delicadamente, por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus. Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror, foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha há mais de um século e que por violenta e injusta ofendeu o coração de um pintor chamado Goya, que tinha um coração muito grande, cheio de fúria e de amor.
Mas isto nada é, meus filhos. Apenas um episódio, um episódio breve, nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis) de ferro e de suor e sangue e algum sémen a caminho do mundo que vos sonho. Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la. É isto o que mais importa - essa alegria. Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto não é senão essa alegria que vem de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém está menos vivo ou sofre ou morre para que um só de vós resista um pouco mais à morte que é de todos e virá. Que tudo isto sabereis serenamente, sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição, e sobretudo sem desapego ou indiferença, ardentemente espero. Tanto sangue, tanta dor, tanta angústia, um dia- mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga -não hão-de ser em vão. Confesso que muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos de opressão e crueldade, hesito por momentos e uma amargura me submerge inconsolável. Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam, quem ressuscita esses milhões, quem restitui não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes aquele instante que não viveram, aquele objecto que não fruíram, aquele gesto de amor, que fariam “amanhã”. E, por isso, o mesmo mundo que criemos nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa que não é nossa, que nos é cedida para a guardarmos respeitosamente em memória do sangue que nos corre nas veias, da nossa carne que foi outra, do amor que outros não amaram porque lho roubaram.

[Jorge de Sena]

quinta-feira, novembro 09, 2006



La Bohéme

Je vous parle d'un temps
Que les moins de vingt ans
ne peuvent pas connaitre
Montmartre em ce temps lá
Accrochait ses lilas
Jusque sous nos fenętres
ne peuvent pas connaitre
Montmartre em ce temps lá
Accrochait ses lilas
Jusque sous nos fenętres
Et si l'humble garni
Qui nous servait de nid
Ne payait pas de mine
C'est la qu'on s'es connu
Moi qui criat famine"

Et si l'humble garni
Qui nous servait de nid
Ne payait pas de mine
C'est la qu'on s'es connu

Moi qui criat famine
Et toi qui posait nue
La bohéme, la bohéme
Ça voulait dire on est heureux
Et toi qui posait nue
La bohčme, la bohčme
Ça voulait dire on est heureux
Nous ne mangions qu'um jour sur deux
Dans les cafés voissins
Nous étions quelques uns

La bohčme, la bohčme
Nous ne mangions qu'um jour sur deux
Dans les cafés voissins
Nous étions quelques uns
Avec le ventre creux
Nous ne cessions d'y croire
Et quand quelque bistrot
Qui attendions la gloire et bien que miséreux
Avec le ventre creux
Nous ne cessions d'y croire
Et quand quelque bistrot
Nous prenait une toile
Nous récitions des vers
Groupés autour du poęle
En oubliant l'hiver"
Contre un bon repas chaud
Nous prenait une toile
Nous récitions des vers
Groupés autour du poęle
En oubliant l'hiver
La bohčme, la bohčme
Ça voulait dire on es jolie
La bohčme, la bohčme"
La bohčme, la bohčme
Ça voulait dire on es jolie

La bohčme, la bohčme

Et nous avions tous du génie
Souvent il m'arrivait
Devant mon chevalet
De passer des nuits blanches
Et nous avions tous du génie
Souvent il m'arrivait
Devant mon chevalet
De passer des nuits blanches
Retouchant le dessin
De la ligne d'un sein
Du galbe d'une hanche
Et ce n'est qu'au matin

Retouchant le dessin
De la ligne d'un sein
Du galbe d'une hanche
Et ce n'est qu'au matin
Qu'on s'asseyait enfin
Devant un Café-Creme
Epuisés mais ravis
Fallait-il que l'on s'aime


Qu'on s'asseyait enfin
Devant un Café-Creme
Epuisés mais ravis
Fallait-il que l'on s'aime
Et qu'on aime la vie
La bohčme, la bohčme
Ça voulait dire on a vingt ans
Et qu'on aime la vie

La bohčme, la bohčme

Ça voulait dire on a vingt ans
Et nous vivions de l'air du temps
Quand au hasard des jours
Je m'en vais faire um tour

La bohčme, la bohčme

Et nous vivions de l'air du temps
Quand au hasard des jours
Je m'en vais faire um tour
Je ne reconnais plus
Ni les murs, ni les rues
Qui out vu ma jeunesse
A mon ancienne adresse
Je ne reconnais plus
Ni les murs, ni les rues
Qui out vu ma jeunesse
En haut dún escalier
Je cherche l'atelier Dont plus rien ne subsiste
Dans son nouveau décor

haut dún escalier
Je cherche l'atelier
Dont plus rien ne subsiste
Dans son nouveau décor
Montmartre semble triste
et les lilas sont morts
La bohčme, la bohčme


Montmartre semble triste
et les lilas sont morts

La bohčme, la bohčme
La bohčme, la bohčme
Ça ne veut plus rien dire du tout
On était jeunes, on était fous
La bohčme, la bohčme
Ça ne veut plus rien dire du tout
Charles Aznavour

segunda-feira, novembro 06, 2006



Golegã

Perde-se no tempo a tradição da Feira Nacional do Cavalo, na Golegã. A pacata vila ribatejana anima-se ao longo de uma semana, albergando milhares de amantes da arte equestre e curiosos visitantes, com a nostalgia do afã da lezíria, doutros tempos. As casas senhoriais abrem-se em festa exibindo resquícios de uma fidalguia marialva enquistada entre a opulência e o bafio.

Coches... carruagens... amazonas, com garbo, trajando à portuguesa e à espanhola... homens metidos em fatos ajustados numa aprumada elegância de toureio, pouco conciliadora com protuberâncias, bandulhos e panças ...chapéus, esporas, chicotes, plainas, safões, abotoaduras... desfiles de moda inalteráveis e afirmados pelos costumes que não os deixam desabitados.

Várias modalidades desportivas se põem em evidência. Organizam-se ralies, raids, jogos equestres, campeonatos, maratonas de carruagens, exibições, concursos, exposições... onde toda a classe de cavaleiros e condutores pode ter cabimento e onde o público mais variado encontra motivo de distracção.

E no centro de tudo isto está a beleza dos enormes atributos do cavalo! A nobreza, a altivez, a inteligência, o porte...predicados que se aliam à excelência e ao apuro com que as coudelarias nacionais vão sabendo preservar as raças, em especial a do cavalo lusitano.

Na Golegã, por estes dias, os carros são substituídos por cavalos e cavaleiros...em cada casa uma tasca.Cocheiras atulhadas, cavalariças e boxes improvisadas, todo o espaço é pouco para dar guarida condigna ao belo quadrúpede.

Entre brumas de chuva e alveiradas de tradição, mescla-se o ar com o cheiro das castanhas assadas e excrementos do digno animal, numa profusão quente de aromas agridoces que nos remontam a épocas medievais.

Que o Tejo se acalme de inundações para que o acesso à vila ribeirinha não tire o prazer aos potenciais visitantes, que no Dique dos Vinte, alagado, encontram obstáculo natural a esta festa que do S. Martinho é cativa.

domingo, novembro 05, 2006



Tanto mar

Compositor, intérprete, dramaturgo e escritor, Chico Buarque é referência obrigatória em qualquer citação à cultura brasileira do nosso tempo.
Fui vê-lo, ontem, ao Coliseu de Lisboa. Levava comigo décadas de admiração, de enorme cumplicidade com os textos e músicas, com que me preencheu a vida, numa dávida ilustre e generosa que só os grandes artistas versam.
E fez-se raíz no palco, como se dele os membros lhe pertencessem. Surgiu estático e estático permaneceu.
Qé dê do moleque...do malandro? Sexagenário sim!Continua lindo! Com novo trabalho soberbo. Sem desmérito! Mas que teve falta de comparência, afastamento, atitude triste e monocórdica. Sem brilho!
Ele que sempre soube mostrar sob ângulos insupeitados as verdades nuas e cruas que encerra o seu Brasil, assim como representações fiéis de nós, com uma atitude de grande comunidador, tocando-nos, mostrou que a voz continua com as mesmas inflexões, com o mesmo timbre e sedução, mas sem expressão, sem companhia!
De cabeça erguida, olhando em frente como se talas invisíveis o imobilizassem, ombros e braços caídos, ou tocando na viola inerte de movimento, assim ficou quase sempre...
No final a exigência dos muitos que, como eu, certamente esperavam mais. E ele deu-se um pouco... e nós abraçámo-lo entre cantares que sabiamos de cor e palmas.
Tanto mar!Tanto mar para navegar e ficámos ancorados no cais sentindo o gostinho da maresia e a ausência da viagem...contigo. Mando-te um cheirinho a alecrim, pá!Por tudo, sempre!

terça-feira, outubro 31, 2006



Noite das Bruxas

O dia foi cansativo e o trabalho deu-me tréguas tarde e a más horas. Sair de casa depois de jornada pontificada de imbróglios parecia-me coisa que necessitava de poção mágica de animação, que em mim sentia ausente.

A água quente que saía do chuveiro, os odores frescos do gel, shampoo e amaciadores fustigaram-me docemente e exorcizaram-me dos nós enlaçados nos nervos e tendões que me tolhiam o corpo.Sem demoras no arranjo, partia com a certeza que sorrisos amigos me esperavam e que justos me absolveriam de penas que as minhas ausências longas me infligem.

Três mulheres de peso ausente de gravidade. Os abraços como esponja esculpida de amizade e de fluidez de entendimento que nos encanta a todos. Reencontros sempre envoltos de uma ternura que fala com palavras sábias de umas, com olhares profundos e cúmplices de outras, com risos, mãos que se colam e que permanecem em dávida, num reiki de sensações e de cura.

Não foi de bruxas, a noite, mas que teve magia, teve!Chegadas à minha vida pela mão de companheiro a tempo inteiro, do"V. Exª, minha senhora"irónico, com que me presentearam quando as dúvidas do atraso na apresentação o justificaram, ei-las, agora, com a doçura dos diminutivos na fala, com os mimos nos gestos e a verdade no coração.

Um homem entre quatro mulheres! Quinteto maravilha que saboreia estes momentos como manjar divino, que tivemos também, no Dom Pepe, que vindo da Madeira assentou arraiais em Santarém, para excelência do palato.

E quando, noite alta, depois da romaria pela "montra de sabores", esvaziámos três garrafas de um espumante de verde vinho, que de Vila Verde, nos chegou, entre "aleluias! " e "mais nada!"despedimo-nos do enfeitiçamento do encontro com promessas- muitas- de novos encontros, ali logo agendados, que vão do Cartaxo à Croácia. Porque seja onde for, gostamos de estar juntos!

Bruxas? Só se foi para ele que entre as quatro se sentiu enfeitiçado! E da abóbora só ficou o doce acompanhamento ao requeijão!

domingo, outubro 29, 2006

Metamorfoses

À meia-noite fico assim...voo noite dentro!
Procuro luzes no escuro
sinais, sons de vida que me acalmem
vagueio à toa no silêncio das palavras escritas
e elas gritam-me sem dó
destroem , corroem, ressuscitam do nada
voláteis invadem-me
percorrem-me
doem-me.
Lamelas de sonho na retina aberta
do nunca a terra encantada
enxergada, vazia
fria
mergulhos de silêncio em rosto cismado
desencantado
mistura de lua com maresia fresca
refresca
enxerto exíguo de asas brilhantes
me pousam nos ombros
elevam-me o ser
e eu sem descanso adormeço.

sábado, outubro 28, 2006

An apple a day keep the doctor away

Depois de um almoço farto vai uma maçã para jantar.

Festival Nacional de Gastronomia de Santarém

Hoje estive em Vieira do Minho sem sair de Santarém. Na Casa do Campino continua a decorrer até dia 5 de Novembro o Festival Nacional de Gastronomia, um santuário obrigatório para quem gosta da boa comida portuguesa.

sexta-feira, outubro 27, 2006


Goteira

Nestes dias em que as chuvadas têm sido constantes e tumultuosas, em que o meu rio Tejo corre em caudal abundante de lés-a-lés, farto e gordo, avisa a Protecção Cívil que tenhamos as goteiras de nossas casas bem limpas e desimpedidas dos detritos que se vão acumulando durante as estações mais secas. Chegada a emergência da hora, copiosa e torrencial, é ver soldados da paz ajudando inquilinos descuidados de limpezas exteriores.
Venha chuva! Goteiras limpas, calhas desobstruídas, telhas em bom estado, sentia-me segura na casa que me abriga e onde a beleza nostálgica destes dias me remete para confortos outonais para aprazimento meu.
Não fosse aquela dor junto ao ouvido, aquela dificuldade em comer, em bocejar, indispensável ao relaxamento e entrega ao aconchego do lar, e tudo estaria bem por aqui. Mas não! Tinha uma nascente de dor, que se manifestava com arrogante inchaço interior e, insistente como a chuva, precisou de uma goteira. Sim, tenho uma goteira na boca!

"A articulação temporomandibular (ATM) é uma articulação que desliza e roda mesmo à frente do ouvido e que é formada pelo osso temporal (lado e base do crânio) e pela mandíbula (maxilar inferior). Os músculos de mastigação unem o maxilar inferior ao crânio, permitindo-lhe mover a mandíbula para a frente e para o lado e abrir e fechar a boca.A articulação funciona adequadamente quando o maxilar inferior e as suas junções (direita e esquerda) estão sincronizados durante o movimento".

Ao que parece andarei muito stressada( mas porquê? A vida dos professores dizem ser tão calma!) e, possivelmente, durmo com os maxilares cerrados involuntariamente o que terá descompensado a articulação. O dentista ainda me disse para andar, de dia, com a língua entre os dentes, mas eu não vou nessa! Ainda me mordia e morria envenenada!

Pois agora uso uma goteira oclusiva para me proteger os dentes de tal incómodo e incomodada ando com esta calha na boca, que embora invisível pela transparência, à fala deu nova inflexão. Belfa! Sopinha de massa! Assim ando eu!

terça-feira, outubro 24, 2006



Caixa forte

Vejo-as passar. Encantam-me pela ligeireza que concedem a quem ao ombro ou na mão as segura. Leves, minimalistas, arrumadas. Imagino-lhes os interiores perfeitos de ordem e de esmero. Como se possuíssem inteligência e à linguagem das donas não fossem estranhas, fornecem tudo com uma facilidade irrepreensivelmente competente. Prestáveis, servidoras, funcionais. À toillete dou mirada rápida... mas atenta!, não se me vá escapar algum detalhe em voga, mas onde me detenho boquiaberta é nelas. Diversidade nos tons, nas formas, nos materiais. Inovação estética constante e tentadora. Dão toque graduado a quem delas desfruta, pela graça, elegância e... excelência do tamanho.
Tanta competência incita-me à inveja e ao uso.Procuro-as. Revolvo-lhes em movimentos ansiosos as entranhas à procura de passagens secretas para dispensas, caves,túneis, subterrâneos... mas não são visíveis aos meus olhos, nem detectáveis pelas minhas mãos! Nunca serão para mim!
Malinhas de mão pequenas, femininas e lindas de morrer... desabridamente não, obrigada!
Preciso de espaço para pôr tudo o que me é imprescindível: chaves da escola, de carros, de casas daqui e dali, amuletos, agenda, telemóvel, tabaco, pinça, fio-dentário, pastilhas, barras energéticas, garrafa de água, a maçã, os batons, lenços, toalhetes, a carteira recheada de papéis e cartões desnecessários... e eu carregada, torcida, oblíqua, pendular, perdida... sempre, nas arrecadações e armazéns da minha caixa-forte.

segunda-feira, outubro 23, 2006



Ecos do passado

Passado, presente, futuro. Linha cronológica de tempo que atravessamos registando o que vale a pena lembrar, glorificante ou não. O passado é tudo o que temos na nossa história, o que fez de nós o ser de que somos formados e com quem mais intimamente vivemos, com quem dialogamos tantas vezes em silêncio, em monólogos enquistados na procura de sentidos e de redireccionamentos. É nele que bebemos a sabedoria e o senso do momento. De quem se cruzou connosco ficam as marcas da passagem, anotações de grafia intrínseca, mais cuidada ou rabiscada conforme o merecimento do acontecido. Mas a história é a nossa e não devia ser vivida em função da dos outros.

Quantas vezes nos tornamos secundários quando era nosso o papel principal? Quantas vezes deixamos para os outros a escolha do nosso presente, descorando o futuro? Não nos sentindo anulados. Espanto! Mas entendendo que a mim tudo me é suportável e relativo enquanto que para os demais, e falo aqui dos que me são mais próximos e queridos, transcende o inaceitável de forma dolorosa e fermente.

Mas que lucidez insana é esta que me atravessa? Que calma é esta, que nos momentos de crise me faz pausar a voz em meditação na procura da saída, não repisando o olhar para o que de feito não tem remédio. Que sangue me corre nas veias? Serei barata travestida de mulher? Às pisadelas não dou reputação nem assentimento, pois não me sentindo vergada, esbarram na minha integridade sem nódoa de indiferença em mim, mas alongando-me, dúctil, na doçura do perdão.

Não sou deste mundo já!

domingo, outubro 22, 2006



Sonho

Do inconsciente tunante vem-me o mergulho na água pura e cristalina. Morna e serena de tumultos. Numa apaziguadora descoberta de ser guelras o que possuo no corpo, adapto-me ao meio. Como se ao mergulhar metamerfoses internas me mostrassem que me sinto como peixe na água. Dentro ou fora dela?Dentro ou fora de mim? Conjunto de idéias confusas e disparatadas, que durante o sono, se apresentam ao espírito em forma de fantasias, medos, utopias, aspirações.

"Água clara e calma garante a tranquilidade do momento actual, já água turva designa dificuldades a serem vencidas. Quando, além de turva, a água estiver agitada é aconselhável que se evite discussões desnecessárias, pois o resultado poderá levar ao rompimento de amizades ou amores. Se tomava banho e a água estava numa temperatura agradável - morna ou quente - pode contar com amigos sinceros; mas se provocar incómodo ou dor é possível que venha acontecer rompimentos. Se você nadava em águas calmas, espere comunicação de aumento salarial ou uma viagem, há tempos desejada , acontecerá."

Assim, aparentemente, não tenho nada a temer. Mas falta-me a interpretação freudiana para me dar mais sustento à convicção. Neste dia salpicado de chuva e de vento um sofá e psicanálise vinham a calhar.

sábado, outubro 21, 2006

Aos meus amigos

Mail vadio que nos soca o estômago em dias cinzentos.

"Um dia, a maioria de nós, irá separar-se. Sentiremos saudades de todas as conversas jogadas fora, das descobertas que fizemos, dos sonhos que tivemos, dos risos e momentos que compartilhamos. Saudades até dos momentos de lágrima, da angústia, das vésperas de finais de semana, de finais de ano, enfim... do companheirismo vivido.
Sempre pensei que as amizades continuassem para sempre. Hoje não tenho mais tanta certeza disso. Em breve cada um vai pra seu lado, seja pelo destino, ou por algum desentendimento, segue a sua vida, talvez continuemos a nos encontrar quem sabe...... nos e-mails trocados.
Podemo-nos telefonar, conversar algumas bobagens.... Aí os dias vão passar, meses...anos... até este contacto se tornar cada vez mais raro. Vamo-nos perder no tempo....Um dia nossos filhos verão aquelas fotografias e perguntarão? Quem são aquelas pessoas? Diremos...que eram nossos amigos. E...... isso vai doer tanto!
Foram meus amigos, foi com eles que vivi os melhores anos de minha vida! A saudade vai apertar bem dentro do peito. Vai dar uma vontade de ligar, ouvir aquelas vozes novamente...... Quando o nosso grupo estiver incompleto... nos reuniremos para um último adeus de um amigo. E entre lágrimas nos abraçaremos. Faremos promessas de nos encontrarmos mais vezes daquele dia em diante. Por fim, cada um vai para o seu lado para continuar a viver a sua vidinha isolada do passado.E nos perderemos no tempo.....
Por isso, fica aqui um pedido desta humilde amiga : não deixes que a vida passe em branco, e que pequenas adversidades sejam a causa de grandes tempestades...Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!"

[Just silence]

quinta-feira, outubro 19, 2006


Em desespero fui à taberna

Possuiu-me. De dia ou de noite não me larga o corpo. Sou sua enquanto quiser, já percebi! Faço de tudo para que me deixe, me abandone, mas a sua insistência não me dá descanso. Na cama, sacode-me, faz-me contorcer, acelera-me os batimentos cardíacos, descompassa-me a respiração. Atiro com a roupa para trás ...preciso de ar. De dia, vergasta-me com a fúria de um tornado em movimentos cíclicos de pôr a cabeça à roda. Pudera...480 Km/h!
Estou em brasa, febril...da fúria da tosse!

"A tosse é uma contração espasmódica, repentina e quase sempre repetitiva da cavidade torácica, resultando em uma violenta liberação de ar dos pulmões, e sempre acompanhadas por um som distintivo. Uma tosse é sempre iniciada para limpar uma formação de fleuma (muco) na traquéia; o ar pode se mover por esta passagem até a 480 km/hA tosse é um reflexo extremamente útil, que permite limpar o tracto respiratório (laringe, traqueia e brônquios) de substâncias estranhas ou irritantes."(Wikipédia)
Em desespero de causa travei a fundo, projectada que ia por um ataque de tosse e fui à taberna. "Quero matar o bicho que me consome por dentro!" e, entre delírios da tosse e da aguardente ouvi alguém dizer: "Fuma mais!"
Aceitam-se mezinhas!

quarta-feira, outubro 18, 2006

Pranto no breto

Ficha da Caixa, vinheta da ADSE, quando a bota não bate c'a perdigota quem sofre é o Zé. Pagas não pagas e voltas p'ra dar dás-lhes o dinheiro e toca a marchar. Seguro inseguro será que dará?, arrota pelintra por agora já está! Malas cavalinho com cara de burro, relincha, zurra ou então fica mudo. Mudo mudastea, icetea ficou, goela refresca e ice não precisou. Obrigadas, obrigadinhas, obrigadésimas, obrigadar de tanto volteio já está a enjoar. Enjoa, enoja e dá que pensar, gato esticado c'as tripas ao ar. Quem te pisou não houvera de travar ou sentido-rato tinha o miar. Voo de pássaro de mergulho prenho, não fujas ratinho que já eu te apanho. De bandulho cheio piou alegrado, o gato estendido e o rato papado. Petisco rabisco na vinha desavinhada , quem te avinhou chama à terra amada. Ligas, não ligas, desligada ficou, palavras não ditas ninguém adivinhou. Chove não chove vento na janela, água pingada sopas na tigela. Quentinha c'a tosse dela precisou, mel das abelhas que a tosse aguçou. Camisola branca de azul ficou, salpicos de tinta a dona amuou. Dia da gaita sem pingo de glória, pim...pam...pum...acabou-se a história.

segunda-feira, outubro 16, 2006

Gustave Doré

Divina Comédia?!Quase.

..." E eis que, ao subir da encosta, estava alerta

UMA ÁGIL ONÇA PRESTE NO SEU POSTO,

que de pêlo malhado era coberta;

e sem sair da frente de meu rosto,

tanto impedia aquele meu destino,

que a vir-me embora me senti disposto."

Dante

Correndo o risco de estar a ser dramática, sinal do estado pleno de revolta, assim vejo a vida dos professores, neste momento.

domingo, outubro 15, 2006

Carlos Reis
Engomadeiras

Hoje acordei assim. Com um prolongamento de ferro no braço direito. De ferro já só têm o nome, que eles agora são feitos de ligas leves para facilitar a tarefa! A música ou a televisão para preenchimento dos neurónios e alisamento das rugas que se cravam no meio da testa minimizam a monotonia do trabalho.E mãos à obra! Se à música damos ouvidos, do ferro fazemos bailarino do Bolshoi em coreografias rebuscadas percorrendo o palco da tábua, envolto em nuvens de fumo para criar um ambiente místico a condizer com a melodia. Se da televisão vem a distracção do momento...depende. Hoje andei com os Gatos Fedorentos em busca do sítio "onde se encontram gajas boas, memo boas, daquelas memo munta boas, que um gajo olha e diz : eh, pá! São memo munta boas!"Não cheguei a sitiá-las. Eles também não. Afinal a gaja boa que eles viram era uma bichona. Acontece!

Mas para entretenimento dei por mim cantarolando "Água fria da ribeira, água fria que o sol aqueceu....seis corpetes, um avental, sete fronhas e um lençol, seis camisas..." Um enxoval completo!

Lembrei-me das trouxas de roupa que mulherões de antigamente, levavam à cabeça ou em carroças, para os lavadouros municipais e para as valas e ribeiras. As mulheres daquele tempo sabiam caminhar numa postura correctíssima, à força de transportarem fosse o que fosse em cima de uma rodilha. Tinha técnica a rodilha, tecida que era no tear dos dedos e, no remate, a arte de resistir à caminhada árdua. Sempre alegres, faceiras, de rosto corado pelo sol. Cantarolando ao desafio, enquanto a roupa corava.

Tudo lhes saía do corpo num esforço desmesurado, sem máquinas de lavar, sem secadores de roupa, sem ferros eléctricos com caldeira e a vapor, com borrifadores integrados. O duro trabalho agrícola, desde a infância, pacificou-as na obediência, sacrifício, madrugadas, labores de sol a sol.

Roupa dobrada e borrifada, brasas no ferro, era pela calada da noite, enquanto todos dormiam, que passavam a roupa alva de brancura, em cima de mesas acolchoadas de cobertores velhos que amparavam os tecidos e suavizavam a passagem do ferro. Era na valentia de carácter que se distinguiam.

Tenho de ligar ao Ricardo Araújo...afinal já sei onde se encontram as mulheres boas, mesmo muito boas, que só de pensar nelas acho que foram do melhor!

sábado, outubro 14, 2006


Leve acordar

A beleza outonal com que o dia amanheceu pede saída de casa, em busca de carícias paisagísticas para a vista e para a alma. Acordo cedo sem o motim dos trins que durante a semana brigam comigo e levam a melhor apesar de me entartarugar na carpaça quentinha que me cobre o corpo. Sei de cor a dureza que exercem em mim esses despertares indesejados. Mas, chegado o fim-de-semana, espreito o dia quando o corpo rejeita a cama, inacreditavelmente cedo, para poder sorrrir a seguir e, pensar entre espreguiçadelas e aconchegos, que o tempo pode esperar um pouco por mim. Perco parte do dia, mas ganho em disposição e sossego de espírito.

A rotina matinal altera-se e, fora dos prazos para fazer as tarefas, reencontro prazeres renovados que me alimentam a paz. Primeiro, a volta à casa para perscrutar quem sempre se me adianta na alvorada. Ronronares de mimos fazem-se sentir em linguagens que só o afecto conhece. Comunicação e idioma universais que dispensam legendas e esclarecimentos ficando das figuras tristes o estilo. Logo de seguida, o cão espera uma dose do mesmo. Merecida para quem velou, toda a noite, pela segurança do lar, afastando indesejadas visitas só com a sua voz de trovão, avisando corpanzil majestoso. Dá para o gasto, fica a mais-valia da ternura.

Subo a escada-caracol que me encaminha ao sotão [abrigo meu] e abro a porta-janela que me desvenda a lezíria a meus pés. Os tons acobreados vestem-na de luz e beleza e a frescura da manhã tonifica-me os sentidos. Sente-se uma cedência terna do Verão em concílios assertivos com o Outono que se instala mansamente.

Vou sair e olhar mais de perto as mesclas escarlate das castas tintas. Da paleta outonal a cor que mais me seduz e fascina.

sexta-feira, outubro 13, 2006

"A salto" à cidade
Morava num rés-do-chão alto. Habitação social fora o que conseguira quando chegou à cidade. Na mala de cartão, as posses de quem pouco tem, mas transbordando a vontade, a intenção e o ânimo, no coração apertado entre o receio e o desejo de vencer.
De longe lhe chegam ainda os ecos das vozes persuasivas e avisadas da mãe. A grande cidade e o instigar estimulante e traiçoeiro das suas entranhas. Filha de amores serviçais a que a mãe se entregara quando interna ficara como criada, nos tempos da sua juventude, sabia do que falava a idosa de olhos tristes e ausentes, que ficara para trás.
Uma vida sem histórias masculinas para contar, pela ausência de pai que nunca conhecera e que a afugentou ainda no ventre materno, expiando logo ali as culpas de desejos alheios e cobardes. Ficara-lhe aquele ar macio e sedoso que constratava com as feições robustas e rudes que da família materna eram matriz. Viva e ladina, distinta nas maneiras que a mãe soube observar e cuidar para o seu rebento, encantava os olhares de quem a enxergava.
Só os pés de sola e lixa denunciavam origem e os caminhos calcorreados entre valados, na companhia pachorrenta dos animais que levava e trazia do pastoreio.
As faces que nos ares puros da serrania, ganharam as cores vivas da saúde, permaneciam rubras de exaltação pela vinda à descoberta do não reconhecido e estranhado, negando ainda os ares salobres da cidade.
Trazia no corpo de menina um fato rebuscado no baú materno, entre lágrimas e lembranças. Recordação duma avó que nunca a vira a ela, nem rumos tivera quanto ao fato que desapareceu naquele dia em que lhe anunciaram a descendência indesejada.
O trabalho doméstico que lhe prometiam era livre de assédios para descanso da mãe. E aquele homem do táxi tão prestável e simpático, a disponibilizar-se para qualquer ajuda na descoberta da Invicta. Sentia-se protegida. A mãe podia dormir descansada. A história não se repetiria.

segunda-feira, outubro 09, 2006




Praga...sonho de pedra


Ainda a descer do avião... a desfazer as malas de roupas e memórias ...
Praga! Uma cidade das mais lindas que conheci até hoje a encher-me de vontade de voltar!
Do seu castelo de conto de fadas à sumptuosidade dos monumentos que se descobrem a cada esquina; da sua imponente arquitectura imperial à beleza de ruelas românticas...uma conjunção de estilos e harmonia invejáveis.



domingo, outubro 01, 2006



Matança do porco

Só tenho um cão. Mas já tive muitos cães, gatos, porquinhos da índia, carneiros, ovelhas, cabras, cabritinhos lindos, burros, éguas, mulas, cavalos, galinhas, patos, vacas e... porcos( desculpem-me se esqueci alguns, mas a memória não perdoa). A muitos vi-os nascer, alimentei outros tantos com biberons e seringas, cantava-lhes músicas de embalar para os sossegar, embrulhava-os em cobertores quentinhos quando o rigor do tempo me tingia de dor só de pensar que os animais não podem vestir abafo, embora fosse uma tarefa árdua e de pouco proveito pela ingratidão demonstrada. Brincava com todos eles com uma alegria maior que eu. Cresci vendo crescer animais à minha volta. Adoro-os.

As matanças dos porcos eram uma festa um pouco enlutada para mim. Reunia-se a família toda à volta do porco e mais tarde da mesa. Os homens madrugavam para tratarem da saúde ao suíno e ele grunhindo parecia chamar por mim. Escondia-me. Não o queria olhar nos olhos. Sentia-me cobarde por não agir e me interpor entre ele e o facalhão afiado que o esperava. Os mulherões da família riam-se de mim e o tio João, sensível a estes sofreres, chamava-me para o seu colo e explicava-me a cadeia alimentar de uma forma simples e doce que me aliviava a alma cingida no corpo pequeno. Depois enchia a bexiga do bicho e vinha dar-ma para eu jogar à bola com a criançada. Receosa, primeiro, depressa me entregava ao prazer da brincadeira. Não gostava de ver o bicho desventrado e dependurado, ali o dia todo, mas fui enrijando as emoções embora, ainda hoje, tenha dificuldades em assistir a estes rituais da morte.

Não gosto de animais!- disse-me ela na matança do porco. Amareleceu-me o sorriso. Apeteceu-me tirar-lhe da frente o prato cheio à ganância de carne e enchidos e mandá-la comer couves. Não gosta não come!