



Hoje, vou estar por aqui!
Maria Albertina




Notícias do beco(3)-Mails
Reparem no estado a que chegou a minha caixa de correio!Não tivesse eu dois gigas de espaço para armazenar tanta correspondência e, as cartas atapetariam a vizinhança. Fico espantada com os novecentos mails que tenho por abrir e que certamnete nunca mais lerei. Desculpas públicas a quem tão carinhosamente mos envia. Apresentem reclamação à Lurdinhas. Tempo livre? Só para dormir.Mas pouco! Se houver, neste momento, professores que estejam a fazer menos de 40 horas semanais dentro da escola, apresentem-se.



Notícias do Beco (2)
As minhas cegonhas voltaram. Sem o filhote. Segundo especialista da área já deve ter ido para a tropa ou então foi ver o Gato Fedorento e foi raptado pela Floribela.

Vamos ...é domingo!
Vamos a hacer limpieza general
Vamos hacer limpieza general
y vamos a tirar todas las cosas
que no nos sirven para nada, esas
cosas que ya no utilizamos , esas
otras que no hacen más que coger polvo
las que nos hacen daño, ocupan sitio
o no quisimos nunca tener cerca.
Vamos a hacer limpieza general
o, mejor todavia, una mudanza
que nos permitea abandonar las cosas
sin tocarlas siquiera, sin mancharnos
dejándolas donde han estado siempre;
vamos a irmos nosotros, vida mia,
para empezar a acumular de nuevo.
O vamos a prenderle fuego a todo
y a quedarnos en paz, con esa imagen
de las brasas del mundo ante los ojos
y con el corazón deshabitado.
* Para um casal de amigos
Amalia Bautista
«Martinho de Tours (São) -Bispo de Tours (n. actual Szambatkely, Hungria, 316 ou 317- m. Candes, França, 8.11.397).
Filho de um oficial do exército romano e nascido num posto militar fronteiriço, após estudos humanísticos, em Pavia, aos 16 anos entrou para o exército quando já a sua vontade o inclinava a fazer-se monge (aos 10 anos inscrevera-se como catecúmeno).
Em breve ganhou fama de taumaturgo.Em Amiens, provavelmente em 338, durante uma ronda nocturna no rigor do Inverno encontrou um pobre seminu: não tendo à mão dinheiro para lhe valer, com a espada dividiu ao meio a sua clâmide que repartiu com o desconhecido.
Na noite seguinte, em sonhos, viu Jesus, que disse:"Martinho, apesar de somente catecúmeno, cobriu-me com a sua capa."
Recebeu o baptismo na Páscoa de 339, continuando como oficial da guarda imperial até aos 40 anos. Abandonando a vida castrense, foi ter com Sto. Hilário de Poitiers, que lhe conferiu ordens sacras e lhe deu possibilidade de levar vida monacal: nasceu, assim, o famoso Mosteiro de Ligugé.
Eleito, por aclamação, bispo de Tours, foi sagrado provavelmente a 4.7.371.Ardente propagador de fé, fundou, em Marmoutier, um mosteiro donde sairam notáveis missionários e reformadores. Demoliu templos pagãos e levantou mosteiros como sustentáculos da evangelização.
Humilde e pacífico, manteve a sua independência perante o abuso da autoridade civil.O fascínio das suas virtudes radicadas na generosidade do seu zelo, na nobreza de caracter e, sobretudo, na sua bondade ilimitada mantida para alem da morte na prodigalidade dos seus milagres, magnificamente descritas pelo seu discipulo Sulpício Severo, fez com que S. M. T. fosse durante muitos séculos o santo mais popular da Europa Ocidental. A sua memória litúrgica é a 11 de Novembro.»
Oliveira, Alves de- "Martinho de Tours (São)", Enciclopédia Luso- Brasileira de Cultura, vol. 13 (Editorial Verbo)



Golegã
Perde-se no tempo a tradição da Feira Nacional do Cavalo, na Golegã. A pacata vila ribatejana anima-se ao longo de uma semana, albergando milhares de amantes da arte equestre e curiosos visitantes, com a nostalgia do afã da lezíria, doutros tempos. As casas senhoriais abrem-se em festa exibindo resquícios de uma fidalguia marialva enquistada entre a opulência e o bafio.
Coches... carruagens... amazonas, com garbo, trajando à portuguesa e à espanhola... homens metidos em fatos ajustados numa aprumada elegância de toureio, pouco conciliadora com protuberâncias, bandulhos e panças ...chapéus, esporas, chicotes, plainas, safões, abotoaduras... desfiles de moda inalteráveis e afirmados pelos costumes que não os deixam desabitados.
Várias modalidades desportivas se põem em evidência. Organizam-se ralies, raids, jogos equestres, campeonatos, maratonas de carruagens, exibições, concursos, exposições... onde toda a classe de cavaleiros e condutores pode ter cabimento e onde o público mais variado encontra motivo de distracção.
E no centro de tudo isto está a beleza dos enormes atributos do cavalo! A nobreza, a altivez, a inteligência, o porte...predicados que se aliam à excelência e ao apuro com que as coudelarias nacionais vão sabendo preservar as raças, em especial a do cavalo lusitano.
Na Golegã, por estes dias, os carros são substituídos por cavalos e cavaleiros...em cada casa uma tasca.Cocheiras atulhadas, cavalariças e boxes improvisadas, todo o espaço é pouco para dar guarida condigna ao belo quadrúpede.
Entre brumas de chuva e alveiradas de tradição, mescla-se o ar com o cheiro das castanhas assadas e excrementos do digno animal, numa profusão quente de aromas agridoces que nos remontam a épocas medievais.
Que o Tejo se acalme de inundações para que o acesso à vila ribeirinha não tire o prazer aos potenciais visitantes, que no Dique dos Vinte, alagado, encontram obstáculo natural a esta festa que do S. Martinho é cativa.


Noite das Bruxas
O dia foi cansativo e o trabalho deu-me tréguas tarde e a más horas. Sair de casa depois de jornada pontificada de imbróglios parecia-me coisa que necessitava de poção mágica de animação, que em mim sentia ausente.
A água quente que saía do chuveiro, os odores frescos do gel, shampoo e amaciadores fustigaram-me docemente e exorcizaram-me dos nós enlaçados nos nervos e tendões que me tolhiam o corpo.Sem demoras no arranjo, partia com a certeza que sorrisos amigos me esperavam e que justos me absolveriam de penas que as minhas ausências longas me infligem.
Três mulheres de peso ausente de gravidade. Os abraços como esponja esculpida de amizade e de fluidez de entendimento que nos encanta a todos. Reencontros sempre envoltos de uma ternura que fala com palavras sábias de umas, com olhares profundos e cúmplices de outras, com risos, mãos que se colam e que permanecem em dávida, num reiki de sensações e de cura.
Não foi de bruxas, a noite, mas que teve magia, teve!Chegadas à minha vida pela mão de companheiro a tempo inteiro, do"V. Exª, minha senhora"irónico, com que me presentearam quando as dúvidas do atraso na apresentação o justificaram, ei-las, agora, com a doçura dos diminutivos na fala, com os mimos nos gestos e a verdade no coração.
Um homem entre quatro mulheres! Quinteto maravilha que saboreia estes momentos como manjar divino, que tivemos também, no Dom Pepe, que vindo da Madeira assentou arraiais em Santarém, para excelência do palato.
E quando, noite alta, depois da romaria pela "montra de sabores", esvaziámos três garrafas de um espumante de verde vinho, que de Vila Verde, nos chegou, entre "aleluias! " e "mais nada!"despedimo-nos do enfeitiçamento do encontro com promessas- muitas- de novos encontros, ali logo agendados, que vão do Cartaxo à Croácia. Porque seja onde for, gostamos de estar juntos!
Bruxas? Só se foi para ele que entre as quatro se sentiu enfeitiçado! E da abóbora só ficou o doce acompanhamento ao requeijão!

"A articulação temporomandibular (ATM) é uma articulação que desliza e roda mesmo à frente do ouvido e que é formada pelo osso temporal (lado e base do crânio) e pela mandíbula (maxilar inferior). Os músculos de mastigação unem o maxilar inferior ao crânio, permitindo-lhe mover a mandíbula para a frente e para o lado e abrir e fechar a boca.A articulação funciona adequadamente quando o maxilar inferior e as suas junções (direita e esquerda) estão sincronizados durante o movimento".
Ao que parece andarei muito stressada( mas porquê? A vida dos professores dizem ser tão calma!) e, possivelmente, durmo com os maxilares cerrados involuntariamente o que terá descompensado a articulação. O dentista ainda me disse para andar, de dia, com a língua entre os dentes, mas eu não vou nessa! Ainda me mordia e morria envenenada!
Pois agora uso uma goteira oclusiva para me proteger os dentes de tal incómodo e incomodada ando com esta calha na boca, que embora invisível pela transparência, à fala deu nova inflexão. Belfa! Sopinha de massa! Assim ando eu!


Ecos do passado
Passado, presente, futuro. Linha cronológica de tempo que atravessamos registando o que vale a pena lembrar, glorificante ou não. O passado é tudo o que temos na nossa história, o que fez de nós o ser de que somos formados e com quem mais intimamente vivemos, com quem dialogamos tantas vezes em silêncio, em monólogos enquistados na procura de sentidos e de redireccionamentos. É nele que bebemos a sabedoria e o senso do momento. De quem se cruzou connosco ficam as marcas da passagem, anotações de grafia intrínseca, mais cuidada ou rabiscada conforme o merecimento do acontecido. Mas a história é a nossa e não devia ser vivida em função da dos outros.
Quantas vezes nos tornamos secundários quando era nosso o papel principal? Quantas vezes deixamos para os outros a escolha do nosso presente, descorando o futuro? Não nos sentindo anulados. Espanto! Mas entendendo que a mim tudo me é suportável e relativo enquanto que para os demais, e falo aqui dos que me são mais próximos e queridos, transcende o inaceitável de forma dolorosa e fermente.
Mas que lucidez insana é esta que me atravessa? Que calma é esta, que nos momentos de crise me faz pausar a voz em meditação na procura da saída, não repisando o olhar para o que de feito não tem remédio. Que sangue me corre nas veias? Serei barata travestida de mulher? Às pisadelas não dou reputação nem assentimento, pois não me sentindo vergada, esbarram na minha integridade sem nódoa de indiferença em mim, mas alongando-me, dúctil, na doçura do perdão.
Não sou deste mundo já!

Sonho
Do inconsciente tunante vem-me o mergulho na água pura e cristalina. Morna e serena de tumultos. Numa apaziguadora descoberta de ser guelras o que possuo no corpo, adapto-me ao meio. Como se ao mergulhar metamerfoses internas me mostrassem que me sinto como peixe na água. Dentro ou fora dela?Dentro ou fora de mim? Conjunto de idéias confusas e disparatadas, que durante o sono, se apresentam ao espírito em forma de fantasias, medos, utopias, aspirações.
"Água clara e calma garante a tranquilidade do momento actual, já água turva designa dificuldades a serem vencidas. Quando, além de turva, a água estiver agitada é aconselhável que se evite discussões desnecessárias, pois o resultado poderá levar ao rompimento de amizades ou amores. Se tomava banho e a água estava numa temperatura agradável - morna ou quente - pode contar com amigos sinceros; mas se provocar incómodo ou dor é possível que venha acontecer rompimentos. Se você nadava em águas calmas, espere comunicação de aumento salarial ou uma viagem, há tempos desejada , acontecerá."
Assim, aparentemente, não tenho nada a temer. Mas falta-me a interpretação freudiana para me dar mais sustento à convicção. Neste dia salpicado de chuva e de vento um sofá e psicanálise vinham a calhar.
Aos meus amigos
..." E eis que, ao subir da encosta, estava alerta
UMA ÁGIL ONÇA PRESTE NO SEU POSTO,
que de pêlo malhado era coberta;
e sem sair da frente de meu rosto,
tanto impedia aquele meu destino,
que a vir-me embora me senti disposto."
Dante
Correndo o risco de estar a ser dramática, sinal do estado pleno de revolta, assim vejo a vida dos professores, neste momento.
Hoje acordei assim. Com um prolongamento de ferro no braço direito. De ferro já só têm o nome, que eles agora são feitos de ligas leves para facilitar a tarefa! A música ou a televisão para preenchimento dos neurónios e alisamento das rugas que se cravam no meio da testa minimizam a monotonia do trabalho.E mãos à obra! Se à música damos ouvidos, do ferro fazemos bailarino do Bolshoi em coreografias rebuscadas percorrendo o palco da tábua, envolto em nuvens de fumo para criar um ambiente místico a condizer com a melodia. Se da televisão vem a distracção do momento...depende. Hoje andei com os Gatos Fedorentos em busca do sítio "onde se encontram gajas boas, memo boas, daquelas memo munta boas, que um gajo olha e diz : eh, pá! São memo munta boas!"Não cheguei a sitiá-las. Eles também não. Afinal a gaja boa que eles viram era uma bichona. Acontece!
Mas para entretenimento dei por mim cantarolando "Água fria da ribeira, água fria que o sol aqueceu....seis corpetes, um avental, sete fronhas e um lençol, seis camisas..." Um enxoval completo!
Lembrei-me das trouxas de roupa que mulherões de antigamente, levavam à cabeça ou em carroças, para os lavadouros municipais e para as valas e ribeiras. As mulheres daquele tempo sabiam caminhar numa postura correctíssima, à força de transportarem fosse o que fosse em cima de uma rodilha. Tinha técnica a rodilha, tecida que era no tear dos dedos e, no remate, a arte de resistir à caminhada árdua. Sempre alegres, faceiras, de rosto corado pelo sol. Cantarolando ao desafio, enquanto a roupa corava.
Tudo lhes saía do corpo num esforço desmesurado, sem máquinas de lavar, sem secadores de roupa, sem ferros eléctricos com caldeira e a vapor, com borrifadores integrados. O duro trabalho agrícola, desde a infância, pacificou-as na obediência, sacrifício, madrugadas, labores de sol a sol.
Roupa dobrada e borrifada, brasas no ferro, era pela calada da noite, enquanto todos dormiam, que passavam a roupa alva de brancura, em cima de mesas acolchoadas de cobertores velhos que amparavam os tecidos e suavizavam a passagem do ferro. Era na valentia de carácter que se distinguiam.
Tenho de ligar ao Ricardo Araújo...afinal já sei onde se encontram as mulheres boas, mesmo muito boas, que só de pensar nelas acho que foram do melhor!

A rotina matinal altera-se e, fora dos prazos para fazer as tarefas, reencontro prazeres renovados que me alimentam a paz. Primeiro, a volta à casa para perscrutar quem sempre se me adianta na alvorada. Ronronares de mimos fazem-se sentir em linguagens que só o afecto conhece. Comunicação e idioma universais que dispensam legendas e esclarecimentos ficando das figuras tristes o estilo. Logo de seguida, o cão espera uma dose do mesmo. Merecida para quem velou, toda a noite, pela segurança do lar, afastando indesejadas visitas só com a sua voz de trovão, avisando corpanzil majestoso. Dá para o gasto, fica a mais-valia da ternura.
Subo a escada-caracol que me encaminha ao sotão [abrigo meu] e abro a porta-janela que me desvenda a lezíria a meus pés. Os tons acobreados vestem-na de luz e beleza e a frescura da manhã tonifica-me os sentidos. Sente-se uma cedência terna do Verão em concílios assertivos com o Outono que se instala mansamente.
Vou sair e olhar mais de perto as mesclas escarlate das castas tintas. Da paleta outonal a cor que mais me seduz e fascina.


Matança do porco
Só tenho um cão. Mas já tive muitos cães, gatos, porquinhos da índia, carneiros, ovelhas, cabras, cabritinhos lindos, burros, éguas, mulas, cavalos, galinhas, patos, vacas e... porcos( desculpem-me se esqueci alguns, mas a memória não perdoa). A muitos vi-os nascer, alimentei outros tantos com biberons e seringas, cantava-lhes músicas de embalar para os sossegar, embrulhava-os em cobertores quentinhos quando o rigor do tempo me tingia de dor só de pensar que os animais não podem vestir abafo, embora fosse uma tarefa árdua e de pouco proveito pela ingratidão demonstrada. Brincava com todos eles com uma alegria maior que eu. Cresci vendo crescer animais à minha volta. Adoro-os.
As matanças dos porcos eram uma festa um pouco enlutada para mim. Reunia-se a família toda à volta do porco e mais tarde da mesa. Os homens madrugavam para tratarem da saúde ao suíno e ele grunhindo parecia chamar por mim. Escondia-me. Não o queria olhar nos olhos. Sentia-me cobarde por não agir e me interpor entre ele e o facalhão afiado que o esperava. Os mulherões da família riam-se de mim e o tio João, sensível a estes sofreres, chamava-me para o seu colo e explicava-me a cadeia alimentar de uma forma simples e doce que me aliviava a alma cingida no corpo pequeno. Depois enchia a bexiga do bicho e vinha dar-ma para eu jogar à bola com a criançada. Receosa, primeiro, depressa me entregava ao prazer da brincadeira. Não gostava de ver o bicho desventrado e dependurado, ali o dia todo, mas fui enrijando as emoções embora, ainda hoje, tenha dificuldades em assistir a estes rituais da morte.
Não gosto de animais!- disse-me ela na matança do porco. Amareleceu-me o sorriso. Apeteceu-me tirar-lhe da frente o prato cheio à ganância de carne e enchidos e mandá-la comer couves. Não gosta não come!

Quadros de Excelência
Peguei-os ao colo. Ensinei-os a ler. Vigiei-lhes os primeiros passos incertos e receosos na significante descoberta de argolas e arquinhos que simbolizavam as palavras mais doces que conheciam. Enternecia-me ao vê-los de lápis na mão e língua de fora no esforço e na procura da perfeição. Contei-lhes histórias de encantar. Dividiram comigo as lágrimas sentidas de ofensas inofensivas, subtraímos agravos, adicionámos ternura e respeito, multiplicámos sorrisos, ânimo e garbo e ficámos amigos para a vida.
Sigo-lhes o percurso com a atenção de quem os sente um pouco seus...para sempre. Rebeldes e meigos, enérgicos e frágeis, lutadores, aplicados, diligentes, tímidos alguns, mas com o olhar assíduo e atento na tarefa. Marrões? Caixas de óculos? Bichos do mato? Bem poucos.
Alunos brilhantes, pessoas que se formam com brio e com brilho em toda a sua inteireza e plenitude, no percurso académico e na afirmação pessoal. Meritória a distinção. E ano após ano assisto emocionada e orgulhosa à recompensa do esforço(?), contaminados que estão pelo bichinho do saber. Não lhes sinto o cheiro a mofo, pressinto-lhes um ego forte e vacinado.
Minorias. Sem dúvida! Privilegiados? Nem todos.

A terra transformaram em aldeia e a aldeia em quintal e o quintal em canteiro. De mansões ou de casebres brotam em cachos das mãos de quem da cominucação rápida, ao segundo, não prescinde. Labirínticos percorremos o mundo, se para isso nos der. A plasticidade do espaço é uma nova característica do nosso mundo. Cruzamos oceanos e continentes em viagens de circum-navegação de convivência e trato reais.
Numa levitação antropológica viajemos no tempo percorrendo o testemunhado pela história e pela sociologia, recuemos ao habitat do Homo-Sapiens. A pedra lascada na mão pronta a arremessar, a desferir golpe mortal, por corpos desnudados sem impudor. A subsistência em toda a sua crueza e dimensão. A limitação da comunicação.
Hoje na mão um amontoado de conexões: fios, placas minúsculas, sensores, baterias, memórias, sistemas, sons, vozes , imagem e, novamente a nudez! Pela invasão, pela intromissão no espaço que até há pouco tempo era só nosso. Expostos movimentos que nos pertencem e que agora partilhamos com os outros, quase sem o ter por consciência, de uma forma obsessiva e controladora, quantas vezes. Vazia de fundamento, fundamentando, outras tantas, preenchimento de vazios e solidões.
O dia com mais de 24 horas pela rapidez impressa pela tecnologia. Cavernas de stress dentro de nós, pela competição com o tempo e com a máquina programada para nos superar. A ausência aparente de limites. A Terra a girar sobre um único dedo nosso, como berlinde de criança. Ilusão atómica.
No magma informe do tempo e do conhecimento, solidificámos formas de ínfima e inteligente precisão. Na aresta da rocha, o genoma de um novo mundo em gestação plena. Pronto a eclodir. E os nossos pés de barro ainda no passado.

Mãe-Natureza
Repousa serena.
Quietude mágica na expressão.
Vales e montanhas de frescura plena
bordejando um corpo de mulher serena, saciado de energia em extrema comunhão.
Corpo de mulher suave e belo que se renova a cada instante.
Dela conhecemos
os dias calmos de gestação materna
e os fervorosos de eterna amante.
Em regaços de aurora, embala seus filhos , embevecida.
E da ternura do tempo,
em entrega ardente, intensa e sentida,
exultada, surge com suores telúricos no corpo-mulher.
Exala calor, frémito de vida
vibra pujante do senso esquecida
em explosões...em ciclos de vida, planta,semeia e faz renascer.
Em mantos verdejantes, o ser nos envolve
e ingratos mergulhamos em moléstia pura.
Esquecendo que da fonte
que parece eterna
a poção vital também seca... nem sempre dura.
Em fúrias surge mulher desgrenhada
invertendo
nascente
rica de alimento
em recifes escolhosos trazendo desalento.

Inside... Outside

Revolta em nome do Amor
Quando o amor vos chamar, segui-o,
Embora seus caminhos sejam agrestes e escarpados;
E quando ele vos envolver com suas asas, cedei-lhe,
Embora a espada oculta na sua plumagem possa ferir-vos;
E quando ele vos falar, acreditai nele,
Embora sua voz possa despedaçar vossos sonhos
Como o vento devasta o jardim.
Pois, da mesma forma que o amor vos coroa,
Assim ele vos crucifica.
E da mesma forma que contribui para vosso crescimento,
Trabalha para vossa queda.
E da mesma forma que alcança vossa altura
E acaricia vossos ramos mais tenros que se embalam ao sol,
Assim também desce até vossas raízes
E as sacode no seu apego à terra.
Como feixes de trigo, ele vos aperta junto ao seu coração.
Ele vos debulha para expor vossa nudez.
Ele vos peneira para libertar-vos das palhas.
Ele vos mói até a extrema brancura.
Ele vos amassa até que vos torneis maleáveis.
Então, ele vos leva ao fogo sagrado e vos transforma
No pão místico do banquete divino.
Todas essas coisas, o amor operará em vós
Para que conheçais os segredos de vossos corações
E, com esse conhecimento,
Vos convertais no pão místico do banquete divino.
Todavia, se no vosso temor,
Procurardes somente a paz do amor e o gozo do amor,
Então seria melhor para vós que cobrísseis vossa nudez
E abandonásseis a eira do amor,
Para entrar num mundo sem estações,
Onde rireis, mas não todos os vossos risos,
E chorareis, mas não todas as vossas lágrimas.
O amor nada dá senão de si próprio
E nada recebe senão de si próprio.
O amor não possui, nem se deixa possuir.
Porque o amor basta-se a si mesmo.
Quando um de vós ama, que não diga:
“Deus está no meu coração”,
Mas que diga antes:"Eu estou no coração de Deus”.
E não imagineis que possais dirigir o curso do amor,
Pois o amor, se vos achar dignos,
Determinará ele próprio o vosso curso.
O amor não tem outro desejo
Senão o de atingir a sua plenitude.
Se, contudo, amardes e precisardes ter desejos,
Sejam estes os vossos desejos:
De vos diluirdes no amor e serdes como um riacho
Que canta sua melodia para a noite;
De conhecerdes a dor de sentir ternura demasiada;
De ficardes feridos por vossa própria compreensão do amor
E de sangrardes de boa vontade e com alegria;
De acordardes na aurora com o coração alado
E agradecerdes por um novo dia de amor;
De descansardes ao meio-dia
E meditardes sobre o êxtase do amor;
De voltardes para casa à noite com gratidão;
E de adormecerdes com uma prece no coração para o bem-amado,
E nos lábios uma canção de bem-aventurança.
Kahlil Gibran
Surpreendentemente de origem árabe, Kahlil Gibran é uma descoberta refrescante e incisiva, sem burkas, nem fundamentalismos no sentir.
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Novelo de tempo que me enreda e me aprisiona sem dar espaço para mim.
Urgências contidas na boca que não se calando se deixa de escutar.
Franjas de pensamento que não foram exploradas, embora sentidas.
Silêncios visitados na calada da noite em altares de reencontro suspenso.
Prazeres umbilicais desdenhados por permências de ofício.
Assim estive eu esta semana!

E a terra ficou suspensa
Tudo levava a crer que era montagem, filme de ficção, alucinação nossa que àquela hora tardia de almoço pedia alimento. Interrogativos os olhares, franzidas as testas pela imprevista inquietude que nos invadia, imobilizados os talheres que não concluíram trabalho pela surpresa na boca e paralisia súbita dos membros, procuravam-se respostas olhando em volta, descortinando quem da audição tivesse apuro e que nos descançasse o sobressalto .
Silêncio imposto pela magnitude do segundo embate. Em directo o terror, o medo, o futuro em brumas de fumo envolto. E a terra ficou suspensa...
Qual excalibur do mal, cravada no aço cosmopolita e na carne de inocentes. A dor da impotência sem rewind à vista nem Rei Artur salvador da desdita. E da palavra fez-se revolta e solidariedade.
Nada seria como dantes! O mundo fragmentava-se por ódios "divinos"e nova Divina Comédia se instalou, sem que Dante a tal assinasse. Do Purgatório não saímos, volvidos cinco anos. Contrapondo ao terrorismo a guerra infinita contra o mal, não como prevenção e defesa, mas no que de mais convencional e estratégico ela tem. A destabilização, a invasão, o ataque...uma ideologia a exponenciar os ataques e o terrorismo gratuitos.
E no cento de Manhattan a ferida continua aberta, expondo os danos sofridos e o que não se conseguiu fazer.